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- Capítulo 7 - Ex-Hoodlums
— Hm... Quark? —
chamou Ghetsis.
— Sim? — o ninja
tentou disfarçar o quão ofegante ele estava abaixando a máscara.
— Senti seus
teleportes um tanto quanto bambos desde Nacrene... Talvez você precise de um
pouco mais de prática.
O caminho até o
castelo da Team Plasma era ao norte da cidade de Lacunosa, passando direto por
uma pequena floresta. Anos atrás, antes de N sequer ser adotado, Ghetsis havia
limpado o caminho e criado uma simples estrada de terra que tornava a travessia
bem mais fácil, até instalando postes com luzes azuis de LED pra iluminar o
lugar, o que era bem necessário nesse momento. Quark demorava várias horas pra
atravessar a região de cabo a rabo quando tinha que levar alguém consigo, então
eles chegaram apenas no dia seguinte. Ainda bem que não havia muitos Pokémon
naquele caminho, tirando um ou outro Cottonee curioso que parava pra espiá-los.
— Por que você
não anda com as próprias patas, hein?! — Perguntou N pro seu Zoroark
disfarçado. — Pelo menos fique quieto!
— Por que eu vou
andar se tenho você pra me carregar? Não é como se ele fosse topar me levar! —
Scarlet apontou pra o ninja do seu lado com a cabeça.
— Quark, será
que... — N começou.
Mas quando ele
se virou pra encarar o homem, percebeu quanto ele lutava pra manter os olhos
abertos e as costas retas, e engoliu um pedaço enorme de culpa que ficou
entalado na sua garganta. Claro, ele estava sobrecarregado e com a perna
machucada, mas não havia feito nem vinte por cento do esforço físico que o
ninja tinha feito naquele dia tão longo...
— Hã... Você não
tá bem.
— Ah, é? — Quark
riu sem muito humor. — Fique em paz, é só uma dor de cabeça.
— Quando a gente
chegar, é melhor ir pra enfermaria.
— Urgh, não
quero levar esporro de novo...
— Não quero
saber! — Insistiu o rei dos Plasmas. — Você precisa descansar, você tá péssi-
Sua fala morreu
quando seu olhar acabou parando no braço esquerdo de Quark, e N arregalou os
olhos quando se deparou com algo que era bem incomum de se ver à mostra: A sua
cicatriz de queimadura. Era uma listra um tanto escura que ia de um lado a
outro de seu antebraço na horizontal, perto da dobra de seu cotovelo. O ninja
seguiu os olhos do garoto, o que o fez cobrir a marca com a mão direita. Até
Scarlet havia parado de se revirar nos braços do seu mestre pra espiar.
— Nossa, faz
tempo que eu não te via com ela exposta — Comentou N.
— Só percebeu
agora? — Ele sorriu, mas desviou o olhar. — É mais um dos motivos de eu não
gostar desse uniforme... Precisaria ir atrás de maquiagem pra esconder essa
droga.
— Por quê? — N
ergueu uma sobrancelha. — É só uma cicatriz...
— É fácil de
identificar.
Essa foi a única
resposta que o monarca recebeu e ele sabia que não teria mais nenhuma mesmo que
insistisse. Então, ele focou no castelo que estava logo à frente... Mas, por
algum motivo, ele também viu que Sterling havia se virado pra encarar Quark, e
parecia preocupado também, o olhando com a testa franzida enquanto tirava suas
luvas azuis do uniforme da equipe. Porém, ele voltou a prestar atenção em
Ghetsis assim que notou N encarando.
— Quem diria,
ele tem um pingo de coração... — Natural murmurou pra si mesmo.
— Não fala assim
do moleque, ele é gente boa — Repreendeu Scarlet, enquanto escalava as costas
de N pra subir na sua cabeça.
— Sei...
— Tua cabeça
podia ser mais confortável, né, ela tem um formato esquisito.
— Que formato
esquisito o quê?! Para de ser folgado!
Logo, as árvores
da floresta abriram espaço pro enorme jardim frontal do castelo. Desde que
Ghetsis o havia comprado anos atrás — quando era um hotel chiquérrimo — com a
sua fortuna de descendente da ex-família real, o nome legal da construção é
Considine House, mas antes disso, era conhecido como castelo de Caerbane. Por
fora, é uma fortaleza cinza de pedra muito inspirada na arquitetura Galariana,
lembrando os muros que circulam a cidade de Hammerlocke — tirando os painéis
solares no teto —. Mas por dentro... Muitos amantes de construções antigas
abominam Ghetsis pelas reformas que ele fez, pintando todas as paredes de
branco e dourado, substituindo o chão original por um linóleo azul-marinho que
refletia as luzes do teto direto nos seus olhos, pendurando lustres Kalosianos
de épocas totalmente diferentes e até destruindo partes dos muros pra construir
uma cachoeira interna. N não conseguia culpá-las... O castelo era muito mais
bonito quando ele era criança. Mas ele até que gostava de dormir com o som da
água correndo, caso contrário, o silêncio dentro daquele lugar enorme ia ser
opressor.
Assim que
chegaram, Ghetsis declarou que ia dormir após uma viagem tão longa, e
recomendou que N e Quark fizessem o mesmo. Sterling disse que tinha negócios a
tratar com seu avô, um dos Sete Sábios, e se retirou também, deixando apenas o
rei, o ninja e o Zoroark. Mas esse último foi dispensado de seus serviços logo
em seguida, voltando pro jardim onde morava, dizendo que era hora de caçar seu
jantar. N não quis saber dos detalhes. Logo quando ele e Quark chegaram ao
andar onde a enfermaria era a primeira porta, o membro da Shadow Triad fez
questão de botar um pé no degrau pra subir pro andar dos aposentos da elite da
Team Plasma.
— Já que nossa
missão acabou... — Bocejou Quark, botando o outro pé no degrau acima. — Vou
dormir por uns três dias-
— Não senhor!
N o puxou pelo
braço e o empurrou de leve em direção à grande porta de madeira da enfermaria,
o que o fez resmungar algo em frustração.
— Se você for
dormir no seu quarto, não vão te deixar em paz! E se alguém vier lhe pedir
alguma coisa?
— É só eu não
abrir a porta...
— Como se
Zinzolin aceitasse um não como resposta. Peça pra Anthea um remédio pra sua dor
de cabeça e vá descansar por lá. É uma ordem.
— Que rei
tirano, hein? — Quark revirou os olhos.
Antes de subir
as escadas pra ir dormir, o garoto de cabelos verdes falou:
— Se for pro seu
bem, sou mesmo! Vá dormir!
— Sim, senhor...
Apesar do
deboche, ele obedeceu a sua majestade e bateu na porta de madeira da enfermaria
usando a aldrava — que tinha um rosto de um Darmanitan esculpido em metal —, já
se preparando pro sermão que ia levar.
— Entre! — Disse
uma voz agradável de garota.
