Posted by : Jolly E. Jun 3, 2026

 


Quando Hilbert e Hilda voltaram ao Centro Pokémon de Accumula, a professora não estava mais lá, mas Bianca e Cheren ainda estavam sentados na mesa. Ela enxugava as lágrimas com um guardanapo, e ele olhava pro chão com os braços cruzados. Quando perguntados sobre o que tinha acontecido, Bianca apenas respondeu que Juniper “havia dito coisas que a gente precisava ouvir”. Sejam lá o que fossem essas tais coisas, nenhum dos dois parecia muito disposto a elaborar, então os irmãos só deixaram pra lá por enquanto.


 — Isso só me confirma o que eu já sabia: Vocês dois sempre foram os favoritos da professora. — Hilbert brincou, tentando aliviar o clima.


— Pior que é verdade, viu? — Hilda fez que sim com a cabeça. — Acho que ela só gosta um pouquinho da gente porque a mamãe salvou a vida dela uma vez.


— Quê? Como assim? — Cheren franziu a testa, interessado.

 

O cardápio do Centro de Accumula não era nem tão variado, nem tão bom, mas dava pro gasto para almoçar enquanto os irmãos contavam sobre o dia que a professora Juniper foi salva de cair no mar por Helga quando ela estava viajando de barco pra outra região. Hilda pediu um hambúrguer meio sem graça, Bianca pediu uma batata doce meio sem graça, Hilbert pediu pra esquentarem no microondas um ramen com frutos do mar meio sem graça e Cheren pediu um chá de gengibre que até que tinha um pouquinho de graça. Apesar das reclamações de Bianca de que “chá não é almoço”, ele insistiu que estava sem fome por enquanto. Os quatro jovens deixaram seus Pokémon comerem sossegados no chão perto da mesa, cada um com uma tigelinha de comida. Oshawott, Tepig e Elgyem — que Hilbert se impressionou quando descobriu que ela de fato consegue comer — se sentaram juntos, mas Snivy fez questão de se afastar do grupo, indo comer mais perto da janela.

 

— E aí, rapaziada, quais os planos depois daqui? — Hilda perguntou, devorando quase metade do hambúrguer com uma mordida só.


— Chegar a Striaton o mais rápido possível! — Bianca respondeu quase que de imediato.


— Estou no mesmo barco... Até porque aquele ginásio pode fechar qualquer dia desses — Cheren falou baixo.


— Oxe, como assim, Ren?


— Ouvi dizer que os líderes vivem brigando a todo instante... Sem contar que aquele ginásio é uma grande propaganda glorificada do Pokémon Café. Esses ginásios que giram em torno de marcas nunca duram muito. Ninguém leva a sério.


— Eita... Mas-

 

Seja lá o que Hilda estava prestes a dizer, foi interrompida quando toda a chuva que estava acumulando caiu de uma vez e assustou todo mundo.


— Ah, bosta. — Hilbert resmungou. — Eu queria ir fazer compras.


— Mas a Hilda não tá com as tuas coisas na bolsa? — Perguntou Bianca, que antes estava focada na sua batata doce.


— Mas eu quero ver o que a gente tem e fazer um inventário... Talvez eu precise de um caderno limpo pra seja lá o que a professora Fennel me peça pra fazer.


— Ué, mas eu achei que ‘cê só ia aceitar depois que ouvisse o que ela tem pra falar... — Hilda sorriu maliciosamente. — E agora já tá todo empolgado?

 

Ele abriu a boca pra falar algo em sua defesa, mas logo em seguida a fechou, as pontas das orelhas ficando vermelhas. Hilbert ajustou o boné na cabeça, abaixando um pouco a aba pra cobrir o rosto.

 

— Cala a boca.


— Ei, esse boné é meu!


— Só percebeu agora? E de que time é, aliás? É de basquete?


— Throhs de Nimbasa! É de beisebol! Putz, semana que vem tem jogo dos Audinites... Tomara que a gente ‘teja num lugar com TV...


— De qualquer forma, Hilda, você já decidiu quais Pokémon você vai querer na sua equi-


— Zebstrika! — Ela o interrompeu, empolgada.


— Sim, imaginei. E depois? — Cheren ajustou os óculos no rosto.


— Sei lá.


