Posted by : Jolly E. Jun 27, 2026

 


Que estranho. Depois de uma experiência de talvez-quase-morte nas mãos de uma criminosa com um Pokémon venenoso e uma fantasia ridícula, talvez Cress não devesse estar se sentindo tão em paz. Ele até se sentia culpado pelo sentimento, já que um Pokémon havia sido seriamente machucado... E um humano quase foi de vala também. Mas aqui estava ele, aproveitando o sol enquanto esperava por Hilbert e Hilda na porta do Centro. Há quanto tempo ele não tinha a oportunidade de só... Ficar parado? De não precisar pensar em nada?


Sem pensar em qual seria a próxima tarefa doméstica a fazer. Sem pensar em qual seria a próxima discussão, ou a próxima puxada de orelha que ele teria que dar. Sem ficar com dor na mandíbula de tanto tensionar o músculo. Qual foi a última vez que ele ficou empolgado em entrar no ginásio-restaurante? Talvez nos primeiros meses? Quando foi que tudo desandou? Qual foi a última vez que o calor do meio-dia o fazia se sentir vivo ao invés de fazê-lo pensar em como ele não teria tempo de comer nada pro almoço?


Ah, espera, ele nem tinha almoçado... Tomara que eles não tenham escutado o seu estômago roncando.


Os irmãos — ou assim ele assumiu, era coincidência demais eles terem nomes tão similares e não serem parentes — saíram do centro, mas sem sua amiga loira.

 

— A Munna vai precisar ficar em observação pelo resto do dia, graças ao veneno pesado — explicou Hilbert. — Então a Bianca preferiu ficar com ela.


— Ah, pobrezinha... — Cress suspirou. — Mas fico feliz que alguém está lá com ela. Qual o nome dela? Vou deixar na recepção caso ela passe por lá mais tarde.


— Bianca Isabelle Rossi.

 

O líder tirou o caderninho que geralmente usava pra anotar pedidos do bolso e escreveu o nome na sua letra caprichada. O trio se dirigiu ao estabelecimento, e Cress fez questão de abrir a porta pros dois — Bom, mais pra Hilda, na verdade.

 

— Oxe, peraí, é aqui que tinha aquelas comidas de Sinnoh?! — ela se virou pra perguntar ao irmão.


— É, ué. Achei que você tinha se lembrado.


— É que tá muito diferente!


— Sim, o restaurante mudou bastante. — O rapaz de cabelos azuis acenou com a cabeça. — Era bem mais... Simples antes de virar um Ginásio.


E antes de ser comprado por um monstro capitalista, pensou Cress.

 

Antigamente, quando vovó Chayanne estava viva e o restaurante se chamava Mitsuhoshi’s, a madeira no chão era clara, as janelas iluminavam e ventilavam o local e sempre havia música tocando... Agora era um restaurante dominado por madeira escura, candelabros artificiais, cortinas vermelhas que não eram tão caras quanto pareciam e apenas as vozes das pessoas ecoavam. Cress observou a forma que os irmãos endireitaram a coluna e tentavam parecer mais arrumados. Como se esse inferno de lugar merecesse algum nível de elegância.


Ele mentalmente agradeceu que, como de costume, o maître não fez pergunta alguma sobre seu sumiço repentino, escolhendo ignorar a briga que havia acontecido agora a pouco, e mais grato ainda ele estava pelo fato que nem Chili, nem Cilan estavam por perto, então ele tinha a liberdade de se juntar à refeição. Os três se sentaram numa mesa azul que talvez fosse um pouco saturada demais pra atmosfera chique que o lugar tentava emular.

 

— Posso pedir qualquer coisa mesmo? — Hilbert perguntou, olhando o menu.


— O que quiser, totalmente por minha conta. De novo, é o mínimo que posso fazer por vocês!


— Já que você tá dizendo... — o moreno abriu um sorriso satisfeito. — Vou esbanjar demais.

 

Já Hilda olhava pro cardápio com a testa franzida e a língua empurrando de leve sua bochecha. Seus olhos se encontraram por um momento e Cress não conseguiu evitar que seu coração acelerasse e um sorrisinho surgisse em seu rosto.

 

— Do outro lado tem o cardápio do Pokémon Café que tem comidas mais... Unovenses, se for mais do seu gosto.