Quark entrou a passos arrastados, e, muito para o seu desprazer, assim que ele botou os pés no local, sentiu um calafrio percorrer seu corpo, que estava ficando gelado com rapidez. A moça que estava sentada numa cadeira no fundo do cômodo imediatamente arregalou os olhos e correu até ele, o segurando o melhor que conseguia com seu porte fraco. Que lugar amaldiçoado — ou seria abençoado? — era aquele, em que só de entrar, ele já começava a passar mal? Quark estava se perguntando se conseguiria evitar colocar todo seu peso em cima da garota, mas, por sorte, o Pokémon dela chegou pra ajudá-la a carregar o ninja com seus poderes psíquicos: Gothorita, uma pequena criatura humanóide com rosto roxo e olhos azuis, e diversos “laços” brancos pelo seu corpo preto.
A enfermaria era o território de Rosemary, mais conhecida entre os membros da Team Plasma como Anthea, a filha mais velha de Ghetsis. Alta e elegante, com olhos e longos cabelos cor-de-rosa, era frequentemente comparada com uma princesa de um belo conto de fadas. Hoje, ela vestia um delicado vestido da mesma cor de seu cabelo com um xale verde nos ombros.
— Qual foi o
trajeto? — Ela perguntou o colocava em uma das macas impecavelmente limpas com
ajuda da sua Gothorita.
— Hã… Daqui pra
Lacunosa à pé… Depois teleportei pra Opelucid… — Sua cabeça latejava, era
difícil pensar. — Depois, dali pro Entralink, dali pra Nimbasa, dali pra
Castelia, atravessamos a Skyarrow Bridge a pé, depois de Nacrene pra Accumula,
e dali pro laboratório.
— Em… Em menos
de vinte e quatro horas?! — A boca de Anthea se abriu em choque.
— Foram umas
vinte e seis, vinte e sete, por aí. Na volta eu até consegui dar umas pausas
mais demoradas, já que não tinha mais tanta pressa… Maaaas Ghetsis se nega a
atravessar as pontes andando, então foram mais teleportes do que a ida...
— O papai perdeu
a cabeça?! Não é à toa que você está tão exausto! — Ela bufou. — Você vai
acabar se matando desse jeito!
— Relaxa,
Rosie, não tenho planos de ter uma vida longe de qualquer forma...
O risinho
sarcástico de Quark virou uma careta quando ele levou um tapa no ombro da
garota de cabelos róseos.
— Ai — ele
gemeu, mais por educação do que por dor, já que ela não conseguiria lhe
machucar nem se quisesse.
— Já falei pra
você parar com essas brincadeiras sem graça! — Ela disse de forma severa.
— Como vai o
Shogun, aliás?
— Ah, bem
melhor... Ele está no jardim, provavelmente... Se escondendo em algum buraco
como de costume.
Quark suspirou
de alívio quando a garota colocou um pano sobre seus olhos pra que a luz da enfermaria
não o incomodasse mais.
— Sente mais
alguma coisa além da dor de cabeça?
— O de sempre...
Tudo dói. Mas só preciso dormir um pouco.
— Além dos
teleportes, você fez algum esforço físico muito grande?
— Carreguei um
Klinklang. Conta?
Ele conseguiu
ouvir Anthea respirando fundo numa tentativa de manter a paciência, embora esta
com certeza não tivesse sido a primeira vez que ele era inconsequente em
relação aos limites do seu corpo. Mas é parte do “trabalho”, não é? Essa era
sua especialidade na Shadow Triad. Buscar um pacote ou deixar alguém do outro
lado da região e depois voltar... Exaustão constante era parte dele naquela
altura do campeonato, cansaço era algo que estava enraizado em seus ossos.
Mas de um jeito ou de outro, tudo ia acabar em breve, e ele iria poder descansar.
— Quark... Eu te
ajudo de todas as formas que consigo, mas... Acho que uma hora o papai vai ter
que te deixar ir num médico de verdade. Eu não sei mais o que fazer pra te
ajudar.
— Não preciso de
ajuda — ele disse gentilmente. — Só preciso descansar.
— Mas você
está sempre cansado... Eu não creio que isso seja normal...
— Porque eu tô
sempre trabalhando.
— Gothorita,
poderia usar Heal Pulse, por favor?
Quark deu um
grunhido satisfeito quando a Pokémon colocou uma de suas mãos sem dedos na sua
bochecha e usou o movimento. O barulho que ele fazia dentro do seu crânio era
estranho, pulsante e meio oco, como alguém batendo em madeira, mas aliviou a
dor de cabeça quase que de imediato. Não curou, mas ajudou bastante.
— Gostaria de Hypnosis pra te ajudar a dormir?
Ele deveria
estar acabadíssimo para Anthea sugerir isso de bom grado, já que Hypnosis não era exatamente o método
mais seguro pra ajudar um ser humano a ter uma boa noite de sono. Mas ele sabia
que teria no mínimo um sono bem conturbado se não concordasse. Havia
sentimentos conflitantes demais dentro da sua cabeça...
— Sim, por favor
— ele aceitou sem hesitar. — Deixa eu só fazer uma coisa antes...
O líder da
Shadow Triad ergueu um pouco o pano branco dos seus olhos e puxou o
Xtransceiver que estava ocultado pelo largo punho da luva do seu novo uniforme.
Ele procurou por alguém nos seus contatos, achou Helena logo no topo da lista e
digitou uma mensagem rápida:
— Pronto — Quark
tirou a venda dos olhos.
— Descanse bem —
desejou Anthea gentilmente. — Gothorita, Hypnosis,
por favor.
Ele olhou o
Pokémon nos olhos, focando nas íris turquesa da criatura. Eles começaram a
brilhar, ganhando uma coloração rosa-choque, e em poucos segundos, ele
finalmente ficou inconsciente, com seu último pensamento sendo um desejo
silencioso que ele não sonhasse com nada que ele não poderia ter.
[...]
“ANJO_CHERUBINI FOI ELIMINADO”.
— Hilbert, só me
explica o porquê de você não ter ido de Umbreon, porque essa Goodra aqui é o
pior tank que eu já vi nesse jogo.
— Porque ninguém
foi de suporte!
— E você tá de
Sableye?!
— O que você tem
contra o Sableye?! Olha minha skin!
Eu sou o melhor jogador de Sableye de Unova, quiçá do plane- Não, não sou não,
acabei de morrer.
“STUNFISKDOPARKOUR FOI ELIMINADO”.
— Na próxima,
volta pro Umbreon, porque isso aqui tá insalubre, você não nasceu pra essa vida
de suporte — Cheren suspirou frustrado, não falando alto pra não acordar a sua
Tepig que dormia em seu colo.
A noite era mais
do que tranquila no hotel do Centro Pokémon de Accumula. Fazendo jus ao seu
título de cidade mais monótona — e escura, os postes de luz eram à moda antiga
com lâmpadas amarelas ao invés de serem de LED — de Unova, mal se ouvia nada do
lado de fora além um carro ou outro, o chiado de grupinhos de Woobat voando
pelo céu noturno ou latidos de Lillipup em seus quintais... E, nesse caso,
Cheren e Hilbert jogando Pokémon Unite em seus respectivos Ponytendo Switches.