Por alguns instantes, os únicos barulhos na mesa eram os sons de Hilbert devorando seu ramen com os hashis de madeira baratos do Centro.


— Não sei por que eu perguntei... — Ele suspirou. — Enfim. Vocês dois vão juntos, certo? Bianca, já decidiu se você vem comigo?


Ela estava enfiando a última batata na boca quando ouviu seu nome sendo mencionado, e a pergunta, por algum motivo, a fez ficar vermelha da ponta das orelhas até o nariz.


— Hã... N-não, eu... esqueci de te falar, mas... combinei com um... amigo... da gente se encontrar em Striaton e começar a viajar junto...


— Aaaaaaaaah, agora eu sei quem é esse amigo! — Hilda falou alto. — É o Lou, né?!


— É, é! Fala baixo!


— Vou mandar mensagem pra ele a-gora!

 

Enquanto Hilda digitava freneticamente no seu Xtransceiver, por algum motivo, Cheren levantou o olhar e encarou Hilbert com... Preocupação? Mas seja lá o que tivesse se passando em sua cabeça, ele não quis comentar sobre.


Hilbert olhou pela janela vendo a chuva cair com ódio se perguntando se aquele garoto de cabelos verdes teria conseguido fugir da chuva.


[...]


Por razões que N não entendia muito bem, ele e Quark não tinham permissão de entrar no Centro Pokémon, então eles tiveram que ir até o começo do Slither Park, onde havia algumas mesas de piquenique vazias. Normalmente, N não teria problema algum em conversar a sós com seu pai, mas como já era possível de ver mesmo a distância, ele não estava sozinho. Havia um garoto ruivo familiar ao lado dele... Sterling.


Quando eles se aproximaram mais, Quark deu um passo para trás e N sabia que ele estava se preparando pra teleportar pra longe. Ele agarrou o braço do ninja antes que ele pudesse fazer isso.

 

— Não, fica aqui, o Sterling está lá...


— Eu chamo muita atenção nessa roupa, N...


— Por favor?

 

Eram nesses pequenos momentos de ansiedade em que seus olhos se enchiam de nervosismo que Quark se lembrava de que, majestade ou não, N ainda era um só garoto. Um garoto que cresceu num castelo num canto isolado da região, com pouquíssimo contato com pessoas de fora. O homem suspirou por baixo da máscara antes de abaixá-la e tirar a longa peruca branca — que ele tinha passado tanto tempo tentando colocar de volta no lugar... — pra evitar olhares curiosos.

 

— Tudo bem.

 

N deu um sorrisinho grato e aliviado. Antes que eles pudessem se aproximar mais da mesa de piquenique, no entanto, um Pokémon “inseto” saiu correndo de dentro de um arbusto, com um pedaço de um sanduíche que parecia muito com um de fast food.

 

Cheguei! — Proclamou Scarlet, disfarçado de Venipede.


— Onde você pegou isso? — N perguntou de imediato, franzindo a testa.


Eu fiz umas cambalhotas pra uma senhora e ela me achou fofo o suficiente pra me dar lanche de presente!


— Eu queria poder acreditar em você, Scarlet, mas seu passado lhe condena demais...

 

Ele engoliu tudo numa grande mordida antes que seu mestre o fizesse cuspir. Quark tentou disfarçar uma risadinha.

 

Agora não importa mais! Comi tudo já!


— Eu ia te dar comida! Por que você roubou esse sanduíche?!


Como se você pudesse entrar nos lugares que tem os sanduíches mais gostosos!


Hmph! Agora você vai ficar sem almoço...


Nããããão!

 

Apesar de estar chateado, Scarlet seguiu N e Quark até a mesa onde Sterling e Ghetsis estavam. O garoto ruivo abaixou a cabeça rapidamente em sinal de respeito ao rei da Team Plasma. N acenou de volta, mas não conseguiu esconder a expressão desconfiada que sempre tinha quando Sterling estava por perto. Era difícil demais confiar naqueles olhos tão calculistas e distantes, descobrir o que se passava na cabeça dele, então... Mas ele era o aprendiz de Ghetsis, então N não tinha escolha a não ser relutantemente aceitar sua presença na equipe... Mas nada produtivo viria desses pensamentos, no entanto, então N voltou a focar sua atenção no homem a sua frente.


