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- Capítulo 10 - Gosto Doce-Amargo na Boca
Que estranho. Depois
de uma experiência de talvez-quase-morte nas mãos de uma criminosa com um
Pokémon venenoso e uma fantasia ridícula, talvez Cress não devesse estar se
sentindo tão em paz. Ele até se sentia culpado pelo sentimento, já que um
Pokémon havia sido seriamente machucado... E um humano quase foi de vala
também. Mas aqui estava ele, aproveitando o sol enquanto esperava por Hilbert e
Hilda na porta do Centro. Há quanto tempo ele não tinha a oportunidade de só...
Ficar parado? De não precisar pensar em nada?
Sem pensar em
qual seria a próxima tarefa doméstica a fazer. Sem pensar em qual seria a
próxima discussão, ou a próxima puxada de orelha que ele teria que dar. Sem
ficar com dor na mandíbula de tanto tensionar o músculo. Qual foi a última vez
que ele ficou empolgado em entrar no ginásio-restaurante? Talvez nos primeiros
meses? Quando foi que tudo desandou? Qual foi a última vez que o calor do
meio-dia o fazia se sentir vivo ao invés de fazê-lo pensar em como ele não
teria tempo de comer nada pro almoço?
Ah, espera, ele
nem tinha almoçado... Tomara que eles não tenham escutado o seu estômago
roncando.
Os irmãos — ou
assim ele assumiu, era coincidência demais eles terem nomes tão similares e não
serem parentes — saíram do centro, mas sem sua amiga loira.
— A Munna vai
precisar ficar em observação pelo resto do dia, graças ao veneno pesado — explicou
Hilbert. — Então a Bianca preferiu ficar com ela.
— Ah,
pobrezinha... — Cress suspirou. — Mas fico feliz que alguém está lá com ela.
Qual o nome dela? Vou deixar na recepção caso ela passe por lá mais tarde.
— Bianca
Isabelle Rossi.
O líder tirou o
caderninho que geralmente usava pra anotar pedidos do bolso e escreveu o nome
na sua letra caprichada. O trio se dirigiu ao estabelecimento, e Cress fez
questão de abrir a porta pros dois — Bom, mais pra Hilda, na verdade.
— Oxe, peraí, é aqui
que tinha aquelas comidas de Sinnoh?! — ela se virou pra perguntar ao irmão.
— É, ué. Achei
que você tinha se lembrado.
— É que tá muito
diferente!
— Sim, o
restaurante mudou bastante. — O rapaz de cabelos azuis acenou com a cabeça. —
Era bem mais... Simples antes de virar um Ginásio.
E antes de ser
comprado por um monstro capitalista, pensou Cress.
Antigamente,
quando vovó Chayanne estava viva e o restaurante se chamava Mitsuhoshi’s, a madeira no chão era
clara, as janelas iluminavam e ventilavam o local e sempre havia música
tocando... Agora era um restaurante dominado por madeira escura, candelabros
artificiais, cortinas vermelhas que não eram tão caras quanto pareciam e apenas
as vozes das pessoas ecoavam. Cress observou a forma que os irmãos endireitaram
a coluna e tentavam parecer mais arrumados. Como se esse inferno de lugar
merecesse algum nível de elegância.
Ele mentalmente
agradeceu que, como de costume, o maître não fez pergunta alguma sobre seu
sumiço repentino, escolhendo ignorar a briga que havia acontecido agora a
pouco, e mais grato ainda ele estava pelo fato que nem Chili, nem Cilan estavam
por perto, então ele tinha a liberdade de se juntar à refeição. Os três se
sentaram numa mesa azul que talvez fosse um pouco saturada demais pra atmosfera
chique que o lugar tentava emular.
— Posso pedir
qualquer coisa mesmo? — Hilbert perguntou, olhando o menu.
— O que quiser,
totalmente por minha conta. De novo, é o mínimo que posso fazer por vocês!
— Já que você tá
dizendo... — o moreno abriu um sorriso satisfeito. — Vou esbanjar demais.
Já Hilda olhava
pro cardápio com a testa franzida e a língua empurrando de leve sua bochecha.
Seus olhos se encontraram por um momento e Cress não conseguiu evitar que seu
coração acelerasse e um sorrisinho surgisse em seu rosto.
— Do outro lado
tem o cardápio do Pokémon Café que tem comidas mais... Unovenses, se for mais do seu gosto.
— Ah, é? — ela
não virou o papel, no entanto, e deu mais uma looonga olhada no lado mais Sinnohano do menu. — Mas acho que vou
querer, hã... Um katsu curry? E esse
ensopado Hidden Power.
— Desde quando
você gosta de sopa? — Hilbert perguntou, franzindo a testa.
— Calaboca,
moleque — ela sussurrou alto antes de se virar pra Cress com um sorriso
curioso. — E esse Sweet Kiss aqui é
tem o quê? Achei tão bonitinho os corações em cima!
— Tem os
ingredientes embaixo do nome-Ai!
Hilbert se
abaixou pra acariciar a perna que havia acabado de levar uma bica por baixo da
mesa. O sorriso de Cress aumentou, mas ele conseguiu não rir.
— Maçã, leite,
mel e chocolate. E os biscoitos em cima também são de chocolate.
— Perfeito,
então, vai ser isso mesmo!
Quando o garçom
chegou, Hilbert pediu duas barras de Old
Gateau, duas sopas diferentes, um refrigerante com limão e um sukiyaki. Cress pediu pra si mesmo só um
chá de gengibre com maçã... Mas não imaginava que isso não ia passar
despercebido:
— Pera, ‘cê não
vai comer nada?
— Ah, não, a
gente não tem permissão pra comer nada do cardápio...
Em teoria, essa
regra de fato existia. Na prática, Cress, Chili e Cilan a quebravam diariamente
ao almoçar os restos dos clientes. Mas, bem, ele não podia trazer um prato
meio-comido pra mesa, e com certeza não na frente de estranhos. Estranhos esses
em quem ele queria causar uma boa primeira impressão.
— Escolhe alguma
coisa aí que eu peço, então! — insistiu Hilda. — A gente paga!
— Não, não, sou
eu que estou agradecendo vocês, não seria certo-
— Se ‘cê não
escolher, eu mesma escolho algo, e aí ‘cê vai ter que comer!
Cress foi de
confusão à vergonha em questão de segundos. Por que ela estava fazendo isso por
alguém que havia acabado de conhecer? Era ele quem estava pagando sua dívida!