— Ah, é? — ela não virou o papel, no entanto, e deu mais uma looonga olhada no lado mais Sinnohano do menu. — Mas acho que vou querer, hã... Um katsu curry? E esse ensopado Hidden Power.


— Desde quando você gosta de sopa? — Hilbert perguntou, franzindo a testa.


— Calaboca, moleque — ela sussurrou alto antes de se virar pra Cress com um sorriso curioso. — E esse Sweet Kiss aqui é tem o quê? Achei tão bonitinho os corações em cima!


— Tem os ingredientes embaixo do nome-Ai!

 

Hilbert se abaixou pra acariciar a perna que havia acabado de levar uma bica por baixo da mesa. O sorriso de Cress aumentou, mas ele conseguiu não rir.

 

— Maçã, leite, mel e chocolate. E os biscoitos em cima também são de chocolate.


— Perfeito, então, vai ser isso mesmo!

 

Quando o garçom chegou, Hilbert pediu duas barras de Old Gateau, duas sopas diferentes, um refrigerante com limão e um sukiyaki. Cress pediu pra si mesmo só um chá de gengibre com maçã... Mas não imaginava que isso não ia passar despercebido:

 

— Pera, ‘cê não vai comer nada?


— Ah, não, a gente não tem permissão pra comer nada do cardápio...

 

Em teoria, essa regra de fato existia. Na prática, Cress, Chili e Cilan a quebravam diariamente ao almoçar os restos dos clientes. Mas, bem, ele não podia trazer um prato meio-comido pra mesa, e com certeza não na frente de estranhos. Estranhos esses em quem ele queria causar uma boa primeira impressão.

 

— Escolhe alguma coisa aí que eu peço, então! — insistiu Hilda. — A gente paga!


— Não, não, sou eu que estou agradecendo vocês, não seria certo-


— Se ‘cê não escolher, eu mesma escolho algo, e aí ‘cê vai ter que comer!

 

Cress foi de confusão à vergonha em questão de segundos. Por que ela estava fazendo isso por alguém que havia acabado de conhecer? Era ele quem estava pagando sua dívida!

 

— Ela vai pedir mesmo, só pra você saber — Avisou Hilbert.


— Tá bem, tá bem... — ele suspirou, erguendo as mãos em derrota e tomando um gole bem longo do seu chá. — Quero um Limber, então.

 

Ela acrescentou o ensopado de milho ao seu pedido junto a um refil do chá que ele estava tomando, e, por mais que Cress detestasse admitir, seu estômago roncou de alegria quando o prato foi colocado à sua frente.

 

— Eu achei que cozinheiros comiam bem... — comentou Hilbert, que devorou metade de um dos seus Old Gateaus numa mordida só antes de tocar no resto do seu pedido. — Mas você não pode nem comer sua própria comida?


— Ah, é aquele ditado... — ele deu um sorriso sem graça. — Em casa de Gurdurr, a viga é de pau. A gente almoça sobras, e o Cilan faz o jantar.


— ‘Cê é do tipo que não toma café?


— É... Não lembro qual foi a última vez que comi algo logo depois de acordar.


— Hmmm... — Hilda pegou um pedaço do seu katsu curry, e abriu um sorriso ao engolir. — Ó, isso aqui é bom!


— Também acho. Carne de Grumpig sempre foi uma das minhas favoritas.


— Ah, é? Lá em casa a gente come muito peixe, não é sempre que eu como carne...

 

Hilda e Cress continuaram conversando sobre comida, enquanto Hilbert focava na sua, alegremente balançando os joelhos por baixo da mesa. Mas uma hora ele se juntou a conversa, elogiando o cardápio Sinnohano e dando sugestões do que acrescentar. Mesmo sabendo que ele não voltaria mais a este lugar, Cress ainda assim anotou as ideias, sentindo um carinho pelo ato de cozinhar que não tinha há tempos.