— O que ela tá
olhando? — O garoto de óculos perguntou, olhando pra janela.
Hilbert seguiu o
olhar do amigo, e viu sua Elgyem admirando a “paisagem”: Uma rua deserta com um
terreno baldio do lado, a coisa mais “empolgante” nela sendo uma árvore seca
que ainda se recuperava do inverno que havia passado.
— Hã... Sei lá.
Ele se aproximou
do Pokémon, tentando ver o que Nia via de tão interessante, mas não havia
nada... Até que ele percebeu que ela olhava pra cima, pras estrelas, que eram
relativamente visíveis nessa área de Unova. Nada muito bonito, mas dava pra ver
que estavam lá. Hilbert sorriu de leve.
— Você devia ver
o céu em Johto. Olivine, Cianwood, Ecruteak... Dá pra ver tudo lá.
Ela se virou pro
seu treinador, e sua mão direita acendeu em vermelho, verde, amarelo, verde e
verde novamente enquanto ela virava de leve a cabeça para o lado. Claro, Hilbert
não fazia ideia do que ela tinha dito, mas fez que sim com a cabeça.
— Já vi uma lua
de sangue lá uma vez. Foi bem mágico — ele continuou por algum motivo, mesmo
sabendo que Nia não ia entender. — Kanto dá pra ver bem as estrelas também. Na
real, depende do lugar. Em Fuchsia até que dá. Em Celadon, nem tanto. Sinnoh
também depende.
— Um homem
viajado — disse Cheren, também sorrindo e fazendo carinho nas orelhas da Tepig.
— Falou o cara
que já fez cruzeiro em Alola...
— Mas foi só um
cruzeiro. Você morou lá.
— Verdade... Tem
horas que eu sinto falta de lá... De Johto, no caso. De Sinnoh eu só quero
distância.
— Seu pai não
quer mesmo voltar pra lá? Nem de férias?
— Não... Acho
que tudo lá faz ele sentir falta do vovô...
Falar de Sinnoh
o lembrou mais uma vez que ele devia mandar uma mensagem pra sua genitora...
Mas dane-se, estava muito tarde pra isso. Ele faria isso amanhã. Talvez.
Provavelmente não. Não importa.
Mas, por sorte,
uma batida na porta o forçou a pensar em outra coisa. Os garotos se
entreolharam. Eles haviam pendurado a plaquinha de “não perturbe” na maçaneta,
então só podia ser alguma das meninas. Quando Hilbert abriu a porta, Hilda
estava lá, segurando seu Snivy pelo rabo como se ele fosse um saco de lixo, e
ele não parecia se arrepender de nada.
— Ow, dá pra eu
e o Ren trocar de quarto? O Oshawott da Bibi e essa peste não param de brigar!
— Me devolve pra professora e captura um
Patrat pra pôr no meu lugar, ridícula.
— Ô, Cheren... —
Hilbert se virou.
— Já ouvi, já
ouvi...
Ele suspirou
alto, cuidadosamente segurando sua Tepig com um braço só de um jeito que não a
acordasse. Hilbert abriu um sorrisinho enquanto ajudava o amigo a guardar suas
coisas na mochila, pensando que pra quem tinha essa espécie como última opção
de inicial, ele estava bem apegado nela.
— Boa noite,
Hilda.
— Falou, Ren.
Valeu aí. — Ela lhe deu um tapinha carinhoso no ombro com a mão que não estava
segurando Emerald como se ela fosse fazer um churrasco.
Assim que
entrou, Hilda largou o Snivy em cima da escrivaninha que ficava logo abaixo da
janela, onde Nia continuava olhando pras estrelas. Ele sibilou pra ela,
cerrando os olhos castanhos, mas logo começou a procurar o ângulo onde a luz da
lua batia melhor pra poder se deitar.
— Tava ruim
nesse nível? — Perguntou Hilbert.
— Osh, demais! Eu e a
Bibi tava fazendo pulseiras, mas aí eles começaram a gritar um com o outro em
cima da cama, e aí começaram a sair no soco... Bom, não soco, né, Snivy não tem
nem braço direito, né? Mas enfim.
— Que grosseria falar mal de alguém quando ela
está ouvindo... — Emerald resmungou pra si mesmo.
— Ah, você
voltou a fazer pulseiras?
— Isso! Eu fiz
uma pra ela antes da gente trocar de quarto! — Hilda sorriu, orgulhosa. —
Queria ter feito antes da gente sair em jornada, mas fiquei tão nervosa com o
rolê da nota que esqueci... E falando nisso...
A garota enfiou
a mão no bolso fundo da calça, e entregou algo ao irmão: Uma pulseira feita de
tiras pretas de couro sintético, com pequenas miçangas brancas e vermelhas em
partes dela e um pingente em formato de espiral, que parecia uma concha perolada,
ou um dos símbolos associados com o tipo psíquico.
— Pra mim? — Ele
piscou, com os olhos um pouquinho arregalados.
— Claro, ué,
quem mais?
— Ah... — as
pontas das orelhas de Hilbert ficaram tão vermelhas quanto as contas da sua
pulseira. — Valeu. Ficou legal.
— Tô com umas
miçangas pra fazer umas mais tradicionais também, mas achei que ‘cê ia gostar
mais de uma de couro!
— É, eu gosto
mais desse estilo... Me lembra as pulseiras de corda que a mamãe fazia.
Hilda colocou o
alarme do seu Xtransceiver pra tocar e deitou na cama que antes pertencia a
Cheren, apagando a luz do seu lado e se cobrindo com o lençol grosso do hotel,
e Hilbert fez o mesmo, guardando seu Ponytendo dentro da sua mochila e
colocando o seu presente em cima da cabeceira, logo em cima das luvas que seu
pai havia crochetado pra que ele não se esquecesse de colocá-la no braço de
manhã.
— Falando
nela... ‘Cê acha estranho dormir sem ouvir o barulho do mar? Sei lá, eu já
dormi na casa da tua avó ou no apartamento do teu pai, mas... Era
só por uma noite, sabe?
— É diferente
mesmo... Parece que eu passei mais tempo em Nuvema do que fora dela, mesmo não
sendo verdade, mas agora... Acho que a gente não vai voltar pra lá por um
tempo...
Ambos ficaram
quietos, encarando o teto branco por um minuto ou dois, o silêncio só sendo
interrompido por carros passando na rua. De Accumula, com certeza não dava mais
pra ouvir o mar.
— Hibi.
— Hm?
— ‘Cê sabe
que... ‘Cê não precisa vir comigo se não quiser mesmo, né? Pode voltar pra casa
se achar melhor... Eu queria que ‘cê viesse comigo, claro, mas... Não quero te
obrigar a nada.
— Eu sei, relaxa
— Hilbert suspirou alto. — Eu não queria mesmo sair de casa, mas... Sei lá,
agora que eu tô aqui... Meio que tô esperando que algo bom saia disso, sabe?