— Ela vai pedir
mesmo, só pra você saber — Avisou Hilbert.
— Tá bem, tá
bem... — ele suspirou, erguendo as mãos em derrota e tomando um gole bem longo
do seu chá. — Quero um Limber, então.
Ela acrescentou
o ensopado de milho ao seu pedido junto a um refil do chá que ele estava
tomando, e, por mais que Cress detestasse admitir, seu estômago roncou de
alegria quando o prato foi colocado à sua frente.
— Eu achei que
cozinheiros comiam bem... — comentou Hilbert, que devorou metade de um dos seus
Old Gateaus numa mordida só antes de
tocar no resto do seu pedido. — Mas você não pode nem comer sua própria comida?
— Ah, é aquele
ditado... — ele deu um sorriso sem graça. — Em casa de Gurdurr, a viga é de
pau. A gente almoça sobras, e o Cilan faz o jantar.
— ‘Cê é do tipo
que não toma café?
— É... Não
lembro qual foi a última vez que comi algo logo depois de acordar.
— Hmmm... —
Hilda pegou um pedaço do seu katsu curry,
e abriu um sorriso ao engolir. — Ó, isso aqui é bom!
— Também acho.
Carne de Grumpig sempre foi uma das minhas favoritas.
— Ah, é? Lá em
casa a gente come muito peixe, não é sempre que eu como carne...
Hilda e Cress
continuaram conversando sobre comida, enquanto Hilbert focava na sua,
alegremente balançando os joelhos por baixo da mesa. Mas uma hora ele se juntou
a conversa, elogiando o cardápio Sinnohano e dando sugestões do que
acrescentar. Mesmo sabendo que ele não voltaria mais a este lugar, Cress ainda
assim anotou as ideias, sentindo um carinho pelo ato de cozinhar que não tinha
há tempos.
O que era pra
ser um almoço rápido virou uma conversa de quase três horas, que só parou
quando Cilan finalmente apareceu, e perguntou de forma tímida se eles iam pedir
mais alguma coisa, dando a dica pra desocuparem a mesa. No fim, Cress marcou a
batalha de Hilda pra manhã do dia seguinte. Era idiota, sim, mas ele bem que
queria uma desculpa pra ter a companhia deles por mais tempo, especialmente de
Hilda. “Mas não faz mal”, Cress concluiu. “Vai ser bom ter algo pra me dar
forças pra terminar o dia”. E, de fato, quando os irmãos se despediram pra
continuar turistando pela cidade e treinar um pouco antes da grande batalha,
Cress passou pelo dia com o espírito renovado. As perguntas acanhadas de Cilan
e as tiradas agressivas de Chili entraram por uma orelha e saíram por outra
enquanto ele fazia seu trabalho com a eficiência de sempre, mas com muito mais
entusiasmo.
Esse seria seu
último dia sob aquele teto.
Quando as portas
do estabelecimento se fecharam, seus Pokémon estavam alimentados e ele estava
de banho tomado, haviam duas coisas a serem feitas. Uma delas era montar sua
mochila, nem que fosse de forma básica, e a esconder debaixo da cama pra não
levantar suspeitas. A outra... Ele decidiu fazer de imediato. Cress mais uma
vez saiu sem dar satisfação, levando a Poké Ball de Solomon consigo só por via
das dúvidas. Ele foi mais ao leste do Dreamyard, pra uma área ainda mais
isolada de Striaton: O cemitério da cidade, caminhando até achar duas lápides
muito familiares, uma do lado da outra:
Caroline Cornelian e Cayenne Newport.
Sua
mãe e sua avó.
— Vocês me
achariam egoísta se eu falasse que vou embora amanhã? — ele murmurou, por fim,
cruzando os braços. — Não sei o que o Cilan e o Chili contam a vocês, e sei que
prometemos que nós ficaríamos juntos, mas... Eu... Eu preciso sair daqui, ou
vou enlouquecer...
Claro, as pedras
não responderam. Cress só conseguia ouvir sua própria respiração pesada e os
barulhos de um grupo de Woobat que acabou de despertar ao longe.
— Algum dia eu
volto. Prometo. Não é como se eu conseguisse passar muito tempo longe de vocês,
heh... — ele fungou. — Não faço ideia do que eu vou fazer, ou do que estou
atrás, mas... Só sei que não posso ficar nessa cidade... Ou no Ginásio. Vocês
me perdoam?
Ele ficou
olhando a grama balançar com o vento e as lâmpadas amarelas dos postes do
cemitério tremeluzirem por vários minutos, com os olhos enchendo de lágrimas.
Ser ameaçado por um Seviper era bem menos assustador que fazer essa pergunta...
— Acho que isso
é um sim... Vocês sempre perdoavam a gente, não importa o que a gente
aprontava. Hoje... Não tenho nada de bom pra dizer pra vocês. Então só vim dar
tchau... Então... Até logo. Não se preocupem comigo, eu vou ficar bem. Eles
também vão.
Cress hesitou,
mas estendeu as mãos pra limpar a poeira do topo das duas lápides, se
arrependendo de não ter trazido flores. Talvez na próxima. Seja lá quando fosse
a próxima...
Ele deu uma
longa olhada pras duas mulheres da sua vida antes de conseguir dar as costas e
ir embora. Quanto mais cedo ele fosse dormir... Mais cedo o dia seguinte
chegaria.
[...]
— Você age como
se fosse você o Pokémon que vai batalhar...
— Hilbert deu um risinho enquanto fazia um carinho na Elgyem no seu ombro.
Depois do café
da manhã e antes de sair pela porta do Centro rumo à batalha, Hilda fez questão
de se alongar, usando sofázinho ao lado dela como apoio pra esticar a perna,
encostando os dedos na ponta da sua bota.
— ‘Cê nunca
sabe, vai que...!
Hoje ela tinha
se dado ao trabalho de usar um look
completamente diferente: Uma camisa preta junto com um macacão branco curtinho
— ela decidiu que agora estava calor o suficiente pra voltar pros shorts —, e
um boné rosa mais claro por cima dos cabelos que agora estavam soltos, o que
era incomum pra ela.
Hilbert
continuava com a mesma roupa que ele tinha usado ontem.
— Tô pronta,
simbora! — ela esticou os braços acima da cabeça uma última vez.
— E aí, Hilda
Müller, como se sente indo pra sua primeira batalha de Ginásio?