O que era pra ser um almoço rápido virou uma conversa de quase três horas, que só parou quando Cilan finalmente apareceu, e perguntou de forma tímida se eles iam pedir mais alguma coisa, dando a dica pra desocuparem a mesa. No fim, Cress marcou a batalha de Hilda pra manhã do dia seguinte. Era idiota, sim, mas ele bem que queria uma desculpa pra ter a companhia deles por mais tempo, especialmente de Hilda. “Mas não faz mal”, Cress concluiu. “Vai ser bom ter algo pra me dar forças pra terminar o dia”. E, de fato, quando os irmãos se despediram pra continuar turistando pela cidade e treinar um pouco antes da grande batalha, Cress passou pelo dia com o espírito renovado. As perguntas acanhadas de Cilan e as tiradas agressivas de Chili entraram por uma orelha e saíram por outra enquanto ele fazia seu trabalho com a eficiência de sempre, mas com muito mais entusiasmo.


Esse seria seu último dia sob aquele teto.

 

Quando as portas do estabelecimento se fecharam, seus Pokémon estavam alimentados e ele estava de banho tomado, haviam duas coisas a serem feitas. Uma delas era montar sua mochila, nem que fosse de forma básica, e a esconder debaixo da cama pra não levantar suspeitas. A outra... Ele decidiu fazer de imediato. Cress mais uma vez saiu sem dar satisfação, levando a Poké Ball de Solomon consigo só por via das dúvidas. Ele foi mais ao leste do Dreamyard, pra uma área ainda mais isolada de Striaton: O cemitério da cidade, caminhando até achar duas lápides muito familiares, uma do lado da outra:

 

Caroline Cornelian e Cayenne Newport.


Sua mãe e sua avó.


 Ele já havia vindo visitá-las em seus lugares finais de descanso nessa mesma faixa de horário, com o dia escurecendo, mas o céu ainda estando azul ao invés de negro, quase como as águas turvas do mar de Nuvema que sua vózinha amava tanto. Mas, hoje, a sensação era diferente. De despedida. Não pra sempre, claro, algum dia ele teria que voltar a por os pés nessa cidade... Talvez. Ele nem se sentou na frente de ambas como costumava fazer, e só ficou lá em pé, como uma criança que estava hesitando em contar que tinha quebrado alguma coisa.

 

— Vocês me achariam egoísta se eu falasse que vou embora amanhã? — ele murmurou, por fim, cruzando os braços. — Não sei o que o Cilan e o Chili contam a vocês, e sei que prometemos que nós ficaríamos juntos, mas... Eu... Eu preciso sair daqui, ou vou enlouquecer...

 

Claro, as pedras não responderam. Cress só conseguia ouvir sua própria respiração pesada e os barulhos de um grupo de Woobat que acabou de despertar ao longe.

 

— Algum dia eu volto. Prometo. Não é como se eu conseguisse passar muito tempo longe de vocês, heh... — ele fungou. — Não faço ideia do que eu vou fazer, ou do que estou atrás, mas... Só sei que não posso ficar nessa cidade... Ou no Ginásio. Vocês me perdoam?

 

Ele ficou olhando a grama balançar com o vento e as lâmpadas amarelas dos postes do cemitério tremeluzirem por vários minutos, com os olhos enchendo de lágrimas. Ser ameaçado por um Seviper era bem menos assustador que fazer essa pergunta...

 

— Acho que isso é um sim... Vocês sempre perdoavam a gente, não importa o que a gente aprontava. Hoje... Não tenho nada de bom pra dizer pra vocês. Então só vim dar tchau... Então... Até logo. Não se preocupem comigo, eu vou ficar bem. Eles também vão.

 

Cress hesitou, mas estendeu as mãos pra limpar a poeira do topo das duas lápides, se arrependendo de não ter trazido flores. Talvez na próxima. Seja lá quando fosse a próxima...


Ele deu uma longa olhada pras duas mulheres da sua vida antes de conseguir dar as costas e ir embora. Quanto mais cedo ele fosse dormir... Mais cedo o dia seguinte chegaria.

 

[...]

 

— Você age como se fosse você o Pokémon que vai batalhar... — Hilbert deu um risinho enquanto fazia um carinho na Elgyem no seu ombro.

 

Depois do café da manhã e antes de sair pela porta do Centro rumo à batalha, Hilda fez questão de se alongar, usando sofázinho ao lado dela como apoio pra esticar a perna, encostando os dedos na ponta da sua bota.

 

— ‘Cê nunca sabe, vai que...!