— Tipo o quê?
— Não sei. Não
sei mesmo... Talvez... Que algum caminho se abra pra mim?
— Que algum
caminho se abra... — Hilda repetiu, hesitando. — É. Acho que é isso que tô
procurando também. Quero fazer alguma coisa... Alguma coisa boa.
— Tipo o quê?
— Sei lá. Acho
que uma hora eu descubro — ela suspirou alto. — Vamo dormir... Amanhã vai
ser um dia cheio.
— Olha, se a
gente acordar cedo, deve dar pra evitar esses caras-
— Não — ela
interrompeu o irmão, ficando séria. — Eu vou ganhar deles. Eu tenho um plano.
— Tá, tá... —
Hilbert também suspirou alto. — Boa noite, então.
— Boa noite...
Hilbert se virou
pra sua direita, olhando pra Nia, que havia desistido de olhar as estrelas pela
janela e havia se encolhido ao lado de Emerald pra dormir — quem diria, ele não
sabia que os Elgyem dormiam de fato —. Já Hilda se virou em direção à porta,
com a luz amarela do corredor saindo pelas frestas. Diferente do seu irmão, ela
não fechou os olhos de imediato. Ela não esperava encontrar os Hoodlums, seu
antigo grupo de amigos, tão cedo... Encontrar ele. Zach.
Cabelos loiros
médios, bagunçados, quase sempre escondidos sob um boné laranja. Sorriso de
malandro, assim como seus olhos azuis. Até ano passado, ver Zach Seymour lhe
trazia nada além de alegria, de um quentinho no coração. Ele era seu crush desde que ela o havia conhecido
pela primeira vez quando eles eram novinhos.
Na época do
ensino médio, Hilda nunca teve problemas com a forma que os outros meninos a
viam: Como “um dos caras”. Era uma coisa boa, não era? Ela podia ser ela mesma!
Falar alto, ficar no fundão, jogar bola com eles... Principalmente ao lado de
Zach. Era um clichê de filme Unovense escolar, uma garota se apaixonar pelo seu
melhor amigo. E, no fim, depois de muitas decepções amorosas, eles percebem que
o amor de suas vidas estava logo ao lado, e ficam juntos, com uma cena fofa do
casal no baile de formatura antes dos créditos subirem. Certo?
Não. Ao invés
disso, Zach disse que o convite pro baile era “só uma trollagem”, rindo, e foi com outra garota, nunca se dando ao
trabalho de pensar se tinha ferido os sentimentos da sua “melhor amiga”... E o
único menino do grupo que não achou graça da situação foi Lou, que era o
“líder” da “gangue” e que não fazia ideia que eles tinham armado essa
pegadinha. Isso deu uma briga tão feia que meio que acabou com o grupo, mas os
meninos riram de se acabar da cara de tonta dela. Parabéns pra ela por, naquela
época, achar que ser amiga dos moleques era “menos drama” do que ser amiga de
meninas... A única coisa boa dessa situação foi que a aproximou de Bianca — que
antes era mais amiga de Hilbert do que dela.
Ela ainda
conseguia sentir a humilhação de ter passado a noite do baile chorando dentro
do quarto, com o peito queimando enquanto ela pensava no que havia acontecido.
O resto da família tinha ido até a casa dos Seymours no dia anterior, tentar
ter uma conversa civilizada apesar da raiva. E o que os pais de Zach disseram?
“É brincadeira de jovem. Ele é um bom rapaz, não teve a intenção”. Não faltou nada
pros vizinhos chamarem a polícia. Andrew teve que quase arrastar Helga — que
queria gritar até ficar rouca pela “merda
que esse moleque fez com a minha filha” — e Hilbert — que ficou tão cego de
raiva que perdeu sua aversão a brigas físicas e queria ir até o quarto de Zach
pra “dar soco nesse idiota até ele
recuperar a porra da noção” — de volta pro carro quando ele percebeu que
não adiantava mais tentar dialogar.
Ela havia
perdido todas as batalhas que havia tido até agora. Mas essa, ah, essa ela ia vencer.
De um jeito ou de outro.
[...]
Hilda havia
propositalmente colocado seu alarme pra tocar de dez horas da manhã, querendo
pegar o horário da “reunião do terceirão” que Lou havia dito. Ele disse que não
faria promessas já que estava ocupado com algo, mas que tentaria ao máximo
passar lá pra ver a confusão. Por pior que fosse a situação toda, ela estava
feliz com a chance de vê-lo novamente. Ele havia sumido depois que eles se
formaram na escola.
Hilbert só mudou
a camisa de baixo e trocou um casaco azul por um moletom marrom, e Hilda vestiu
a camisa xadrez que estava amarrada na sua cintura e finalmente decidiu que
estava frio o bastante pra vestir uma calça jeans.
Cheren e Bianca
haviam saído de Accumula horas antes, Cheren por ter mania de acordar cedo
mesmo, e Bianca por pressa de querer ir para o próximo destino o mais rápido
possível, deixando os irmãos pra trás para fazer o check-out no hotel e tomar café da manhã sozinhos... Bem, não sozinhos, com seus Pokémon. O Snivy
comeu em um canto em silêncio, embaixo da janela pra pegar raios de sol, e, pra
surpresa de Hilbert, Elgyem mostrou interesse no sanduíche de queijo grelhado
que o garoto escolheu pro café, e comeu tudo quando Hilbert pediu um pra ela —
até acrescentando alguns grãos da sua comida de Pokémon, o que era só um pouco
nojento. Bom, ele sabia que Pokémon humanóides geralmente se dão bem com
comidas humanas, salvo algumas exceções, então devia ficar tudo bem. Já Hilda
comeu em silêncio o mesmo ramen com
frutos do mar que seu irmão havia escolhido ontem.
— Qual é o plano
que você falou ontem, hein? — ele perguntou quando eles estavam indo pagar pela
comida.
— ‘Cê vai ver — ela
estava estranhamente séria enquanto pegava algum tipo de chocolate verde em uma
das prateleiras do Poké Mart.
Após ela colocar
o Snivy na Poké Ball e a Elgyem voltar pra sua posição habitual de pendurar os
bracinhos nos ombros do seu mestre, os irmãos então saíram do Centro, sendo
recepcionados por um baterista e um tecladista que tocavam uma alegre canção do
lado de fora, esperando ganhar alguma gorjeta pelo show. Mesmo com a tensão no
ar, Hilbert e Hilda não conseguiram evitar parar pra ouvir um pouco. O
baterista deu um sorriso grato quando Hilbert deixou uma nota de cinco dentro
do pote de vidro no chão. O dinheiro não estava tão contado assim, valia a pena.
Depois de salvar o nome da dupla no seu Spoinkfy, ele se virou pra encarar a
irmã, que estava olhando em direção à Nuvema, bem ao longe no horizonte.
Normalmente ele a achava tão fácil de ler, mas naquele momento, sua expressão
era impassível.