Ao contrário de Sterling, que estava com seu uniforme da Team Plasma por baixo de sua capa marrom, Ghetsis estava sem o seu, usando uma calça e um sobretudo, ambos pretos, o que chamava bem a atenção aos seus cabelos verdes, longos e tão secos e bagunçados quanto os de N. Como sempre fazia desde um incidente com um certo Pokémon que quase custou sua vida, ele escondia seu braço direito o máximo que podia, colocando a mão no bolso até não poder mais. Também não usava o tapa-olho vermelho no olho direito que combinava com o uniforme, optando por um mais discreto, também preto, como um pirata. N jamais diria isso em voz alta, mas preferia muito mais esse visual. Fazia ele parecer mais uma pessoa normal. Mais pai.

 

— Bom dia, Natural. Bom dia, Quark.


— Bom dia, pai.

 

Quark não respondeu, só acenando brevemente com a cabeça como Sterling havia feito com N. O rei e o ninja sentaram-se à mesa de madeira, e Scarlet, ainda disfarçado de Venipede, subiu nela e ficou entre N e Ghetsis. Todas as brincadeiras que o Pokémon tanto gostava de fazer desapareciam na presença do líder dos Sete Sábios da Team Plasma.

 

— Antes de mais nada... Gostaria de parabenizar seu discurso, Sterling. Acompanhei de longe, e você se saiu muito bem. Bom trabalho.


— Muito obrigado, senhor. Me inspirei nos seus discursos. Não teria conseguido se não fosse por isso.

 

Se ele pudesse, N teria revirado os olhos ao ouvir aquela bajulação ridícula. Até a voz dele era irritante aos seus ouvidos. Parecia muito o tom daquele Snivy mal educado que ele havia conhecido alguns minutos atrás... Enquanto isso, Quark mantinha um olhar desinteressado e fixo no horizonte, como se procurasse por algo que estava distante.

 

— Natural, como foi sua missão?


— Um pouco turbulenta... Dudley não aceitou bem a rejeição... Mas eu já previa isso, por isso levei Scarlet comigo. — Ele encostou a mão no “Venipede” de forma carinhosa. — Ele usou o Klingklang dele como isca pra conseguir fugir. Conseguimos resgatá-lo, mas Dudley escapou... Mas acho que isso não importa mais. Nos livramos de quaisquer evidências dentro do laboratório, então se a Polícia Internacional for até a ilha, ele será o único que sofrerá as consequências. É isso que importa. É inaceitável que experimentos com Pokémon sujem o nome dos Plasmas.


— É por isso que você está mancando? — Indagou Sterling, curioso.


— Ah... Sim. Um dos Night Slash de Scarlet acabou pegando minha perna.


— Hm. — Ghetsis resmungou, encarando o Zoroark disfarçado em cima da mesa. — Você precisa aprender a controlar melhor esse seu Pokémon.

 

A ilusão do Pokémon raposa foi um pouco estragada, pois ele deu um rosnado insatisfeito bem característico da espécie. Ghetsis não lhe deu atenção.

 

— N-não, pai, foi minha culpa, eu devia ter saído do caminho da batalha... Eu só queria me certificar que Klinklang não ia sair muito ferido... — Seu estômago revirou com a lembrança de Scarlet com um pedaço de metal que pertencia ao Pokémon na boca.


— Por que não levaram o... como é o nome daquele Pokémon do Quark? Shotgun?


— Shogun. — N corrigiu. — Ele... está ficando velho... Preferimos deixá-lo descansando o máximo que pudermos.


— Ah, esses tipo inseto nunca vivem muito tempo, não é? Que vidinhas curtas... E os Drives? Onde estão?

 

N olhou pro ninja sentado ao seu lado, esperando que ele fosse relatar essa parte da história... Ou pelo menos demonstrar irritação ao comentário desagradável feito ao seu Pokémon que estava repousando na enfermaria. Mas ele não o fez, continuando perdido em seja lá qual fosse o devaneio que acontecia dentro de sua cabeça, então N prosseguiu:

 

— Hã, Quark achou o Shock Drive e o jogou dentro de um lago na floresta perto de Nuvema... Mas não conseguimos achar os outros três pra destruí-los. Dudley deve ter escondido todos muito bem...