 

Hoje ela tinha se dado ao trabalho de usar um look completamente diferente: Uma camisa preta junto com um macacão branco curtinho — ela decidiu que agora estava calor o suficiente pra voltar pros shorts —, e um boné rosa mais claro por cima dos cabelos que agora estavam soltos, o que era incomum pra ela.


Hilbert continuava com a mesma roupa que ele tinha usado ontem.

 

— Tô pronta, simbora! — ela esticou os braços acima da cabeça uma última vez.


— E aí, Hilda Müller, como se sente indo pra sua primeira batalha de Ginásio?


— Empolgada. E nervosa.


— Confiante?


— Acho que sim?


— É, vai ter que servir.

 

Quando eles chegaram ao restaurante, ao invés de levá-los pro salão de jantar à direita, o distraído maître os instruiu a seguir em frente, por trás de uma longa cortina cinza, e que subissem assim que vissem um lance de escadas. E por trás dela, havia um cômodo praticamente vazio e sem decoração, exceto por três grandes botões no chão de linóleo turquesa. Verde, vermelho e azul, com os símbolos dos tipos grama, fogo e água. À sua frente, mais uma cortina enorme, mas vermelha e com um símbolo de chamas.

 

— Eu achei que ele ia me mandar entrar por um outro lado pra assistir a batalha... — Hilbert ponderou.


— Ish, que quê eu tenho que fazer aqui? Escolher o que tem vantagem, é?


— Acho que sim?

 

Hilda apertou o botão azul com o pé, hesitando um pouco antes de apertar. Dito e feito, uma musiquinha de comemoração tocou num alto-falante do teto, e a cortina escalarte se abriu.

 

— Só isso? — Hilbert franziu a testa e virou de leve a cabeça pro lado. Nia imitou o gesto.


— Acho que é...

 

No outro cômodo, havia os mesmos três botões, mas agora a cortina azul tinha um símbolo de gota. Dessa vez, Hilda deu um pulo exageradamente alto pra pisar no botão verde com tudo. Mesma musiquinha, exceto que o mecanismo que devia puxar as cortinhas emperrou e só fez um barulho agudo de coisa quebrada. Os irmãos só passaram por ela a empurrando mesmo.


Na última sala, mesma coisa: Cortina do tipo Grama, botões no chão... E agora dava pra ouvir uma discussão vindo do andar de cima, o que fez os dois se entreolharem por alguns segundos antes de Hilda deixar Hilbert apertar o mecanismo vermelho dessa vez. Pelo menos, agora elas se abriram corretamente, e eles estavam olhando pra um corredorzinho minúsculo com um armário de vassouras na direita, e as escadas que o maître havia indicado em frente.

 

— Que merda, hein? — Hilbert colocou as mãos na cintura.


— Meio anticlimático, né?

 

Por sorte, a área de batalha era bem mais impressionante que o “quebra-cabeça” no térreo. Na esquerda, havia um banheiro — que era agora obrigatório ter em todas as arenas graças a um incidente desagradável no Ginásio de Nimbasa no ano passado —, e na direita, três mesas e cadeiras coloridas, todas bagunçadas e espalhadas.


E, logo à frente, estavam os três líderes, parados na grande arena feita de madeira. Era basicamente um palco, com uma cerca baixa ao redor e um degrauzinho pra subir, e com a área do juiz, do líder e do desafiante marcadas nos cantos com fita adesiva preta e branca. Hilda e Hilbert reconheceram Cilan, e, claro, Cress — que esboçava um risinho satisfeito —, mas não o terceiro irmão... Cujo rosto estava tão vermelho de raiva quanto seus cabelos.

 

— O-olá, bom dia! — Cilan forçou um perfeito sorriso de atendimento ao cliente. — Bem-vindos ao Ginásio de Striaton!

 

Si-lên-cio. Mais uma vez, Hilda e Hilbert se entreolharam, com seus olhos sendo consumidos pelo constrangimento alheio enquanto Cilan dava um chutinho não-tão-discreto na perna do garoto ruivo.

 

— Chili. Tipo Fogo.


— Não é isso que-


— Não enche, Cilan.


— Bem-vindos, bem-vindos! — interrompeu Cress, mais empolgado que nunca. — Eu sou o Cress, e me especializo em Pokémon do tipo Água... Mas vocês já sabem disso.