— Simbora.
Hilda foi
andando na frente, e Hilbert veio logo atrás, já colocando seus headphones nos ouvidos aproveitando que
a sua irmã estava quieta. Ele escolheu a música que tinha acabado de ouvir do
lado de fora do Centro, era bem chiclete e agradável. Lhe dava vontade de
caminhar. E, uma coisa que fez Hilbert sorrir: Nia encostou a cabeça num lado
do seu headphone, ouvindo um pouco da
música que vazava pelo volume alto.
A Rota 2 de
Unova é, pro alívio de Hilbert, uma linha reta, embora existissem algumas
inclinações para subir caso você quisesse procurar por algum outro Pokémon que
não fosse Lillipup ou Purrloin... Ou alguns Patrat, mas esses já eram mais
raros aqui, já que a população de Patrat se concentrava mais na Rota 1.
Aqui havia mais carros passando, mas muitos deles eram mais de caminhonetes e caminhões, já que era dessa rota pastoral que vinham os mais diversos legumes, frutas e grãos que as pessoas do sudeste de Unova consumiam. Campos e mais campos ao oeste, até onde a vista alcançava, só parando no limite da floresta, local da briga que havia causado tantos problemas pro pessoal do laboratório da professora Juniper. Pena que a vista não era das melhores por enquanto, as plantas e árvores ainda estavam se recuperando do inverno que havia recém acabado e não estavam muito vistosas. O céu ainda estar meio nublado não ajudava, apesar de estar menos cinza do que ontem.
O lugar de
encontro dos ex-amigos de Hilda era logo abaixo de uma colinazinha, um cantinho
escondido dos agricultores e dos carros que passavam por ali, cenário perfeito
pra matar aula. Mas, por algum motivo, Hilda escolheu subir esse morrinho ao
invés de ir para a base dele.
— Ow, pra onde a
gente tá indo? — Hilbert franziu a testa tirando o lado do headphone onde sua Elgyem não estava com a cabeça encostada.
— Capturar meu
primeiro Pokémon! — Pela primeira vez naquele dia, ela sorriu. — Até comprei
umas Great Ball no supermercado ontem!
— Aaaah...
Foi uma pergunta
besta, ele devia ter adivinhado. Nas partes mais altas desse caminho, vira e
mexe apareciam alguns do Pokémon favorito de Hilda: Blitzle. Décadas atrás,
eles viviam na Rota 2 aos montes, mas a construção de pequenas fazendas os
levaram a se concentrar na Rota 3. Porém, ainda era possível achar um ou outro,
graças ao fato que Zebstrika, sua forma evoluída, ainda era bastante usada por
fazendeiros. E é claro que ela iria procurar por um o mais rápido possível.
Parte de Hilbert
obviamente queria reclamar de ter que subir mais uma maldita ladeira, mas a
vontade de ver sua irmã conseguir — ou não — capturar um Pokémon por conta
própria venceu, então ele foi atrás dela.
E, por sorte, de
fato havia um grupinho de Blitzle no topo, zebrinhas com escleras amarelas,
íris azuis e uma crina branca, curta e pontuda no formato de um raio. A maioria
delas estava reunida ao redor de uma grama cinzenta baixinha, mas os olhos de
Hilda se fixaram numa que estava mais distante da manada, tentando arrancar um
pedaço da casca de uma árvore seca com seus dentes da frente. Pra estrear o
objeto, já que Hilda com certeza não ia se lembrar de fazer isso, Hilbert tirou
sua Pokédex do bolso e a apontou pra criatura:
— Blitzle,
o Pokémon eletrificado. O seu batimento cardíaco gera sua eletricidade. Quando
Blitzle se assusta e seu pulso acelera, a voltagem da sua eletricidade também
aumenta.
Além disso, a
Pokédex informou aos dois que o Pokémon à sua frente era uma fêmea e seus
golpes eram Quick Attack, Charge e Tail Whip.
— Hilda, pelo
amor de Arceus, cuidado, não vai tomar um coice...
— Relaxa, já
falei que tenho um plano!
Hilbert esperava
que ela fosse usar seu Snivy, como a maioria dos treinadores faria. Ao invés
disso, ela tirou do bolso e abriu metade do “chocolate” esquisito que ela havia
comprado no Poké Mart. Ele esperava que fosse sabor de maçã verde, ou picante,
alguma coisa assim, mas nem sequer era pra humanos: Era um lanche especial pra
Pokémon herbívoros. O formato era de uma barra de chocolate, mas era praticamente
só planta.
Hilda se abaixou
um pouco pra ficar mais ou menos na altura do Blitzle, estendeu o braço um
pouco com o lanchinho na mão, e se aproximou a passos beeeem lentos... Bem mais calma que Hilbert, que estava só olhando
e sentia o seu coração pulsando na garganta.
— Ei,
amiguinho... — Ela disse numa voz quieta e gentil.
A zebra virou a
cabeça rapidamente, e sua crina brilhou num tom vivo de amarelo por alguns segundos
enquanto ele se pôs numa posição de alerta, com as pernas meio abertas. Hilda
parou de andar na hora.
— Opa, calma
aí... Te trouxe um negócio, ó.
Ela sacudiu bem
de leve a barra, e os olhos azuis do Blitzle se focaram nela. Em alguns
segundos que pareceram uma eternidade, o Pokémon foi se aproximando, passinho
por passinho, com o brilho eletrizante da crina se apagando, até chegar perto o
suficiente pra dar uma cheirada... E deu uma mordida que quase levou um dedo de
Hilda junto. Na hora, ele já ficou empolgado, esfregando o focinho na mão dela
pra ganhar mais. Depois de passar o inverno inteiro comendo cascas de árvores e
grama seca, esse docinho devia ser o equivalente Pokémon de ganhar na loteria.
Dando uma
risadinha satisfeita, Hilda estendeu a mão pra fazer carinho na cabeça do
Blitzle, que aceitou de bom grado, já que ela havia dado mais um pedaço do doce
com a outra mão. Hilbert suspirou alto de alívio, grato que não teria que ligar
pra dona Helga falando que Hilda havia quebrado uma costela com um coice de uma
zebrinha selvagem.
Depois de
encerrar o carinho, a garota aproveitou a distração do Pokémon e
sorrateiramente tirou uma Great Ball do bolso e a encostou na cabeça da
Blitzle, que percebeu o que estava acontecendo, mas estava mexendo o rabinho
com alegria, então pra ela, estava tudo bem.
— Hehehe, ganhar docinho e sair desse fim de
mundo? — A Blitzle disse, mesmo sabendo que a humana não entenderia. — Tô dentro!
O flash de luz
vermelha a capturou... O que foi uma sorte, pois assim que ela estava em
segurança dentro da bola, Hilda sentiu uma Poké Ball a acertar na canela com
tudo, atrás de uma árvore à sua esquerda.