— Empolgada. E
nervosa.
— Confiante?
— Acho que sim?
— É, vai ter que
servir.
Quando eles
chegaram ao restaurante, ao invés de levá-los pro salão de jantar à direita, o
distraído maître os instruiu a seguir em frente, por trás de uma longa cortina
cinza, e que subissem assim que vissem um lance de escadas. E por trás dela,
havia um cômodo praticamente vazio e sem decoração, exceto por três grandes
botões no chão de linóleo turquesa. Verde, vermelho e azul, com os símbolos dos
tipos grama, fogo e água. À sua frente, mais uma cortina enorme, mas vermelha e
com um símbolo de chamas.
— Eu achei que
ele ia me mandar entrar por um outro lado pra assistir a batalha... — Hilbert
ponderou.
— Ish, que quê
eu tenho que fazer aqui? Escolher o que tem vantagem, é?
— Acho que sim?
Hilda apertou o
botão azul com o pé, hesitando um pouco antes de apertar. Dito e feito, uma
musiquinha de comemoração tocou num alto-falante do teto, e a cortina escalarte
se abriu.
— Só isso? —
Hilbert franziu a testa e virou de leve a cabeça pro lado. Nia imitou o gesto.
— Acho que é...
No outro cômodo,
havia os mesmos três botões, mas agora a cortina azul tinha um símbolo de gota.
Dessa vez, Hilda deu um pulo exageradamente alto pra pisar no botão verde com
tudo. Mesma musiquinha, exceto que o mecanismo que devia puxar as cortinhas
emperrou e só fez um barulho agudo de coisa quebrada. Os irmãos só passaram por
ela a empurrando mesmo.
Na última sala,
mesma coisa: Cortina do tipo Grama, botões no chão... E agora dava pra ouvir
uma discussão vindo do andar de cima, o que fez os dois se entreolharem por
alguns segundos antes de Hilda deixar Hilbert apertar o mecanismo vermelho
dessa vez. Pelo menos, agora elas se abriram corretamente, e eles estavam
olhando pra um corredorzinho minúsculo com um armário de vassouras na direita,
e as escadas que o maître havia indicado em frente.
— Que merda,
hein? — Hilbert colocou as mãos na cintura.
— Meio
anticlimático, né?
Por sorte, a área
de batalha era bem mais impressionante que o “quebra-cabeça” no térreo. Na
esquerda, havia um banheiro — que era agora obrigatório ter em todas as arenas
graças a um incidente desagradável no Ginásio de Nimbasa no ano passado —, e na
direita, três mesas e cadeiras coloridas, todas bagunçadas e espalhadas.
E, logo à
frente, estavam os três líderes, parados na grande arena feita de madeira. Era
basicamente um palco, com uma cerca baixa ao redor e um degrauzinho pra subir,
e com a área do juiz, do líder e do desafiante marcadas nos cantos com fita
adesiva preta e branca. Hilda e Hilbert reconheceram Cilan, e, claro, Cress —
que esboçava um risinho satisfeito —, mas não o terceiro irmão... Cujo rosto
estava tão vermelho de raiva quanto seus cabelos.
— O-olá, bom
dia! — Cilan forçou um perfeito sorriso de atendimento ao cliente. — Bem-vindos
ao Ginásio de Striaton!
Si-lên-cio. Mais
uma vez, Hilda e Hilbert se entreolharam, com seus olhos sendo consumidos pelo
constrangimento alheio enquanto Cilan dava um chutinho não-tão-discreto na
perna do garoto ruivo.
— Chili. Tipo Fogo.
— Não é isso
que-
— Não enche,
Cilan.
— Bem-vindos,
bem-vindos! — interrompeu Cress, mais empolgado que nunca. — Eu sou o Cress, e
me especializo em Pokémon do tipo Água... Mas vocês já sabem disso.
— E eu sou o
Cilan... Eu, hã, gosto de Pokémon do tipo Grama.
A garota decidiu
tentar melhorar o clima de enterro se apresentando também:
— Oi, oi, eu sou
a Hilda! E esse é meu irmão, Hilbert! A gente é de Nuvema! Eu vou batalhar, e
ele vai assistir.
— Sim, sim, eu
lembro das suas informações... Bom, já que... Já que você escolheu Snivy como
seu inicial... — Cilan disse timidamente. — Você vai batalhar contra-
— Nananão! Sinto muito, mas... — Cress o
interrompeu, dando um passo a frente. Tirando pelo seu sorriso travesso, ele
não parecia sentir muito. — Quem vai batalhar contra minha salvadora sou eu.
Chili revirou os
olhos e virou o rosto, e Cilan abriu e fechou a boca como se tivesse desistido
de dizer algo. Hilbert se sentou numa cadeira azul do restaurante de forma
contrária, apoiando os cotovelos nas costas dela, que estava entre suas pernas.
Nia se ajustou em seu ombro, também curiosa pra ver onde isso estava indo. Era
uma escolha interessante, escolher batalhar contra Hilda mesmo sabendo que ela
tinha não um, mas dois Pokémon com vantagem de tipo sobre ele. Talvez fosse uma
questão de honra, ou alguma besteira assim. Treinadores tem dessas bobagens.
— Por mim tudo
bem! — Hilda deu de ombros, sorrindo.
— Mas antes de
começarmos, quero lhe dar uma escolha. Posso batalhar contra você com minha
equipe habitual do Ginásio, que eu uso contra qualquer desafiante, que seria
uma escolha segura... Ou...
Ele tirou do
bolso uma esfera que tinha vários tons de azul nela, com o azul mais claro no
topo fazendo um formato que lembrava asas feitas de água, uma Dive Ball.
— Posso te
oferecer uma batalha contra meu Frillish! Prometo que ele ainda está num nível
iniciante, já que não batalhamos com muita frequência, mas ele com certeza
seria um desafio maior. O que acha?
Cress ignorou os
olhares espantados de seus irmãos... E de Hilbert, cujo coração acelerou de
imediato. Ele sabia exatamente o que Hilda ia dizer. O sorriso da garota sumiu
por alguns poucos segundos. Ela tirou as Poké Balls do seu Snivy e da sua
Blitzle do bolso, as encarando como se quisesse adivinhar o que eles gostariam
de fazer. E então, sua resposta foi imediata:
— Pode mandar!
Vem com tudo!
