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- Memory Link Humanos 2 - Honra
Alabaster
Restaurant,
dizia a placa, e, é claro, logo abaixo do nome, havia cinco estrelas. Onde mais
um membro da Elite 4 almoçaria? Mesmo não estando trajado para a ocasião,
Cheren não se intimidava pela atmosfera elegantíssima do local, já havia ido
pra muitos desse porte quando era criança. Mas isso foi há quase dez anos.
Hoje, não mais... Não se seu tio não estivesse lá pra bancar a conta, pelo
menos.
Enquanto
estava na fila da entrada, que por sorte não estava muito longa, Cheren
observava o local. O Alabaster não era muito diferente de qualquer outro
estabelecimento chique e superficial. Cortinas vermelhas, chão e paredes de
madeira cara, lustres dourados... “Que
sem sal”, pensou o garoto, mantendo a expressão neutra. Por mais que fosse
um lugar mais simples, ele sentiu falta do restaurante tradicional Sinnohano
que ele foi com Hilda, Hilbert e Bianca uma vez, por cortesia do Sr. Park...
Ele nunca havia comido nada parecido com aquele tal de mochi... Foi uma experiência muito mais memorável do que qualquer
coisa que esse lugar genérico teria pra oferecer. Sua mãe ficou chocada quando
ouviu que ele comeu sentado no chão.
Quando
chegou sua vez, o maître, um homem de
meia-idade mal-humorado, olhou as roupas relativamente humildes de Cheren de
cima a baixo com uma expressão desconfiada.
—
Nome? — ele pediu de forma ríspida.
—
Boa tarde, antes de mais nada... — debochou Cheren. — Cheren Petrich.
O
senhor arregalou os olhos, ficando vermelho, e o garoto não pôde evitar um
sorrisinho satisfeito enquanto ajeitava os óculos no rosto.
—
P-Petrich?
—
Isso mesmo. Creio que tem alguém me esperando lá dentro.
—
Sim! É claro! Por aqui, senhor!
Andando
quase que correndo, ele fez questão de guiar Cheren em pessoa até uma mesa
redonda num canto meio escuro do restaurante, coberta por um luxuoso tecido
branco, grande demais pra duas pessoas, e escondida demais pra alguém do porte
da pessoa que o recebeu com um sorriso: Grimsley, membro da Elite 4 de Unova...
Que, pra ele, era só seu tio Ilya.
À
primeira vista, eles não se parecem muito. O cabelo espetado de Grimsley é mais
azulado, e seus olhos azuis mais claros e saturados, mas o olhar penetrante é a
marca registrada da família Petrich, e isso eles dois com certeza compartilhavam.
Como de costume quando ele estava de folga, Grimsley vestia um kimono confortável junto com um dos seus
longos cachecóis, e dessa vez ele estava todo de preto, talvez pra ajudar na
fuga dos paparazzi... Não que ajudasse muito. E, também como de costume, ele
parecia que não dormia direito há dias, e conhecendo seu amor pela vida noturna
— e assistindo o jornal de ontem... —, com certeza era verdade.
—
Ora, se não é o único membro da família que não tem vergonha de ser visto ao
meu lado!
—
Não é verdade — Cheren o repreendeu de leve enquanto se sentava. — Ninguém tem
vergonha de você, tio.
—
Agradeço pela mentira branca, mas não precisa esconder a verdade de mim. Eu sei
que ninguém de casa está me olhando com bons olhos agora... — Apesar das duras
palavras, Grimsley estava sorrindo. — A bronca que levei da sua mãe ontem pelo
telefone é prova o bastante disso.
—
É, eu ouvi... Cada palavra — ele suspirou. — Mas você sabe que ela fala pro seu
bem, não sabe?
—
Sei, sei... No fim das contas, ela vai me ver como um irmãozinho pra sempre...
É fofo — o sorriso aumentou, mas ficou mais debochado. — Mas ela não está aqui,
e você é muito novo pra me dar lição de moral, então vamos conversar sobre o
que realmente me interessa: Você. Como vai a sua jornada?
Quando
ele abriu a boca pra responder, uma garçonete alegrinha até demais chegou pra
cumprimentá-los, e entregar o loooongo
cardápio. Mais uma vez Cheren se lembrou da sua infância, e como a sua família
mal olhava quanto custava cada prato antes de pedir. Mas hoje, ele fez uma
careta ao ver os preços astronômicos à sua frente. Grimsley deve ter visto um
pedaço da sua testa franzida, pois rapidamente disse:
—
Não preciso nem dizer que eu vou pagar por qualquer coisa que você pedir sem
nenhum problema, não é?