— Ai, porra-
Ela ergueu a
cabeça pra ver quem quase havia sido um ladrão de capturas, e viu a pessoa que
menos esperava naquele momento. Ele. Zach. Se aproximando a passos rápidos. Com
o sorriso mais descarado do mundo. Tanto Hilbert quanto Hilda fizeram
expressões de desprezo quase gêmeas.
— Hilda! Foi mal
aí, não sabia que era tu! Se soubesse, nem teria jogado a bola! — Ele acenava
empolgadamente pra ela.
É claro. É claro
que ele ia agir como se nada tivesse acontecido. Como se o que ele fez tivesse
volta, mesmo mais de um ano depois...
— E aí, como que
‘cê tá? Conseguisse começar a tua jornada?
...E mais de um
ano depois, Hilbert ainda queria dar soco nesse idiota até ele ver estrelas,
principalmente ao ver os olhos da irmã tremerem. De raiva ou de tristeza, ele
não sabia dizer, e não importava.
— Você não tem
um pingo de vergonha nessa tua cara de pau, né? — Hilbert vociferou. — Some
daqui!
Ele arregalou os
olhos e ergueu as mãos num sinal de falso rendimento.
— Ei, que isso,
Park-
— Não fala meu
nome com essa boca podre, palhaço!
— Os outros tão
por aqui, não tão? — Hilda perguntou, sem muita emoção na voz.
— Hã, sim! A
gente tá fazendo uma reunião-
— Tô sabendo.
Zach engoliu em
seco ao ver Hilda sacar a Poké Ball com a Blitzle que havia acabado de capturar
com a mesma intensidade de quem sacava uma arma.
— Vou acabar
contigo primeiro, e eles vão ser os próximos.
— Tem certeza,
morena? — Ele disse em tom de brincadeira.
A pálpebra dela
tremeu. Era difícil saber se ele era assim tão burro ou se estava tentando
mexer com ela, usando o apelido que era a marca deles dois... Ou assim ela
achava, até ouvir que ele usava pra todas as meninas morenas que xavecava.
— Ou te derroto
numa batalha, ou te quebro no soco. Escolhe.
Ele já tinha
visto como ela brigava na época da escola. E essa era uma Hilda que ninguém
queria encarar, e quem tentava, aprendia uma lição que jamais ia esquecer.
Hilbert deu alguns passos pra trás, e nunca ele torceu tanto pra alguém sofrer
uma derrota humilhante. A Elgyem em seu ombro o olhava de forma curiosa, não
tendo visto essa expressão no rosto do seu novo mestre ainda.
— T-tá... — Medo
cobriu suas feições por um instante, mas ele deu um sorriso nervoso, tentando
aliviar o clima. — Vamo lá, capturei um parceiro novo um dia desses mesmo!
Ele tirou uma
Poké Ball comum do bolso, e dela saiu uma criaturinha cinza e bípede, com veias
rosas pelo corpo e carregando uma tora de madeira com o braço direito, que,
apesar de ser pequenininho, com certeza era forte. Hilbert mais uma vez pegou
sua Pokédex e a apontou pro Pokémon:
— Timburr, o Pokémon musculoso. Timburr luta
com o pedaço de madeira que carrega. Quando consegue carregá-lo sem
dificuldade, é um sinal que está prestes a evoluir.
— Obrigado por
nada, Capitão Óbvio. — Hilbert resmungou pro aparelho.
Hilda libertou a
zebrinha de sua Great Ball, que se colocou em posição de batalha quase que de
imediato, seus olhos azuis cheios de determinação. A garota suavizou sua
expressão, inclinando o corpo pra ficar na mesma altura do Pokémon mais uma
vez:
— Foi mal já te
colocar numa batalha assim logo de cara, mas... Eu preciso muito ganhar essa.
Então vamo fazer nosso melhor, tá? Quando isso aqui acabar, eu te dou mais
docinho! Que tal?
Pra sua sorte, Blitzle pulou de empolgação, fazendo a garota sorrir e fazer um joinha. Esse sorriso sumiu assim que ela voltou a encarar Zach.
Se ele ainda
tivesse as mesmas habilidades de antigamente, seria uma vitória fácil.
— Ah, eu conheço essa menina... — Suspirou
o Timburr. — Sei que é difícil, mas...
Desculpa o que ele fez.
— Ih, cara, eu acabei de chegar, não faço
ideia do que você tá falando — a zebra sacudiu o rabinho, mas manteve-se
concentrada. — Mas vou vencer de todo jeito,
então nem adianta falar!
— Damas
primeiro-
— Meu rabo. Vai você primeiro.
Era babaquice da
parte de Hilbert começar a gravar um vídeo desse momento pra mostrar pra Helga?
Talvez. Mas, ah, com certeza ela ficaria satisfeita que Hilda conseguiu dar o
troco. Tendo dito isso, ele colocou o braço de uma forma que parecesse que ele
estava ajustando a alça da bolsa, mas na verdade, era só uma posição
estratégica pro Xtransceiver ficar no melhor ângulo possível.
— Hã... Ok... —
Zach parecia pouco a pouco entender no que ele tinha se metido. — Use Pound, Timburr!
— Charge, Blitzle. — Hilda ordenou sem seu
entusiasmo característico.
Charge? Hilbert franziu a testa. Por que usar um
movimento que aumentaria o poder de ataques elétricos se Blitzle não aparentava
ter nenhum por enquanto? Ele abriu a boca pra indagar, mas decidiu esperar pra
ver.
Timburr avançou
até a zebrinha com a tora de madeira apontada pra ela, como se estivesse
prestes a arrombar uma porta. Ele foi lento e desajeitado, no entanto, e
Blitzle conseguiu usar Charge antes
que ele chegasse até ela. Suas listras, olhos e crina brilharam num tom eletrizante
de amarelo. Mas não a impediu de levar uma torada no peito com força,
tropeçando pra trás.
— Agora, Quick Attack! — Hilda disse antes que
Zach pudesse reagir.
Óbvio que um
golpe chamado “ataque rápido” seria... Bem, rápido. Mas com Charge? O Timburr mal viu o que o tinha
atingido, só a luz e a estática da eletricidade, e aí já era tarde demais pra
parar a cabeçada que ele levou no nariz. Hilbert abriu a boca em surpresa.
— Desde quando Charge faz isso? — O questionamento de
Hilbert foi ignorado pela irmã, no entanto.
Zach se encolheu
com o impacto em solidariedade. Mas esse momento de hesitação custou caro:
— De novo,
Blitzle!
O Pokémon
lutador até conseguiu largar sua tora um pouco pro lado, por um momento e
bloquear as patas do equino, quando ela virou rapidamente de costas pra lhe dar
um coice, mas ainda sentiu a pancada.
— L-Low Kick!
Essa foi uma
escolha errada. As patas traseiras da Blitzle estavam no ar, e as da frente
estavam muito longe pra levarem a rasteira, então o Low Kick errou feio, e o
Timburr tropeçou no chão. Hilbert deu uma risadinha de escárnio.
— Idiota...
— Movimento errado, ô besta! — debochou
Blitzle.