— E eu sou o Cilan... Eu, hã, gosto de Pokémon do tipo Grama.

 

A garota decidiu tentar melhorar o clima de enterro se apresentando também:

 

— Oi, oi, eu sou a Hilda! E esse é meu irmão, Hilbert! A gente é de Nuvema! Eu vou batalhar, e ele vai assistir.


— Sim, sim, eu lembro das suas informações... Bom, já que... Já que você escolheu Snivy como seu inicial... — Cilan disse timidamente. — Você vai batalhar contra-


Nananão! Sinto muito, mas... — Cress o interrompeu, dando um passo a frente. Tirando pelo seu sorriso travesso, ele não parecia sentir muito. — Quem vai batalhar contra minha salvadora sou eu.

 

Chili revirou os olhos e virou o rosto, e Cilan abriu e fechou a boca como se tivesse desistido de dizer algo. Hilbert se sentou numa cadeira azul do restaurante de forma contrária, apoiando os cotovelos nas costas dela, que estava entre suas pernas. Nia se ajustou em seu ombro, também curiosa pra ver onde isso estava indo. Era uma escolha interessante, escolher batalhar contra Hilda mesmo sabendo que ela tinha não um, mas dois Pokémon com vantagem de tipo sobre ele. Talvez fosse uma questão de honra, ou alguma besteira assim. Treinadores tem dessas bobagens.

 

— Por mim tudo bem! — Hilda deu de ombros, sorrindo.


— Mas antes de começarmos, quero lhe dar uma escolha. Posso batalhar contra você com minha equipe habitual do Ginásio, que eu uso contra qualquer desafiante, que seria uma escolha segura... Ou...


Ele tirou do bolso uma esfera que tinha vários tons de azul nela, com o azul mais claro no topo fazendo um formato que lembrava asas feitas de água, uma Dive Ball.

 

— Posso te oferecer uma batalha contra meu Frillish! Prometo que ele ainda está num nível iniciante, já que não batalhamos com muita frequência, mas ele com certeza seria um desafio maior. O que acha?

 

Cress ignorou os olhares espantados de seus irmãos... E de Hilbert, cujo coração acelerou de imediato. Ele sabia exatamente o que Hilda ia dizer. O sorriso da garota sumiu por alguns poucos segundos. Ela tirou as Poké Balls do seu Snivy e da sua Blitzle do bolso, as encarando como se quisesse adivinhar o que eles gostariam de fazer. E então, sua resposta foi imediata:

 

— Pode mandar! Vem com tudo!

 

Cress deu uma risada satisfeita, acenando de leve com a cabeça. Ele entusiasmadamente jogou seu avental de garçom e a gravata borboleta azul no chão, os chutando pra área do juiz com desdém, e desfez os botões do seu colete preto, exibindo a camisa social branca por baixo. Hilda desviou o olhar quando ele fez isso, sentindo o rosto esquentar. Enquanto isso, ela ia até a área da direita enquanto Cress ficava na esquerda. Cilan, de cabeça baixa, foi até o canto do meio na sua posição de juiz, tentando não pisar nas roupas que seu irmão havia jogado ali. Chili se sentou ao lado de Hilbert com as pernas abertas, bufando.

 

— Olha, eu achei que treinadores como você só existiam em desenhos animados, mas aqui está você em carne e osso provando que eu estava errado!


— E não pega leve porque eu te salvei não, hein? — ela falou, voltando a olhar pra ele, um tanto envergonhada.


— Não se preocupe, minha querida, jamais insultaria sua força dessa maneira. Aliás, gostei muito da sua roupa hoje. Você fica muito bonita de cabelos soltos também.


— Ah, sério? Valeu... — ela ajeitou o boné com um sorriso tímido, mas rapidamente sacudiu a cabeça pra se recuperar. — Ó, e outra coisa!


— Hm?


— Se eu vencer... — Ela deu uma pausa dramática, apontando pra Cress. — Quero que ‘cê venha com a gente!


Quê?! — Hilbert grasnou indignado do outro lado da arena. — Hilda!


— Ah, eu já ia me oferecer independente do resultado da nossa batalha, mas fico feliz que você tenha pensado nisso também!