—
Hã... Eu não estou com muita fome, então não vou pedir nada demais...
—
Por quê? Tem algo te deixando ansioso?
Cheren
abaixou o cardápio, agora a careta sendo de surpresa, mas Grimsley riu baixo
enquanto respondia a pergunta que sua expressão havia feito:
—
O quê? Você achou que eu não ia lembrar que você perde o apetite quando está
nervoso? Lembro muito bem da vez que você estava dormindo lá em casa quando era
criancinha e passou mal porque tinha uma prova no dia seguinte-
—
Afe, não me lembra disso! — as pontas das suas orelhas ficaram vermelhas. —
Mas, não, não é nada, é que... Estou preocupado com a minha próxima insígnia...
—
Hm. — Grimsley resmungou enquanto lia o cardápio. — Você não havia me dito que
sua batalha em Striaton ficou marcada pra amanhã? Eu conheço a Lenora, sei que
ela é dura na queda, mas você nem ganhou a primeira, e já está pensando na
segunda?
—
Uma vitória atrás da outra. Não foi isso que você me ensinou? Um guerreiro de
verdade sempre pondera a próxima batalha? — ele sorriu de leve.
—
A próxima batalha. Não necessariamente a próxima vitória — corrigiu o homem.
—
Mas de qualquer forma, é assim que o circuito de Ginásios funciona, não?
—
É assim que funciona... Ou essa pressa é sede pela Blueberry Academy?
Ah,
como era irritante ser lido com tanta facilidade. Só de ouvir essas duas
palavrinhas, um amargor familiar lhe tomou conta da boca. A fome só diminuiu,
mas a garçonete havia voltado, e ele se forçou a pedir uma porção de pepinos
com Toedscool em conserva junto com um chá de folhas de Pansage, um prato tão
simples e sem graça que a moça até estranhou, enquanto Grimsley pediu algum
prato Kalosiano que Cheren não havia prestado atenção no que era. Eles ficaram
em silêncio por alguns segundos antes do seu tio retomar o assunto:
—
Pagar sua matrícula não teria sido nenhum fardo pra mim. Você sabe, não é?
—
Eu... Eu não podia pedir isso de você...
—
Se não fosse eu, seus pais pagariam. Que diferença faria?
Cheren
lembrava como se fosse ontem o ressonante “não” que sua mãe havia lhe
respondido quando ele timidamente comentou sobre a oferta de Grimsley. Lá no
fundo, ele sabia que sua resposta seria essa. Dona Dragomira é orgulhosa
demais. Preferiria que seu filho ralasse atrás de insígnias pra talvez
conseguir entrar na sua escola dos sonhos do que permitir que seu irmão mais
novo pagasse por isso. Sempre foi assim na família Petrich. Orgulho e honra
valem mais do que qualquer felicidade que seja. Ele não devia se ressentir.
Mas
ele quase perguntou “por que não?” pra sua mãe naquela noite. Quase. Chegou na
ponta da língua, mas ele se acovardou.
—
Sua mãe acha que meu dinheiro seria sujo, não é?
—
N-não! — Cheren arregalou os olhos, negando com a cabeça. — Claro que não!
Mas
a verdade é que a possibilidade dela pensar assim era muito real. E ambos
sabiam bem disso. Se ficou ofendido ou triste, Grimsley não demonstrou. Sempre
com a mesma expressão diante de qualquer jogo de pôquer. Mas seu sorriso
habitual não estava mais lá.
—
Bom, se esse for o caso, eu entendo. Nosso nome já foi manchado demais...
O
silêncio pesado voltou, e por mais que não soubesse explicar o porquê — ele
nunca fora bom com sentimentos, afinal —, Cheren sentia um nó na garganta. Ele
se distraiu quando o Xtransceiver no seu pulso vibrou, no entanto, e o garoto
se permitiu dar uma olhada rápida na tela antes de deixá-lo no mudo: Bianca
estava lhe mandando mensagem. Depois ele a responderia.
—
Mas, já que sua mãe aparentemente quer dificultar sua vida... Eu lhe arranjei
um presente pra facilitar — Grimsley voltou a sorrir, pro seu alívio. —
Purrloin ainda é seu Pokémon favorito, certo?