Cress deu uma
risada satisfeita, acenando de leve com a cabeça. Ele entusiasmadamente jogou
seu avental de garçom e a gravata borboleta azul no chão, os chutando pra área
do juiz com desdém, e desfez os botões do seu colete preto, exibindo a camisa
social branca por baixo. Hilda desviou o olhar quando ele fez isso, sentindo o
rosto esquentar. Enquanto isso, ela ia até a área da direita enquanto Cress
ficava na esquerda. Cilan, de cabeça baixa, foi até o canto do meio na sua
posição de juiz, tentando não pisar nas roupas que seu irmão havia jogado ali.
Chili se sentou ao lado de Hilbert com as pernas abertas, bufando.
— Olha, eu achei
que treinadores como você só existiam em desenhos animados, mas aqui está você
em carne e osso provando que eu estava errado!
— E não pega
leve porque eu te salvei não, hein? — ela falou, voltando a olhar pra ele, um
tanto envergonhada.
— Não se
preocupe, minha querida, jamais insultaria sua força dessa maneira. Aliás,
gostei muito da sua roupa hoje. Você fica muito bonita de cabelos soltos
também.
— Ah, sério?
Valeu... — ela ajeitou o boné com um sorriso tímido, mas rapidamente sacudiu a
cabeça pra se recuperar. — Ó, e outra coisa!
— Hm?
— Se eu
vencer... — Ela deu uma pausa dramática, apontando pra Cress. — Quero que ‘cê
venha com a gente!
— Quê?! —
Hilbert grasnou indignado do outro lado da arena. — Hilda!
— Ah, eu já ia
me oferecer independente do resultado da nossa batalha, mas fico feliz que você
tenha pensado nisso também!
Hilbert
resmungou que já devia ter imaginado que isso ia acontecer e revirou os olhos.
Nia virou de leve a cabeça pro lado, perdida sobre o que estava acontecendo
entre os humanos.
— Cress, espera,
c-como assim? — perguntou Cilan.
— Eu falei, você
não ouviu? Mesmo se eu não for com eles, vou embora daqui de qualquer jeito —
Cress respondeu sem se virar pra encarar o irmão, mantendo seus olhos em Hilda.
— Se vocês querem apodrecer nesse lugar maldito, problema seu. Cansei de viver
essa vida. Quero achar a minha.
— Deixa esse
merda ir, Cilan! — Chili quase que rosnou pro garoto de cabelo verde.
Pela milésima
vez naquela manhã, Hilda e Hilbert trocaram olhares meio constrangidos com a
briga de família acontecendo na frente deles. Mas a garota se recuperou rápido,
sacando a Poké Ball de Blitzle. Enquanto isso, Cress abriu a esfera do seu
Panpour, e se abaixou pra falar baixinho pra criatura:
— Está afim de
batalhar? Não tem problema se não tiver com vontade depois do que aconteceu
hoje...
O macaquinho
azul hesitou, pensando... E no fim, fez que não com a cabeça, apontando pra
Chili enquanto subia no ombro de Cress pra se esconder. Isso só o fez ter mais
raiva do irmão, mas ele só suspirou alto e fez carinho na cabeça do Panpour.
— Fique tranquilo,
ok? — disse o rapaz enquanto pegava outra Poké Ball. — Pode ficar aqui do meu
lado.
— Hã...
Estamos... Estamos aqui hoje para a batalha do Líder de Ginásio de Striaton,
Cress, contra a desafiante... Hã... — Cilan franziu a testa enquanto subia no batente
de juiz, e se virou pra Hilda. — Qual... Qual seu sobrenome mesmo? P-perdão, eu
esqueci...
— Hilda Müller!
— Contra a
desafiante Hilda Müller de Nuvema! A batalha será, hã...
— Dois contra
dois — Disse Cress, ainda com a mão na cabeça do macaco que abraçava sua perna.
— C-certo, dois
contra dois, e a batalha termina quando todos os Pokémon de um dos lados
estiverem fora de combate. Comecem...?
— Bora lá,
Blitzle!
Hilda na hora
libertou sua zebrinha elétrica, que ao sair da esfera, correu pra esfregar a
cabeça de forma carinhosa no joelho da sua treinadora, que sorriu e acariciou
sua crina.
— Hehe, pelo
menos ‘cê gosta de mim... Diferente de outro bicho aí que eu conheço — zombou
Hilda, olhando pra outra Poké Ball presa na sua cintura. — Tá, vamo lá, essa
batalha é séria! Tá pronta?
Blitzle acenou
com a cabeça e se pôs em posição, preparada. Sem dizer nada, Cress jogou um
tipo de Poké Ball que Hilda conhecia bem, uma azul-turquesa com um padrão preto
de uma rede: Net Ball, perfeita pra um Pokémon de Água... E dela saiu um
cachorrinho marrom de pelo espetado, uma visão bem familiar. Lillipup. “Osh,
uma Net Ball pra um tipo normal?”, se perguntou Hilda. Mas ela não tinha tempo
de questionar.
— Ok, ‘cê já viu
o que um desses é capaz... ‘Cê ganhou do Zach... Dá pra levar essa. — ela
sussurrou pra si mesma.
Falando nele...
A primeira coisa que ela pensou foi seguir com a estratégia do Charge. Pra ser honesta, ela não fazia
ideia se isso ia dar certo quando ela usou contra seu ex-crush. Só lhe deu o impulso de tentar, e, bem, o risco foi
recompensado.
— Boa sorte — desejou
a Lillipup, mas seu sorriso era levemente debochado.
— Hehehe,
igualmente!
— Gostaria de
ter o primeiro movimento? — a voz do líder de Ginásio acordou a treinadora.
— Quero. Usa o Charge!
— Work Up, então!
A Blitzle e o
Lillipup se encaravam com intensidade enquanto tensionavam os seus corpos
carregavam suas energias pro turno seguinte, a zebrinha com eletricidade
estática estalando por suas pernas e o cachorrinho com uma aura vermelha
tomando conta de seu corpo. Hilda e Cress também se encaravam, olhos azuis se
fitando como se piscar significasse perder... E os dois quebraram o contato
visual no mesmo instante:
— Agora, Quick Attack!
— Tackle!
Claro que o
Pokémon elétrico foi mais rápido, e as faíscas tornaram o golpe veloz um tanto
mais doloroso... Mas o Lillipup bateu com mais força quando as duas
criaturinhas se chocaram, fazendo a Blitzle cambalear pra trás.
— Ha, rápida no
gatilho, não é? — Cress sorriu.