— Talvez eu tenha uma ideia de onde eles poderiam estar... — Ghetsis ponderou, suspirando. — Infelizmente, cheguei a conversar bastante com esse incompetente.


— Ah, isso é ótimo!

 

Isso foi o suficiente pra despertar Quark de seu estupor. Ele limpou a garganta pra chamar a atenção.

 

— Concordia estava em Nacrene da última vez que conversei com ela. Talvez ela possa passar por aqui pra procurar os Drives?


— Boa ideia! — N aprovou. — É fácil pra ela chegar rápido na Rota 1 com a ajuda de Ollie! É só mandar uma mensagem!

 

Falar sobre ele fez N sentir saudades do Duosion. E de Concordia também. Ela estava fora em uma missão prolongada pra recrutar mais membros para a Team Plasma e não parava no castelo já faz alguns meses.

 

— Muito bem. Acho que uma missão vai fazer bem pra ela. Às vezes acho que o mundo secular está a influenciando demais... Confio com você pra entrar em contato com ela, Quark. Como de costume.

 

Ghetsis tentou dar a coisa mais próxima que ele conseguia — tanto fisicamente quanto emocionalmente — de um sorriso orgulhoso, mas o ninja mal reagiu. Só acenou de leve com a cabeça e voltou a seja lá qual devaneio se passava pela sua mente.

 

— Está de mau humor hoje?


— Não dormi muito bem. — Ele respondeu de forma curta e grossa.


— Gostou do uniforme novo?


— Não.


— Sempre tão sincero. — Ele deu um risinho sarcástico. — Enfim. Natural. Creio que você saiba o porquê de eu ter lhe chamado. É chegada a hora.

 

O garoto de cabelos verdes começou a mexer os dedos das mãos de forma ansiosa por baixo da mesa, sabendo que seria repreendido se o fizesse às vistas de Ghetsis. Ele fez que sim com a cabeça, tentando parecer mais firme do que ansioso.

 

— Infelizmente, somos obrigados a nos submeter ao sistema dos ginásios se quisermos desafiar o Campeão, então... Você sabe o que tem que fazer.


— Coletar as oito insígnias. Não importa como.


— Exato. Esse é o objetivo final do rei da Team Plasma. O seu objetivo final. Comece o mais rápido possível. Não posso prometer que você estará sempre acompanhado da Shadow Triad, já que podemos precisar da assistência deles, mas tentarei ajustar a agenda de forma que sempre tenha algum deles por perto.

 

Ser acompanhado por Quark? Excelente! Ser acompanhado por String? Menos ideal, ele nunca sabia o que conversar com ele, mas ainda era uma companhia perfeitamente aceitável. Ser acompanhado por Rydberg? Não. Terrível. A ideia o fez franzir a testa.

 

— Pai, acho que não há necessidade de eu ser observado a todo instante... Eu consigo me virar-


— Natural. Você sabe que seu coração é frágil demais para esse mundo.

 

Não foi uma pergunta, foi uma afirmação. N engoliu em seco, encolhendo os ombros com o tom intenso e certeiro de seu pai.

 

— Não é que eu não confie em você. Eu não confio no mundo ao nosso redor. É pela sua segurança, tanto física quanto mental. Compreende?


— Sim, pai...

 

Scarlet encarou Ghetsis com uma frustração ácida, mas foi ignorado por completo. Se dependesse dele, daria uma mordida naqueles dedos esqueléticos que ele não iria esquecer, mas já havia cometido esse erro antes, e fora punido por isso.

 

— Eu... Gostaria de ir até o castelo antes, pra me preparar. Seria possível? — N perguntou timidamente.


— É claro. Partiremos agora mesmo.

 

Os três humanos se levantaram da mesa de piquenique, e Scarlet seguiu N de perto, como sempre fazia. Assim que eles sumiram da mesma forma que haviam aparecido na cidade, a chuva caiu de vez.

 

[...]