 

Hilbert resmungou que já devia ter imaginado que isso ia acontecer e revirou os olhos. Nia virou de leve a cabeça pro lado, perdida sobre o que estava acontecendo entre os humanos.

 

— Cress, espera, c-como assim? — perguntou Cilan.


— Eu falei, você não ouviu? Mesmo se eu não for com eles, vou embora daqui de qualquer jeito — Cress respondeu sem se virar pra encarar o irmão, mantendo seus olhos em Hilda. — Se vocês querem apodrecer nesse lugar maldito, problema seu. Cansei de viver essa vida. Quero achar a minha.


— Deixa esse merda ir, Cilan! — Chili quase que rosnou pro garoto de cabelo verde.

 

Pela milésima vez naquela manhã, Hilda e Hilbert trocaram olhares meio constrangidos com a briga de família acontecendo na frente deles. Mas a garota se recuperou rápido, sacando a Poké Ball de Blitzle. Enquanto isso, Cress abriu a esfera do seu Panpour, e se abaixou pra falar baixinho pra criatura:

 

— Está afim de batalhar? Não tem problema se não tiver com vontade depois do que aconteceu hoje...

 

O macaquinho azul hesitou, pensando... E no fim, fez que não com a cabeça, apontando pra Chili enquanto subia no ombro de Cress pra se esconder. Isso só o fez ter mais raiva do irmão, mas ele só suspirou alto e fez carinho na cabeça do Panpour.

 

— Fique tranquilo, ok? — disse o rapaz enquanto pegava outra Poké Ball. — Pode ficar aqui do meu lado.


— Hã... Estamos... Estamos aqui hoje para a batalha do Líder de Ginásio de Striaton, Cress, contra a desafiante... Hã... — Cilan franziu a testa enquanto subia no batente de juiz, e se virou pra Hilda. — Qual... Qual seu sobrenome mesmo? P-perdão, eu esqueci...


— Hilda Müller!


— Contra a desafiante Hilda Müller de Nuvema! A batalha será, hã...


— Dois contra dois — Disse Cress, ainda com a mão na cabeça do macaco que abraçava sua perna.


— C-certo, dois contra dois, e a batalha termina quando todos os Pokémon de um dos lados estiverem fora de combate. Comecem...?



— Bora lá, Blitzle!

 

Hilda na hora libertou sua zebrinha elétrica, que ao sair da esfera, correu pra esfregar a cabeça de forma carinhosa no joelho da sua treinadora, que sorriu e acariciou sua crina.

 

— Hehe, pelo menos ‘cê gosta de mim... Diferente de outro bicho aí que eu conheço — zombou Hilda, olhando pra outra Poké Ball presa na sua cintura. — Tá, vamo lá, essa batalha é séria! Tá pronta?

 

Blitzle acenou com a cabeça e se pôs em posição, preparada. Sem dizer nada, Cress jogou um tipo de Poké Ball que Hilda conhecia bem, uma azul-turquesa com um padrão preto de uma rede: Net Ball, perfeita pra um Pokémon de Água... E dela saiu um cachorrinho marrom de pelo espetado, uma visão bem familiar. Lillipup. “Osh, uma Net Ball pra um tipo normal?”, se perguntou Hilda. Mas ela não tinha tempo de questionar.

 

— Ok, ‘cê já viu o que um desses é capaz... ‘Cê ganhou do Zach... Dá pra levar essa. — ela sussurrou pra si mesma.

 

Falando nele... A primeira coisa que ela pensou foi seguir com a estratégia do Charge. Pra ser honesta, ela não fazia ideia se isso ia dar certo quando ela usou contra seu ex-crush. Só lhe deu o impulso de tentar, e, bem, o risco foi recompensado.

 

Boa sorte — desejou a Lillipup, mas seu sorriso era levemente debochado.


Hehehe, igualmente!


— Gostaria de ter o primeiro movimento? — a voz do líder de Ginásio acordou a treinadora.


— Quero. Usa o Charge!


Work Up, então!

 

A Blitzle e o Lillipup se encaravam com intensidade enquanto tensionavam os seus corpos carregavam suas energias pro turno seguinte, a zebrinha com eletricidade estática estalando por suas pernas e o cachorrinho com uma aura vermelha tomando conta de seu corpo. Hilda e Cress também se encaravam, olhos azuis se fitando como se piscar significasse perder... E os dois quebraram o contato visual no mesmo instante:

 

— Agora, Quick Attack!