— Charge de novo! — Hilda não respondeu.
— Bite, não deixe!
Dito e feito,
quando Blitzle ia se preparar pra carregar de novo, levou uma mordida bem no
pescoço. A garota grunhiu em solidariedade quando a zebrinha relinchou,
tentando tirar o adversário de cima de si, mas ele não abria a boca por nada, e
Blitzle não era forte o suficiente pra sacudi-la pra longe na base da força.
“E agora? Pra
onde você vai?”, se perguntou Cress enquanto ele via os olhos da treinadora
indo de um lado pro outro enquanto ela pensava. Hilbert, assistindo
intensamente, também tentava pensar o que ele faria se estivesse no lugar da
irmã, mas não lhe via em nada... Hilda olhou pra ele por uma fração de
segundo...
E depois abaixou
o olhar pra cerquinha que circundava a arena.
— Usa Quick Attack pra esmagar ele contra a
cerca!
Cress mal teve
tempo de erguer as sobrancelhas em surpresa antes que Blitzle disparasse em
direção à pequena barreira e batesse a cabeça do Lillipup com um “PÁ” nauseante
que estremeceu a madeira. Foi mais do que o suficiente pra mandíbula do
cachorro se abrir e Blitzle conseguir se desvencilhar, criando o máximo de
distância possível.
— Boa! — Hilbert
sussurrou, cerrando os punhos.
— Tenta o Charge agora!
O Pokémon
elétrico teve total liberdade de recarregar enquanto seu oponente cambaleava
tonto pela arena.
— Tsc... — Cress
estalou a língua. Nem adiantava pedir pro Lillipup se recompor depois de uma
porrada daquelas.
Hilda, por outro
lado, estava pensando em outra coisa... Diferente das outras vezes, a
eletricidade estática se acumulava no corpo de Blitzle, mas dessa vez ela havia
conseguido guardá-la na crina, que agora estava brilhando em amarelo. Ela se
virou pra sua treinadora, a fitando com o cantinho dos olhos como se pedisse
permissão. Hilda deu uma risadinha.
— Não sei o que
‘cê quer fazer, mas confio. Vai lá!
Blitzle
continuou carregando sua energia elétrica, e agora suas listras brilhavam em
dourado também... Mas o Lillipup de Cress já conseguia ficar de pé.
— Tudo bem? — perguntou
o garoto.
O cachorro latiu
em resposta, voltando à sua posição de luta. O sorriso de Hilda enfraqueceu, e
seu coração acelerou. Blitzle ainda estava usando Charge... A garota engoliu em
seco, se forçando a confiar no seu Pokémon.
— Ainda
insistindo nisso... — Cress ponderou, mas não hesitou. — Tackle!
Lillipup correu
de cabeça. Hilda fechou os punhos, se preparando pro impacto, e Hilbert,
sentado na sua cadeira, imitou o gesto...
Até que Blitzle
ergueu a cabeça com tudo, esticando o pescoço, e uma literal onda de choque
saiu de sua crina de forma meio trêmula e instável. O Pokémon do tipo normal
teve o reflexo rápido de frear a corrida, derrapando um pouco pro lado no chão
de madeira, então o Shock Wave lhe
atingiu só no tronco, mas foi o suficiente pra dar um bom dano.
Hilda deu um
pulinho feliz, mas não gastou um segundo a mais comemorando antes de dar a
próxima ordem:
— Quick Attack pra terminar, vai!
E assim ela o
fez, mais uma vez empurrando o Lillipup pra cerquinha de madeira, e ao
atingi-la com um ganido, o Pokémon estava fora de combate. Cilan usou seu braço
pra apontar no lugar de uma bandeira que um juiz de verdade teria:
— Lillipup está
fora de combate, Blitzle é a vencedora! O placar está um à zero!
“Um à zero.”,
repetiu Hilda em sua mente, respirando fundo. Metade do trabalho havia sido
feito. Só faltava a outra.
— Consegue
continuar? — Perguntou a garota, se abaixando um pouco.
A zebrinha
imitou o pulo empolgado que sua mestra havia dado a pouco, exceto com um pouco
menos de entusiasmo pelos machucados, principalmente a mordida no pescoço.
— Ok, vou
confiar!
— Muito
obrigado, minha amiga. Descanse bem — disse Cress ao devolver seu Pokémon para
sua esfera e voltou a olhar Hilda com um sorriso. — Não esperava um golpe novo
no meio da luta. Parabéns... Mas não acabamos ainda! Pronta?
— Prontíssima! —
ela tentou devolver o sorriso pra disfarçar o quão alto seu coração retumbava
no seu peito.
Cress pegou um
outro tipo de Poké Ball que também era familiar à Hilda: Uma com três tons de
azul, a Dive Ball. E quando ela se abriu, dela saiu uma água viva, com olhos
vermelhos, uma boca presa numa eterna expressão preocupada e uma gola pomposa
no pescoço.
“Ok, esse aí é tipo água de certeza... Mas... Ela
aprendeu mesmo Shock
Wave, ou foi por causa do Charge?” Hilda pensou, batendo a ponta do pé
no chão. “Não vou arriscar não, esse é o
Pokémon mais forte dele, não posso perder tudo agora!”
— Quick Attack!
Hilbert teve que
colocar a mão na boca pra impedir o grito de “não!” que ia sair dela, sabendo
que sua irmã não ia querer ajuda. E, como ele sabia que iria acontecer, o golpe
da Blitzle passou reto do Pokémon Fantasma, e ela se desequilibrou de leve ao
atravessar o adversário. Hilda sentiu sua pele gelar, e Cress sacudiu de leve a
cabeça.
— Water Pulse, Solomon.
O acerto foi
crítico, pois o jato de água que veio pelo ar em forma de anéis foi mais do que
o suficiente pra derrubar o Pokémon de Hilda. A voz de Cilan soava distante em
seus ouvidos:
— Blitzle está
fora de combate, Frillish é o vencedor! O placar está um a um!
— Valeu demais
pelo esforço, Blitzle, pode descansar... — Hilda respirou fundo enquanto
devolvia seu Pokémon à sua esfera.
Droga! Helga vive falando mal dos Frillish, reclamando que só atrapalham a vida dos
pescadores roubando o que eles estavam tentando pegar... Como ela pôde esquecer
que ele é um fantasma?! Um Shock Wave
podia ter pelo menos chegado perto de derrubar o oponente caso tivesse
acertado... Mas agora só tinha uma opção. Com o coração batendo forte, Hilda
lançou a Poké Ball de Emerald com um pouco de força demais, pois a esfera caiu
quase que nos pés de Cress, e o Snivy teve que pular pra trás pra ficar na
posição correta pra batalha.