Depois do almoço, Hilbert foi fazer sua licença de treinador — e passar pela experiência humilhante de tirar uma foto 3x4 nova — e já queria demoraria vinte e quatro horas pra ela ser emitida, ele e Hilda decidiram alugar um quarto no Centro Pokémon. Bem, na verdade, era do Centro, não no Centro. Todos os quartos eram num prédio ao lado chamado de Centro Hotel. Alguns mais espaçosos, alguns de luxo, reservados apenas aos treinadores de ranking mais alto e o mais baratos que eram o que cabia no orçamento dos irmãos: Um quarto pequeno com duas camas de solteiro, uma escrivaninha apertada e dois cômodos ainda mais apertados pro chuveiro e pro toalete. Depois deles dois e Cheren insistirem muito pra Bianca que ficaria tudo bem, os quatro dividiram a conta de dois quartos, um pros meninos, outro pras meninas. O lado bom de Accumula ser a cidade mais entediante de Unova é que esse era o Centro Hotel menos disputado da região. O recepcionista até pareceu surpreso quando eles apareceram.



Os quatro se reuniram no quarto dos meninos, onde Hilbert tirava suas coisas da mochila da Hilda e colocava na sua própria. Ele parecia satisfeito com o que dona Helga havia escolhido pra ele, pelo menos.

 

— Ô, por que essa tua bolsinha de remédios é tão pesadinha? — Perguntou Hilda. — O que é que tem aí dentro?


— Band-aid, gaze, remédio pra dormir, pra dor de cabeça, dor de estômago, dor no fígado, dor muscular, azia, náusea, alergia, sinusite, tosse, ansiedade, pressão alta... E sal.


— Oxe, vai exorcizar o quê?


— Não, é pra pressão baixa — Respondeu ele, tomando a bolsinha em formato de Chingling das mãos da irmã.


— ‘Cê não vai usar nem metade dessa farmácia aí que ‘cê trouxe, quer apostar?

 

Ele encarou a irmã com um olhar sério e fulminante.

 

— É isso que nós vamos ver.

 

E voltou a escrever sua minuciosa lista de compras, resmungando que a caneta velha que estava no fundo da sua mochila tava falhando.

 

— Sua mãe ficou muito chateada com seu tio, Ren? — Bianca questionou.


— Ah, com certeza... Chamou ele pra “conversar”, o que quer dizer que ela vai gritar com ele por uma meia hora... — Cheren suspirou alto, determinado a desabafar. — Ele reclama que a família inteira o trata que nem criança, mas é justificado. Não é só sobre ele estar queimando a própria imagem como figura pública, é sobre o que significa um Petrich frequentar um cassino. Um cassino! Vai todo mundo falar “olha aí, qual será a organização criminosa que eles estão financiando dessa vez?”


— Isso não é estereótipo Kantoniano? — Hilbert perguntou. — Não sei se a galera de Unova pensa igual...


— As pessoas só querem achar um motivo pra fofocar...


— Irônico, né, porque teu tio ainda é o membro mais popular da Elite — Hilda deu uma risadinha. — E ele é daora mesmo! Mesmo com as tretas dos cassinos!


— Bom... Alguém tem que achar ele legal, acho — Cheren sorriu de leve. — Ele vai ficar feliz que você disse isso.


— Tá zuando, ele é o máximo!


— Gente, a chuva deu uma parada! — Bianca anunciou, olhando pela janela.

 

“Parada” era uma palavra forte. Ainda estava chuviscando, e o céu ainda estava feio. Mas com certeza tinha dado uma diminuída. Os quatro decidiram correr pra fazer suas compras enquanto as nuvens cinza estavam dando uma folga.


A cidadezinha não era tão grande se comparada a Nuvema, e olha que dava pra fazer uma comparação direta, já que era possível ver Nuvema no horizonte se você ficasse num ponto mais alto da cidade. Na verdade, algumas das lojas da cidade portuária eram até melhores que os de Accumula... Mas, por outro lado, não havia muitos lugares pra comprar livros em Nuvema. Então, após Hilbert fazer uma lista de compras pra sua irmã seguir, Hilda e Cheren foram no supermercado e Bianca decidiu acompanhar Hilbert até a livraria, já que a loira já tinha feito suas compras anteriormente.


Se Nuvema é uma gaiola cujas barras são o oceano, as barras de Accumula são as montanhas. Claro, o sudeste e o sudoeste inteiro de Unova são cheios delas, mas nessa cidade em específico, parecia ainda mais opressivo. Não faltavam pessoas em Accumula, mas os prédios históricos e o metrô — que começaram a construir, mas largaram o projeto depois de alguns anos — abandonados davam uma impressão de cidade fantasma; uma cidade que o progresso não conseguiu alcançar. Se isso era uma coisa boa ou ruim, depende dos olhos que a vêem.