— Termine com
mais um Quick Attack!
Dito e feito,
quando o lutador conseguiu mais ou menos levantar, levou um empurrão com tudo
da Blitzle, tropeçou e caiu de cabeça na própria madeira, assim encerrando a
batalha.
Enquanto isso,
Hilbert sorriu de forma maligna, parou o vídeo e fez questão de enviá-lo pro
grupo da sua família e pro grupo com Cheren e Bianca com a legenda: “Nosso amigo Zach acaba de ser HUMILHADO”. Ele ergueu o olhar, esperando
que Hilda fosse comemorar do jeito mais escandaloso possível a sua primeira
vitória...
Mas, pro azar de
Zach... Ela estava muito ocupada lhe metralhando com os olhos pra celebrar.
[...]
— Loooou! Cadê
vocêêêê? — Chamou a ruiva num tom cantado infantil.
O garoto se
encostou ainda mais contra a parede do beco, fechando os olhos com força e
rezando pra todas as entidades que conhecia pra que Aldith não decidisse
procurá-lo por ali...
— ARGH! QUE
SACO! ODEIO ESSE MOLEQUE!
...E pelo som
dos seus passos furiosos e da sua birra — que com certeza assustou alguns
transeuntes —, ele havia conseguido. Lou se sentiu um covarde, mas suspirou de
alívio. Só de ouvir Aldith falando já lhe dava um nó na garganta. A voz
açucarada e enjoativa dela lhe lembrava da decisão horrorosa que ele tinha
feito de entrar pra Team Plasma... Sem contar que ela por si só já lhe dava nos
nervos! Coisa de gente doida essa ideia que ela teve de também pintar o cabelo
de ruivo pra eles dois ficarem iguais! Quanto mais ele pudesse protelar essa
missão em dupla com ela, melhor!
Lou olhou pra
Rota 2 à sua frente. Ele queria ter tido tempo pra colocar uma roupa de gente
normal ao invés daquele uniforme tonto dos Plasmas, mas ele estava atrasado.
Fugir de Aldith gastou tempo demais... E essa reunião com certeza não era uma
que ele queria faltar. Ele havia perdido a oportunidade de encerrar os Hoodlums
de vez depois da trollagem infeliz
com Hilda e ele não queria cometer esse erro de novo. Mas, se ela realmente
viesse com sangue nos olhos para enfrentá-los, Lou sabia que ele seria o menor
dos problemas dos seus ex-amigos. A ideia o fez dar um sorrisinho maldoso
enquanto ele seguia pela estradinha enladeirada e a caminhada até o início da
rota foi tão tranquila que poderia até ser entediante, mas honestamente, depois
do estresse constante que ele estava sentindo desde que entrou nessa equipe
maldita, o canto dos Pidove e o som do vento era terapêutico.
Mas logo, logo,
ele ouviu um som que o deixou ainda mais feliz: Uma voz familiar — não de
Aldith, graças aos céus — o chamando atrás dele.
— Lulu!
Lou se virou tão
rápido que sentiu o pescoço doer, mas fazia tanto tempo que ele não via Bianca
correndo até ele pra abraçá-lo, que ele nem se importou. Logo atrás dela, veio
Cheren. Eles não conversavam muito, ele sempre achou o garoto de óculos um
pouco sério demais, mas eles já haviam se enfrentado algumas vezes nas poucas
vezes nas Olímpiadas de Batalha Interclasse na escola... Bom, nas aulas que Hilda perdia, pelo menos.
— Que saudade!
Faz tanto tempo! — A loira quase pulava no lugar de tanta empolgação, com as
bochechas vermelhas. — Hã... Que fantasia é essa?
— Ah, é... É uma
longa história...
— Bom, se é
longa, não temos muito tempo pra isso, não é? — Cheren ajeitou o casaco nos
ombros. — Eu tenho um outro compromisso hoje, mas... Acho que seria um bom
treino pré-ginásio derrotar um certo grupinho de idiotas.
— Eu não tava a
fim de treinar, nem gosto muito de briga... Mas não podia deixar passar em
branco também! — Bianca inflou de leve as bochechas de raiva. — Não tem perdão
pro que eles fizeram com a Hil! Vamos mostrar pra eles!
— Que bom que
temos reforços, então. — Lou sorriu. — Acho que vamos precisar... Eu conheço
esses caras, sei que eles não tem chance contra a Hilda, mas eles não vão se
dar por vencidos tão fácil.
A caminhada
continuou tranquila, apesar da tensão da inevitável briga estar crepitando no
ar, os três jogavam conversa fora casualmente. Mas a paz acabou assim que eles
chegaram no começo da estrada e se aproximou do antigo canto de reunião dos
Hoodlums. O grupo de garotos — que estava inquieto pela ausência demorada de
Zach — demorou a reconhecer Lou com o uniforme esquisito, mas assim que ele
abaixou o capuz, todos eles reconheceram seu cabelo ruivo e imediatamente
arregalaram os olhos e deram um passo pra trás como se tivessem dividindo um
mesmo neurônio.
— Bianca!
Petrich! L-Lou! — Um dos meninos mais velhos falou, sorrindo de forma forçada.
— Quanto tempo-
— Nem tenta,
Wes.
— O-osh, não
posso nem dar oi pro nosso líder?
— Não sou mais o
líder de vocês. Isso acabou quando vocês quebraram as nossas regras.
Ele deu mais um
passo pra trás, engolindo em seco. Não que houvesse muito pra onde fugir, com
uma pequena colina logo atrás deles. Outro rapaz franziu a testa.
— Que roupa
bizonha é essa?
— Não te
interessa — ele grunhiu, sacudindo a cabeça de leve. — Eu vim aqui pra acabar
com os Hoodlums de vez. É o fim da linha pra vocês.
Cheren já sacou
a Poké Ball da sua Tepig sem dizer uma palavra, se preparando. Enquanto isso,
Bianca deu um passo a frente e tentou manter uma cara de má:
— Cadê o Zach?!
E falando no
diabo, a voz dele pode ser ouvida vinda um pouco acima:
— E-ei, não
precisa ficar brava-Aah!
De forma pouco
elegante, pra dizer o mínimo, Zach tropeçou e saiu rolando no chão pela ladeira
de lama... E parou bem nos pés de Lou. Ele resmungou algo, mas sua expressão se
tornou aterrorizada quando percebeu que seu ex-líder o encarava com desprezo.
Zach se sentou desesperadamente e foi se arrastando pra trás, chutando terra e
se encostando na colinazinha da qual ele havia acabado de cair. Lou pegou o
ex-amigo pela gola da camisa com um braço só, movido pela raiva apesar de não
ter muita força física.
— Seu Patrat
imundo — Disse o ruivo com rispidez.
O mesmo garoto
que havia tentado cumprimentar Lou agora a pouco, Wes, tentou fazê-lo soltar
Zach, puxando seu braço.