— Vamo detonar tudo! — ela exclamou, mais séria do que de costume. — Usa o Leer!
— Ah, “detonar tudo” é exatamente o que eu
planejo fazer.
O olhar penetrante de Emerald faria um arrepio
percorrer a espinha do Frillish... Se ele tivesse uma.
— Vocês realmente querem vencer, não é? — perguntou
a água-viva.
— Querer? Não. Eu preciso vencer.
— Poison Sting,
Solomon! — Cress ordenou.
De um de seus
tentáculos, foi disparada uma pequena farpa roxa numa velocidade
impressionante, acertando Emerald bem no ombro, causando uma dorzinha chata,
mas bem menor do que ele esperava.
— Vine Whip!
Sendo o mais
rápido entre os dois, a vinha do Snivy acertou Solomon com tudo, dando uma
chicotada que foi do lado esquerdo da cabeça até o tentáculo direito, como se
fosse um corte de espada. O impacto fez o Frillish quase voar pra trás, parando
quase aos pés do seu treinador, que recuou por instinto. Mas, antes que Emerald
ou Hilda pudessem comemorar o golpe bem dado... Uma pesada aura azul-escura fez
o corpo de Solomon estremecer, e ela passou rapidamente de seu corpo pra vinha
de Emerald, até tomar conta da serpente inteira, e foi a vez do Snivy tremer.
Até as luzes da arena tremularam por um segundo.
— Puta merda...
— Hilbert arregalou os olhos e colocou uma mão na cabeça assim que percebeu o que
estava acontecendo.
— Hã?! Que quê é
isso?! — Hilda franziu a testa.
— Cursed Body tem chance de temporariamente
desativar qualquer movimento físico que acerta o usuário — explicou Cress,
ainda com aquele sorriso levado no rosto. — Geralmente eu procuro não depender
tanto da sorte, mas não é sempre que luto contra um oponente tão forte quanto
você.
Emerald tentou
mover as suas vinhas, mas elas não responderam ao comando, como se não fizessem
mais parte de seu corpo. A risadinha fantasmagórica que Solomon deu só o
deixava mais irritado com essa situação, que era péssima: Não havia mais como
dar dano no Frillish sem a força elemental de um golpe do tipo planta. Hilda
sentiu um frio no estômago, procurando uma saída... E só encontrou uma. Ela se
forçou a sorrir de volta pra Cress — que sentiu o peito esquentar com o gesto
—, ajeitando o boné na cabeça.
— “Temporariamente”,
é?
— Exato. Mas não
se distraia! Poison Sting de novo!
Mais uma vez,
Emerald foi atingido pela farpazinha envenenada no mesmo ombro de antes, que
lhe causou pouco dano. Ele não estava entendendo aonde o oponente queria chegar
com esse golpe que, apesar de super-efetivo, era tão fraco... Até sentir uma
dor tão aguda que o fez pender pro lado por um instante. Veneno.
Hilbert colocou
a outra mão na cabeça, mentalmente se fazendo a mesma pergunta que Hilda, que
cerrava os punhos e tensionava sua pose de batalha: E agora?! Enquanto isso,
Chili revirou os olhos.
— Que cara tryhard...
— É verdade,
fazia tempo que eu não via ele se esforçar tanto assim pra vencer... — Cilan
não percebeu o deboche no tom do seu irmão.
— É, só batalha com vontade quando tem alguma mina trouxa pra cair no papo dele... E para de fazer essas piadinhas com cozinha, tá só passando vergonha.
Cilan ficou vermelho, e abaixou a cabeça, cruzando as mãos atrás das costas. Irritado com as
palavras do ruivo, Hilbert suspirou alto e falou em alto e bom som:
— Chamar os
outros de tryhard geralmente é coisa
de quem não se garante na porrada, mas aí você quem sabe, né...
— O que foi que
você disse?!
— Coisa de quem
não se garante na porrada e infantil ainda. Você é o quê? Um moleque de doze
anos jogando Free Flash Fire usando o
cartão da mãe pra comprar skin?
Enquanto os dois
trocavam ofensas extremamente maduras entre si, Hilda chegava à conclusão que
só havia uma coisa a se fazer na situação que ela e Emerald se encontravam:
— Se isso é
temporário mesmo, então... CORRE!
O Snivy hesitou,
mas entendeu a ideia de sua treinadora no instante que Frillish carregou um Water Pulse com seus tentáculos e
disparou contra ele. Por sorte, ele conseguiu se jogar pro lado no último
instante, o tiro passando tão de raspão que Emerald conseguiu sentir a água na
ponta da sua cauda.
— Mais uma vez,
Solomon!
Dessa vez,
Emerald pulou no cercadinho da arena num piscar de olhos, e o golpe passou
longe. Embora poderoso, o Pokémon água-viva era bem mais lento que a serpente,
o que era mais que suficiente pra que Hilda pudesse comprar tempo. Uma nova
confiança eletrizante passou pelo corpo da garota.
— A gente pode
até não conseguir te acertar por enquanto, mas se quiser ganhar, ‘cê vai ter
que pegar a gente primeiro! — bradou ela, dando um soco no ar.
— Ah, é? — O
sorriso de Cress só aumentava. — É isso que nós iremos fazer, então!
Ele genuinamente
não conseguia se lembrar da última vez que havia se sentido tão bem numa
batalha. Ganhando ou perdendo, esse seria seu último dia dentro do prédio onde
havia passado os anos mais humilhantes de sua vida, dentro das quatro paredes
que haviam apodrecido todo otimismo que ele um dia teve. A liberdade estava a
passos de distância, e esperança zumbia pela suas veias como uma droga.
— Por que você
tá defendendo esse escravoceta do
nada, hein?! — gritou Chili, fazendo Cilan encolher os ombros ao seu lado.
— Nossa, além de
roubar o cartão dela, você ainda beija tua mãe com essa boca?
— Ela tá morta.
— Ah — Hilbert
hesitou por um momento, mas logo voltou a sua expressão monótona. — Pior ainda,
ela tá lá junto com Arceus vendo você chamar seu irmão de escravoceta.