 Mas, por sorte, o mini-shopping perto do Slither Park não estava abandonado, e muito menos a livraria, que era uma das lojas mais bem estocadas, apesar de ter um quê vintage, com estantes ornamentadas de madeira escura, luzes amarelas e com um sininho na porta que tocou quando os dois passaram por ela.

 

— Uia, eu adoro essa artista! — Bianca exclamou de repente, indo em direção ao livro em destaque.

 

Era uma graphic novel, na verdade, mas a quantidade de páginas certamente era de um livro. A arte da capa representava uma grande e majestosa janela de vitral. Do lado esquerdo, havia a forma simplificada de um dragão branco de olhos azuis, com asas e pés como os de um pássaro. Sua cauda era em formato de turbina — é por isso que os Unovenses dizem ter inventado o avião? — que brilhava em vermelho, com um rabo mais comprido e convencional saindo da ponta, Reshiram. No vitral à direita, havia o dragão preto com olhos vermelhos, Zekrom. Seus traços eram mais retos, suas asas menores e, diferente de sua dupla, ele tinha “braços”. Mas ele tinha o mesmo rabo-turbina de Reshiram, exceto que ele reluzia em azul.


E, no meio dos dois, uma criaturinha cor de creme que parecia um coelho, com grandes orelhas na cor laranja em formato de “V”, olhos azuis igualmente enormes e duas caudas em formato de asas de anjo. Victini, também conhecido como o padroeiro da região de Unova. E abaixo dos três Pokémon, escrito em uma fonte medieval elegante, havia o título e os autores da graphic novel: “Alleos Imortal, arte de @sweetwatmel, roteiro e pesquisa histórica de Hugo Sangster.”

 

— Vai levar, então? — Hilbert perguntou.


— Nah, eu gosto da arte, mas história nunca foi meu forte... Agora se ela fizer um livro de biologia, aí é outros quinhentos, hehe!


— Hm.

 

O garoto decidiu pegar um e abrir a primeira página pra dar uma olhada, e nela havia uma frase: “O preto e o branco se misturam e o mundo se torna cinza.” – Gilbert Griseus.


Era um ditado familiar pra todo mundo que frequentou uma aula de filosofia na vida. Que atire a primeira pedra quem nunca se deparou com uma questão aberta numa prova perguntando o que essa frase significa. E honestamente, mesmo com o desdém que Hilbert tinha por algumas matérias da escola, esse tipo de debate era interessante. História é uma matéria muito legal... Pena que as aulas sempre se concentram tanto na história regional. Bem que ele queria que os professores tivessem falado mais sobre a mitologia de Sinnoh, ou de Johto. Ele folheou mais algumas páginas, e a arte era de fato muito bonita.


Ah, quer saber? Ele ia precisar de algo pra se distrair na estrada mesmo. Por que não levar? Ele colocou uma das cópias debaixo do braço e foi até a sessão de papelaria junto com Bianca, onde não havia tanto o que comprar. Um caderno em branco pras anotações pra professora Fennel, um conjunto de canetas e, talvez a coisa mais importante, dois fones de ouvido (baratos) reserva caso o seu quebrasse. Em questão de minutos, ele passou pelo caixa e comprou tudo junto com a graphic novel.


Hilbert e Bianca se dirigiram até a entrada do supermercado pra esperar pelos outros dois, decidindo não entrar, pois Bianca queria tirar Azure da Poké Ball, o carregando no colo e fazendo carinho na lontrinha. Hilbert fez o mesmo com Nia, que foi pra sua posição de costume, segurando em seu ombro com os bracinhos e deixando as perninhas penduradas. Ainda chuviscava enquanto eles aguardavam.


— Tá curioso pra saber o que a Professora Fennel quer? — Ela perguntou, do nada.


— Acho que sim. — Ele deu de ombros, tentando parecer desinteressado. — Isso do Dream World é bem bizarro.


— Quem sabe se ela gostar de ter você como estagiário, você podia virar um pesquisador igual seu pai!


— É, talvez — Hilbert sorriu de leve, não conseguindo esconder que a ideia de ser igual a Andrew o agradava. — Mas e você? Quais seus planos pra essa jornada?