—
Uhum! — Ele não conseguiu disfarçar a empolgação, como se fosse uma criança
prestes a ganhar um videogame novo de Natal.
De
um dos seus bolsos, Grimsley tirou um tipo de Poké Ball que não era comum em
Unova: Metade azul, metade preta, com uma lua minguante amarela dividindo as
cores. Também calhava da Moon Ball ser a favorita de Cheren desde que ela era
um garotinho.
—
Então confio a você um novo parceiro. Ele tem algumas... — seus olhos azuis
brilharam. — Surpresas. É um Pokémon bastante bem-equipado, podemos assim
dizer.
Cheren
sorriu, e estendeu a mão pra pegar a esfera... Mas Grimsley a puxou pra perto
de si no último instante. O rapaz ergueu o olhar pro tio, confuso.
—
Mas você tem que me prometer algo antes.
—
Hã, claro?
E,
de uma forma que ele não via há muitos, muitos anos, Grimsley ficou sério.
Sério de verdade.
—
Me prometa que a sua jornada não será só uma busca pela glória. Prometa que há
algum significado além de “restaurar a honra da família”, ou alguma palhaçada
assim. Porque se esse for seu objetivo final... Se você chegar na Elite, eu não
vou batalhar com você, e todo o seu tempo vai ser jogado no lixo.
O
braço de Cheren ficou parado onde estava, em choque, enquanto ele sentia a boca
secar. Isso... Isso foi o que a professora Juniper havia dito pra ele em
Accumula. Não essas exatas palavras, claro, mas o princípio era exatamente o
mesmo. “Não saia numa jornada querendo
consertar ou amenizar o que seu avô fez, tá bem?”, disse ela. Quantas
pessoas tinham essa noção que era isso que ele queria? Ele era tão fácil assim
de ler? Ou o desespero da sua mãe era tão nítido que era óbvio que ela
enxergava o propósito da jornada de Cheren desse jeito?
—
E então? — Grimsley insistiu, o puxando do seu estupor.
—
Tio, por que isso do nada? — ele deu uma risada nervosa.
—
Prometa.
—
T-tá, eu prometo!
—
Qual seu objetivo, então?
—
Hã... — Cheren bateu de leve os dedos na mesa, pensando em qualquer besteira
pra dizer. — Derrotar a Hilda?
Os
ombros de Grimsley caíram um pouco e ele bufou.... Mas entregou a Moon Ball na
mão do seu sobrinho.
—
Ainda não é bom, mas melhor.
—
O que mais seria um objetivo bom? — Ele riu, dessa vez mais aliviado. — Vai me
dizer que o senhor quer que eu busque “crescer como pessoa” ou algo assim?
—
Seja lá qual for, não sou eu que tenho que te dizer... Ou enfiar maturidade na
sua goela. Isso só o tempo fará.
—
Se você diz... — Cheren deu de ombros, colocando a Poké Ball no seu bolso. —
Mas obrigado pelo presente, tio.
—
Eh, não agradeça. Não fiz nada demais... Como vão seus amigos, aliás?
—
Quais os nomes deles? — o garoto sorriu maliciosamente, desafiando.
—
Ah, não faça isso comigo... — Grimsley deu um riso baixo. — Bi... Bianca,
certo? A loirinha baixinha?
—
Acertou. E os outros dois?
—
Hã... Os filhos do professor? Hm... Eles são gêmeos, não são? Eles tem nomes
parecidos...
—
Não, tio, toda vez que eu falo deles você pergunta isso! — Cheren revirou os
olhos, rindo. — Eu acabei de falar o nome de uma delas!
—
Aaaaah, Hilda! E o garoto ééééé... Ha... Hudson? Haroldo? Harrison?
—
Não chegou nem perto.
—
Ah, já sei. Hammurabi.
—
Não é, mas agora vou chamar ele assim.
—
Seria um bom nome pra uma criança, não seria?
—
Ainda bem que o senhor não tem filhos...
Para
alegria de Cheren, pelo resto do almoço, não se falou mais de Blueberry
Academy, de Dragomira, de escândalos, de cassinos, de avôs, nem nada assim. Só
uma tarde normal, com conversas normais que todos os jovens da idade de Cheren
tem com suas famílias sobre suas jornadas... Bom, além das fofocas e dicas sobre a Liga daquele ano que outros não teriam acesso.
Ele até conseguiu ignorar o peso que havia crescido em seu peito desde que Grimsley havia lhe feito fazer aquela promessa.











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