O moreno mal viu
o punho vindo em sua direção, só conseguiu virar a cabeça pro lado pra levar o
soco na clavícula ao invés de ser na cara. Mas, por outro lado, Hilbert mal
tinha soltado uma exclamação de dor antes de o carma atingir Chili de imediato.
A Elgyem no ombro do garoto estendeu uma das mãozinhas, com a luz vermelha
acendendo com mais força do que de costume, e causou uma dor de cabeça
lancinante no ruivo, ao ponto que ele cambaleou pra trás, chegando perto do
campo de batalha... E teve sua cabeça usada de apoio pra Emerald, que fugia de
outro Water Pulse do Frillish. Se ele não tivesse se abaixado no último
seguinte, teria levado o golpe na cara. Ao invés disso, o jato bateu na parede,
molhando o lado de fora da arena.
— E-ei, é
proibido os Pokémon saírem do campo numa batalha de Ginásio! — Cilan gaguejou.
Mas ninguém deu
bola pra ele, tanto que o Snivy pousou numa mesa atrás de Chili, cambaleando
cada vez mais graças ao veneno. Porém, a cada segundo, ele ganhava mais e mais
controle das suas vinhas de volta, conseguindo mover uma delas com pouca
dificuldade agora... Mas ainda faltava a outra. Tique-taque, o que chegaria
primeiro: O fim da maldição, ou a queda de Emerald por envenenamento?
Cress desceu o
curto lance de escadas o mais rápido possível, enquanto Hilda só pulou o
cercadinho num salto ágil, ambos com sorrisos eufóricos no rosto.
— Pega ele,
Solomon!
— Aguenta só
mais um pouquinho! — gritou Hilda ao seu Pokémon.
Enquanto isso,
Hilbert olhava para a expressão assassina de Chili com uma certa preocupação,
engolindo em seco e colocando a mão perto do pescoço onde havia levado o soco.
Com um irmão desses, quem precisava de inimigo? Não que ele tivesse alguma
chance de ganhar caso se atrevesse a tentar, mas ele e Hilda nunca saíram no
soco antes...
Enquanto os
treinadores gritavam palavras de encorajamento aos seus respectivos Pokémon, o
Snivy continuou pulando de mesa em mesa, desviando dos jatos de água que
encharcavam o segundo andar inteiro. Mas o último salto foi lento demais, e
finalmente, o Water Pulse de Frillish
acertou seu alvo, derrubando Emerald no chão, o veneno no seu corpo o fazendo
tremer.
Cress olhou de
relance como quem pedia desculpas pra Hilda enquanto o sorriso desaparecia de
seu rosto. Mas batalha é batalha. O rapaz deu alguns passos a frente enquanto
Solomon se aproximava de seu adversário. Ele nem viu seu treinador fazer um
gesto de pistola com os dedos, e nem precisou, já sabendo o que ele precisava
fazer...
Emerald ergueu o
olhar pra encarar sua treinadora, que o encarava com olhos arregalados e
tensos... Até que Hilda fez uma mímica como quem estrangulava alguém no ar. A
cobra deu um sorrisinho enquanto o Frillish posicionava os tentáculos pra
atacar.
Mas sua
concentração foi interrompida quando uma vinha se enrolou no seu pescoço, a
energia elemental do tipo planta tornando possível tocar seu corpo.
— Seu tempo acabou — Emerald sibilou.
Mal Solomon e
Cress abriram a boca de surpresa, o outro cipó se enrolou no tronco do
fantasma, e uma aura verde começou a exalar do corpo do Snivy. Com toda a
força, Frillish foi jogado pro outro lado da sala, e as áreas do corpo que
foram tocadas pelas vinhas começaram a tremeluzir, como se ele fosse
desaparecer em pleno ar.
— Não
acredito... Como que eu fui esquecer de Overgrow?!
— bufou Cress pra si mesmo.
— Acaba com ele,
rápido! — gritou Hilda, sentindo sua pulsação nos ouvidos.
Cada passo veloz
era doloroso, mas Snivy avançou antes que a água-viva pudesse se recompor,
levando mais uma chicotada no rosto com tudo, que fez um barulho molhado como
se ele tivesse usado Vine Whip num
lago. Agora seu corpo inteiro tremia, e, depois de segundos que foram uma
eternidade pra Hilda, ele caiu no chão e não se levantou mais.
— F-Frillish
está fora de combate, Snivy é o vencedor... — anunciou Cilan, mas logo em
seguida se distraiu com a discussão que ainda estava acontecendo do outro lado
da arena. — F-fica quieto um pouco, Chili!
— Quieto o caralho!
— Me perdoa,
Solomon. Essa foi culpa minha... — murmurou Cress enquanto colocava seu Pokémon
de volta na sua Dive Ball.
A vencedora
ficou parada em pé por vários instantes, mas piscou pra acordar, e correu em
direção ao ofegante Snivy que havia sentado no chão, abrindo um sorriso que não
cabia no rosto enquanto pegava sua Poké Ball.
— Valeu demais,
demais! Você foi tudo!
— Quem diria, você não me decepcionou
tremendamente dessa vez... Parabéns.
Mas como ela não
conseguia entender o deboche, ela o colocou de volta na esfera com dedos
trêmulos de alegria, erguendo os olhos pra Cress, que se aproximava dela com um
sorriso.
— Bom... Não
consigo negar que estou com o orgulho levemente ferido, mas... Fazia tempo que
não ficava tão satisfeito com a vitória de um desafiante.
Ele se abaixou
pra cavucar no bolso do colete que ele havia jogado no chão no começo da
batalha, e dele, tirou uma insígnia que parecia uma gravata-borboleta pontuda,
com três jóias coloridas nela, verde, vermelha e azul.
— Como é a regra
da Liga Pokémon de Unova... A Trio Badge
é sua. Parabéns!
Hilda pegou a medalhinha nas mãos, admirando o seu brilho. Nas várias vezes que se imaginou ganhando a sua primeira insígnia, ela se via tendo uma atitude mais digna, apertando a mão do líder, ou algo assim... Mas ela só conseguiu dar um grito de alegria e se abraçar Cress com tamanha força que quase o derrubou, e continuou pulando enquanto o agarrava, seus olhos se enchendo de lágrimas.
— Eu ganhei! Eu
ganhei, eu ganhei, eu ganhei MESMO!
Quando ela o
soltou, ainda o segurando pelos ombros, Cress estava com o cabelo mais bagunçado
e com mais felicidade no seu olhar que antes, rindo junto com ela.