— Ahn... Nenhum, por enquanto... Acho que só quero ver o mundo mesmo. Saber o que tem além de Nuvema...


— Com o Lou? — Ele provocou.

 

Bianca ficou vermelha na hora, dando um soquinho fraco no ombro do amigo com o braço que não segurava o Oshawott, que no momento estava olhando os carros passarem na rua com uma carinha entediada.

 

— Para, bobo!


— Hehe, tô zuando. Mas, sério... Quando que você vai contar pra ele?


— C-contar o quê?


— Que você gosta dele.

 

Ela arregalou os olhos e ficou de boca aberta por uns segundos, mas abaixou a cabeça, abraçando Azure um pouco mais forte.

 

— É tão óbvio assim?


— Pior que é, viu...


— Mas, hã...

 

Ela hesitou por mais segundos ainda, encarando fixamente a calçada... Mas, no fim, se aproximou dele, sussurrando:

 

— Não... Não te incomoda, né?


— Por que incomodaria? — Ele franziu a testa.


— Então... Hã... O Ren disse que- Por favor, não fala pra ele que eu te disse isso, mas... Hã... Ele disse... Que acha que você... — As últimas palavras saíram ainda mais baixas. — Gostava de mim?

 

Ah. Ok, isso explicava muito. Hilbert deu uma risada pelo nariz, cruzando os braços e considerando o que dizer. Isso era algo que, por enquanto, só sua irmã sabia, mas se havia alguém que era confiável o bastante pra saber, era Bianca.

 

— Não, pode ficar tranquila, não é isso. Digamos que... Não tem como eu gostar de... Nenhuma garota.

 

Ela abriu a boca pra dizer algo, mas a fechou logo em seguida, processando a informação enquanto olhava pros lados... E enfim, soltou uma exclamação.

 

— Aaaaaaaah... Entendi... Nossa, que alívio! — Ela suspirou. — Não queria que você ficasse chateado.


— Claro que não, relaxa. Você devia contar pra ele. É bem claro que ele gosta de você também.


— V-Você acha?! — Bianca perguntou, abrindo um sorriso enorme.

 

Antes que ele pudesse responder, Cheren e Hilda saíram pela porta automática, com sacolas cheias de coisas pra separar e colocar nas mochilas quando eles voltassem pro hotel... De novo. Mas a morena não estava com uma expressão tão feliz e Cheren a olhava com preocupação.

 

— O que foi? — Perguntou a loira.


— Vai ter reunião dos Hoodlums na Rota 2 — Hilda respondeu, sem muita emoção na voz. — Amanhã. O Lou me avisou por mensagem.

 

Bianca e Hilbert arregalaram os olhos ao ouvir a notícia. O garoto se aproximou da irmã com uma expressão séria.

 

— Quer que a gente vá pra Striaton depois de amanhã?


— Não. — Ela ajeitou o boné dos Audinites na cabeça, fazendo sombra no seu rosto. — Quero o contrário. Eu vou acabar com a vida deles.

 

O quarteto ficou em silêncio. Até que Hilda anunciou, seu sorriso normal voltando:

 

— Aliás, eu comprei uma faca!


Por que você comprou uma faca?! — Hilbert sussurrou-gritou, gesticulando com as mãos de forma exasperada.


— Pra autodefesa! Mamãe que deu a ideia!


— Ah. É, parece algo que ela diria... Mas por que você ouviu ela?!


— Esfaqueia eles — Cheren sugeriu, sério.


— É! Eles merecem! — Bianca concordou, acenando com a cabeça. Seu Oshawott a imitou.


— DESDE QUANDO VOCÊS TRÊS DIVIDEM O MESMO NEURÔNIO?!

 

Os quatro voltaram pro hotel, discutindo sobre a ética de esfaquear seus ex-colegas de classe no caminho. Seja pro bem ou pro mal, amanhã seria um grande dia.


      

                

{ 3 comments... read them below or Comment }

  1. Dar uma faca pra um Pokémon aumenta quais stats? É um item evolutivo?

    Dear Jolly,
    Acho que meu ponto alto foi algumas revelações sobre o tio do Cheren, a sexualidade do Hilbert e que o Scarlet vai aparecer em todas as suas cenas com algo (comestível) na boca.