— Ei, ei, é
sério que ‘cê vai brigar com a gente por causa de uma pia-
Mas ele não
conseguiu terminar a frase, pois foi atingido em cheio no ombro pela bota de
Hilda, que havia pulado do topo da ladeira, junto com sua Blitzle, que estava
empolgada com o pulo como se tivesse de férias. Todos os presentes soltaram uma
exclamação de susto, mas ela se levantou como se fizesse isso toda terça-feira,
casualmente limpando poeira da roupa. Hilbert apareceu do outro lado, tendo
dado a volta na ladeira como uma pessoa normal, dando um joinha pra Bianca,
Cheren e Lou... Até que ele sacudiu a cabeça de leve em confusão ao ver a roupa
que o ruivo estava usando.
— Ué, desde
quando você tá com os caras da Team Plasma?
— A-ah... É uma
longa história... — Lou repetiu, corando. — Depois eu conto tudo.
Pela primeira
vez em vários minutos, Hilda abriu um sorriso, e deu um pulo pra abraçar o
amigo, que quase caiu no chão.
— Lou! ‘Cê tá
sumido, seu vagabundo! Ren, Bibi, ‘cês vieram também?!
— A gente não
podia perder esse momento. — Cheren sorriu de leve.
— Oi, oi, Hil!
— E aí, galera?
Foi mal, só ando ocupado de uns tempos pra cá...
— Ei!
Zach interrompeu
a conversa, se levantando com raiva do chão. Os outros quatro ex-Hoodlums
também encaravam Hilda, Lou e Hilbert com fúria.
— A gente tava
aqui de boa, querendo conversar, e ‘cês já vem chegando aqui na agressividade?!
— Ah, pelo amor
de Arceus, vocês se acham uns santinhos mesmo-
— Agressividade,
né? — Hilda interrompeu Lou, seu sorriso sumindo de novo. — Vamo cair pro pau
direito, então.
— Q-quê?
— Não é pra isso
que a gente veio? ‘Cês tão em cinco, a gente tá em cinco. Nada mais justo. Até por
que... Eu não falei que nossa batalha tinha acabado ainda, Zachary.
Zach engoliu em
seco, contemplando a escolha que ele tinha acabado de fazer, mas Wes, o mais
forte do grupo, colocou a mão em seu ombro, sacando uma Great Ball.
— Bora, a gente
consegue! Eles acabaram de sair em jornada, pô, não deve ser difícil! Eu fico
com o Lou, Zach com a Hilda, e vocês pegam os outros três!
Os outros três
garotos começaram a gritar de empolgação, abrindo espaço pra formar um círculo.
Não era o jeito convencional de batalhar, mas era assim que os Hoodlums faziam
depois da aula, na época pegando Pokémon emprestados dos pais... Mas agora era
pra valer. Hilbert suspirou, se colocando em posição.
— Não era assim
que eu pensei que ia passar minha manhã... Topa mais uma batalha? — Ele olhou
pra Elgyem em seu ombro.
Ela fez que sim
com a cabeça, e foi ao campo de batalha enquanto Cheren e Bianca libertavam
seus iniciais das suas respectivas bolas.
— Olá, bom dia!
Bom ver vocês mais uma vez.
— Igualmente,
Nia! — Bertha acenou com a cabeça, já soltando algumas brasas pelo seu focinho.
— U-Ué, batalha
já assim de manhã? — Azure arregalou os olhinhos, mas já segurou sua concha em
defesa.
Cheren estava
contra um dos garotos que tinha um Tympole, um girino azul e preto que parecia
usar fones de ouvido e tinha uma carinha de coitado. Já Bianca e seu Oshawott
batalhariam contra um Lillipup, um cachorrinho com rosto bege e corpo marrom e
grandes olhos castanhos, e, por fim, Nia e Hilbert estavam contra um Pidove, um
pombo cinza com asas listradas e olhos amarelos.
Lou tirou uma Ultra Ball do bolso, e dela saiu
um Cubchoo, um ursinho polar com o corpo branco e a cabeça azul, com uma grande
gota de catarro gelado saindo de seu focinho preto o tempo todo. Pra quem não o
conhecia, ele era só um bichinho fofinho e nojentinho. Mas, ah, os garotos com certeza o conheciam. Wes hesitou por
meio segundo, mas sacudiu a cabeça e cerrou os dentes, jogando uma Great Ball
pra liberar seu Whirlipede, um inseto roxo que parecia um pneu pontudo e
manchado, com um olho amarelo ameaçador no centro.
Zach soltou seu
parceiro mais antigo, um Pansage, um macaquinho com cabeça, cauda e pernas
verdes e rosto bege, com uma expressão empolgada no rosto. A Blitzle ao lado de
Hilda se colocou em posição de batalha, dando um pulo empolgado... Mas talvez
ela pudesse estar cansada graças ao começo da batalha contra Zach... A ideia de
correr o risco de perder na frente de todos era humilhante demais. E além do
mais... Emerald bem que merecia sua primeira vitória.
— Descansa um
pouco, tá, Blitzle? ‘Cê já me ajudou demais por hoje!
A zebrinha fez
um barulho que parecia uma bufada desapontada, mas aceitou entrar de volta na
sua Great Ball de semi-bom grado. Hilda pegou a Poké Ball do seu inicial.
— Eu sei que ‘cê
tá chateado comigo, mas... Prometo que a gente vai ganhar essa!
Dito e feito. Na
hora em que o Snivy saiu da esfera, já ficou de cara feia, soltando um sibilo
frustrado... Até que olhou ao redor e entendeu a situação.
— Que caos... Hmph. Que seja, vou te ajudar. Mas essa vai ser sua última chance comigo, garota...











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Levaram o Quark pro Centro Pokémon pq os PP do Teleport dele acabou
ReplyDeleteDear Jolly,
Avisa pro Ghetsis que ao invés de gastar dinheiro de herdeiro em reformas para transformar o castelo em greco goiano, ele deveria investir em meio de transporte para os funcionários que andam pra caralho.
Dito isso, me sinto obrigada a usar Hypnosis pra tratamento da insônia.
Cara, é por isso q eu alo q não tem nada mais poderoso que uma mulher com o coração partido e seu cavalo. Inclusive, a Blitzle ep Scarlet seriam uma puta dupla de esfomeados.
Essa treta escolar do passado realmente me lembrou os clássicos escolares norte americanos, com um toque brasileiro é claro, PQ QUEM NUNCA SE PEGOU NO SOCO DEPOIS DA AULA ATRÁS DA ESCOLA?!
Eu imaginei que a Hilda daria um cacete no Zach, MAS UMA VOADORA ME FEZ COGITAR QUE A HILDA É FLYING/FIGHTING
Dito isso, Hilda é um belo dum Hawlucha
Senhores isso é cinema
Devo acrescentar elogios com as personalidades dos iniciais sem conflitando e que a Bertha é superior a todos. A Nia é só autista igual o dono, incrível
Inclusive muito interessada na lore do Lou
Parabéns pelo capítulo Jolly