— Ganhou mesmo!
— ele riu.
— Bom, e aí? Eu
venci, então... — seu sorriso aumentou em expectativa.
— Então eu sou
seu segundo prêmio pela vitória — ele deu uma piscadinha. — Me dê um minuto pra
trocar de roupa, e estarei com vocês.
Enquanto andava
até as escadas que o levariam pro terceiro andar, ele conseguiu vê-la corando,
mas rapidamente correndo pra abraçar seu irmão, que havia desistido de discutir
com Chili e já havia se levantado, esperando por isso. Ele revirou os olhos,
mas tinha um sorriso no rosto. Cress sorriu também, antes de ir até o
apartamentozinho.
A primeira coisa
que Cress fez ao entrar no quarto foi pegar uma caneta azul na sua escrivaninha
e escrever um “D” no dia 30 de março no calendário que ficava atrás da porta de
madeira, simbolizando uma derrota na sua conta. Ele não se lembrava se já havia
escrito essa letra com tanta alegria antes, mas aqui estava ele, com um sorriso
enorme no rosto.
— Ok... Ok, não
sei nem o que eu vim fazer aqui, preciso tirar as lentes... — ele murmurou pra
si mesmo e deu um passo em direção a porta pra ir ao banheiro, mas mudou de
ideia no último instante. — Não, não, vou escolher o que vou vestir antes!
Escolher uma
camisa de botões branca — não uma do restaurante — e um suéter cinza pra vestir
por cima foi a parte fácil, era uma combinação que ele gostava, mas o resto...
Mas enquanto ele revirava a sua gaveta na cômoda, Cress ouviu uma gritaria que
o fez encolher os ombros:
— Repete se for
macho, seu nerdola!
Ele correu pra
fechar a porta pra abafar completamente o som. Chega. Chega desses berros do
Chili. Mas, por outro lado, Cress não queria deixar os seus novos companheiros
de viagem lidando com seus irmãos, então ele se apressou, pegando uma calça
jeans rasgada que ele nunca tinha tido coragem de usar e um par confortável de
tênis vermelhos.
Mas, enquanto
Cress lutava pra colocar o pé no sapato o mais rápido possível, ele viu algo
brilhando no fundo da sua gaveta. E sabia exatamente o que era: Um colar com a
insígnia do Ginásio como pingente. Os três usavam constantemente nos primeiros
meses como líderes, mas uma discussão atrás da outra fez tanto Cress quanto
Chili enfiá-los na cômoda compartilhada dos trigêmeos pra nunca mais olhar.
Cilan ainda usava o dele.
Cress encarou a
insígnia por vários segundos, até que, olhando pros lados como se tivesse medo
que alguém o visse, ele decidiu pendurar o colar no pescoço, colocando a Trio
Badge por baixo da roupa, assim como Cilan fazia.
Por fim, ele correu até o banheiro pra tirar as lentes de contato azuis, deixando seus olhos castanhos novamente. Ele os via diariamente, toda vez que ia dormir, mas a sensação era que ele estava olhando nos próprios olhos no espelho pela primeira vez.
— Cress... — a
voz hesitante de Cilan surgiu atrás dele.
Ele se virou de
forma meio brusca, esperando uma discussão... Mas, vendo a expressão quase que
assustada de Cilan, pela primeira vez, ele sentiu uma pontada de culpa no
peito, hesitando. Será que tudo isso não passava de uma birra infantil e
egoísta? Mas a dúvida durou pouco. Ficar doeria bem mais do que ir embora.
—
Não tente me impedir.
Ele voltou pro
quarto a passos largos, querendo dar uma última olhada em tudo pra ter certeza
que não estava esquecendo de nada. E, de fato, Cress quase esqueceu seu estojo.
Ele realmente estava estressado na noite passada...
— M-mas... O
que... O que você vai fazer? Pra onde... Pra onde você vai? — Cilan gaguejava
mais do que o costume.
— Não sei. Mas
garanto que só vou descobrir se eu sair daqui.
— Mas e... E o Ginásio?
O-o que nós vamos fazer?
Após enfiar um
livro extra na mochila e fechá-la com certa dificuldade — o zíper estava bem
velho —, ele a pendurou nas costas, se levantou, e mais uma vez aquela culpa afiada
como uma agulha lhe acertou no coração. Mas essa era uma oportunidade de ter
uma conversa com Cilan que ele já devia ter tido faz tempo. Cress suspirou,
colocou uma mão no ombro do irmão mais velho, e tentou soar o mais calmo
possível:
— Cilan. Eu sei
que isso... Esse Ginásio... Não é o que você quer.
O rapaz de
cabelos verdes arregalou os olhos.
— C-como...
— Eu te conheço.
Eu sei que você gosta muito mais de cozinhar do que de batalhar. Fala com o
pessoal da Liga. Deixa o Ginásio com o Chili, e você fica com o restaurante.
Vai ser melhor pra todo mundo.
— Cress, a graça
do Ginásio é... É ter três tipos! — Cilan bufou. — Como que eles iam aceitar
isso?!
— Eles não se
gabam tanto de Unova ter sido a primeira região a popularizar as batalhas
triplas? — Cress insistiu. — Ainda dá pra eles manterem essa gimmick!
— Você realmente
vai embora por causa de uma garota?!
Ele abriu a boca
pra responder, mas desistiu antes que alguma palavra saísse. Sua expressão
ficou fria. Lágrimas geladas de decepção tomaram conta de seus olhos, mas ele
se negou a deixar uma sequer cair.
— Não é sobre
uma garota. Mas eu devia saber que vocês não iam se lembrar da nossa promessa,
a memória de vocês é muito curta... — ele deu uma leve risada de escárnio. —
Vocês não entenderiam.
— E-entender o
quê-
— Até mais,
Cilan. — Cress interrompeu. — Boa sorte.
— Cress, espera!
Ele não esperou.
Ao invés disso, ele desceu as escadas o mais rápido possível, batendo os pés em
cada degrau como se estivesse punindo esse lugar por todo o sofrimento que lhe
causou. Ele se permitiu se sentir culpado por mais um segundo apenas quando
murmurou:
— Desculpa,
vovó...
Cress engoliu o
choro sob aquele teto uma última vez antes de descer as escadas, rumo a... Seja
lá o que lhe aguardava lá fora. Mas tinha que ser melhor do que o que estava
deixando pra trás.











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