    VAMOS PULAR A PARTE DE QUE VC MATOU MEU SHIPP. Foi um aborto, então nem deu pra se apegar (estarei sofrendo nos próximos 20 capítulos). MAS, QUEM PORRA É LOU E PQ A HILDA QUER ESFAQUEAR ELE? É coisa de torcida rival? Se o Lou for Palmeirense aí eu to 100% Hilda neles amém

    Cara, to vendo que o N vai dar um trabalho nessa jornada, e nem é pq ele é bobinho não, é pq o Scarlet COM CERTEZA vai inverter os papeis e fazer o N ser o Pokémon. Aliás, que tipo o N é?

    Parabéns pelo capítulo Jolly

    ReplyDelete
  2. Jolly, primeiramente, hello!~♪

    Lou who? Quem é esse? Me dê respostas imediatamente. Tem criança chorando aqui, Pokémon gritando, tem tio do Cheren apostando oitenta mil no Liepardzinho querendo saber quem esse Lou who aí.

    Já começamos o capítulo com os protagonistas and friends and Knuckles featuring Pitbull comendo a comida sem graça e nos ambientando em Accumula e como as coisas estão caminhando para o começo de jornada e já temos um pouco do que virá em Striaton com o ginásio e com o tio do Cheren que já deixa-nos questionamentos de quem seja com base no pouco que foi-nos apresentado.

    E logo, depois dessa reapresentação de Accumula temos o N e o Quark indo encontrar o Ghetsis e... meu Arceus Fairy-type, o Scarlet finalmente comeu lanche como foi previsto nas profecias de outrora cantada pelas musas celestes. Eu torcia por tempos como estes.
    Piadas a parte gosto como está conduzindo o N e está trabalhando-o e como o Ghetsis já planeja os passos do garoto Harmonia bem à frente. Nos jogos sempre o encontramos nas cidades de ginásio bem no nosso encalço e aqui na história isso acaba tendo um significado bem mais aprofundado já que veremos ele também seguindo a rota dos ginásios tal qual a Hilda, mas com um objetivo claramente diferente e eu gosto disso por que dá uma nuance bem distinta à história.

    E agora vamos às comprinhas. Hilbert fez a festa né? Comprou de tudo e mais um pouco. Me pergunto se o livro que o Hibi pegou é referência a algo e eu não captei de primeira por que ó, meus parabéns, Jolly, vc se superou.
    Aliás amei os detalhes como o Hilbert com uma farmacinha inteira na mochila. O maluco é o hipocondríaco do hipocondríaco, deve ter de tudo naquela bolsinha de Chingling (que por sinal achei GENIAL. Como não pensei num design de bolsa assim? Ai Jolly eu tô com inveja e irei em Unova roubar seu Hilbert só para ter essa bolsinha específica para mim!)
    Yotra! Achei incrível a conversa entre Hilbert e Bianca. Soou tão natural e ao mesmo tempo tão fora desse mundo (leve como elogio, okay?) e já estabelecemos que Hilbert gosta de meninos sem dar nome aos bois, ou melhor, rotulá-lo tão de cara. Só fiquei triste pela Bianca, coitadinha, ela achou tanto que ele tinha um crush por ela, mas acho que é o que acontece quando se cresce junto com alguém vc acaba achando que está apaixonado por alguém do seu grupo interno e depois percebe que não e é sobre isso, sabe? Eles passaram a infância e adolesceram juntos e também estão começando a jornada juntos.

    Agora, de novo, quien carajos és Lou? Ele tá devendo pix pra Hilda, é?
    Me diga quem é este homem que eu equiparei a Hilda com um frigideira de ferro fundido por quê é 250% mais eficaz que uma faca. É só uma pancada na cabeça desse Lou que ele vai jogar no Vasco em dois tempos, foi a minha mana Rapunzel que me disse isso.

    ReplyDelete
  3. Hilbert encarando a chuva com H2 ÓDIO, Hilda comprando uma FACA! E o LANCHE! Muito bom o capítulo! Aguardando ansiosamente pelo próximo!

    ReplyDelete

- Copyright © 2019-2020 Aventuras em Unova - Escrito por Jolly - Powered by Blogger - Designed by CanasOminous -