Tackle!

 

Claro que o Pokémon elétrico foi mais rápido, e as faíscas tornaram o golpe veloz um tanto mais doloroso... Mas o Lillipup bateu com mais força quando as duas criaturinhas se chocaram, fazendo a Blitzle cambalear pra trás.

 

— Ha, rápida no gatilho, não é? — Cress sorriu.


Charge de novo! — Hilda não respondeu.


Bite, não deixe!

 

Dito e feito, quando Blitzle ia se preparar pra carregar de novo, levou uma mordida bem no pescoço. A garota grunhiu em solidariedade quando a zebrinha relinchou, tentando tirar o adversário de cima de si, mas ele não abria a boca por nada, e Blitzle não era forte o suficiente pra sacudi-la pra longe na base da força.


“E agora? Pra onde você vai?”, se perguntou Cress enquanto ele via os olhos da treinadora indo de um lado pro outro enquanto ela pensava. Hilbert, assistindo intensamente, também tentava pensar o que ele faria se estivesse no lugar da irmã, mas não lhe via em nada... Hilda olhou pra ele por uma fração de segundo...


E depois abaixou o olhar pra cerquinha que circundava a arena.

 

— Usa Quick Attack pra esmagar ele contra a cerca!

 

Cress mal teve tempo de erguer as sobrancelhas em surpresa antes que Blitzle disparasse em direção à pequena barreira e batesse a cabeça do Lillipup com um “PÁ” nauseante que estremeceu a madeira. Foi mais do que o suficiente pra mandíbula do cachorro se abrir e Blitzle conseguir se desvencilhar, criando o máximo de distância possível.

 

— Boa! — Hilbert sussurrou, cerrando os punhos.


— Tenta o Charge agora!

 

O Pokémon elétrico teve total liberdade de recarregar enquanto seu oponente cambaleava tonto pela arena.

 

— Tsc... — Cress estalou a língua. Nem adiantava pedir pro Lillipup se recompor depois de uma porrada daquelas.

 

Hilda, por outro lado, estava pensando em outra coisa... Diferente das outras vezes, a eletricidade estática se acumulava no corpo de Blitzle, mas dessa vez ela havia conseguido guardá-la na crina, que agora estava brilhando em amarelo. Ela se virou pra sua treinadora, a fitando com o cantinho dos olhos como se pedisse permissão. Hilda deu uma risadinha.

 

— Não sei o que ‘cê quer fazer, mas confio. Vai lá!

 

Blitzle continuou carregando sua energia elétrica, e agora suas listras brilhavam em dourado também... Mas o Lillipup de Cress já conseguia ficar de pé.

 

— Tudo bem? — perguntou o garoto.

 

O cachorro latiu em resposta, voltando à sua posição de luta. O sorriso de Hilda enfraqueceu, e seu coração acelerou. Blitzle ainda estava usando Charge... A garota engoliu em seco, se forçando a confiar no seu Pokémon.

 

— Ainda insistindo nisso... — Cress ponderou, mas não hesitou. — Tackle!

 

Lillipup correu de cabeça. Hilda fechou os punhos, se preparando pro impacto, e Hilbert, sentado na sua cadeira, imitou o gesto...


Até que Blitzle ergueu a cabeça com tudo, esticando o pescoço, e uma literal onda de choque saiu de sua crina de forma meio trêmula e instável. O Pokémon do tipo normal teve o reflexo rápido de frear a corrida, derrapando um pouco pro lado no chão de madeira, então o Shock Wave lhe atingiu só no tronco, mas foi o suficiente pra dar um bom dano.


Hilda deu um pulinho feliz, mas não gastou um segundo a mais comemorando antes de dar a próxima ordem:

 

Quick Attack pra terminar, vai!

 

E assim ela o fez, mais uma vez empurrando o Lillipup pra cerquinha de madeira, e ao atingi-la com um ganido, o Pokémon estava fora de combate. Cilan usou seu braço pra apontar no lugar de uma bandeira que um juiz de verdade teria:

 

— Lillipup está fora de combate, Blitzle é a vencedora! O placar está um à zero!

 

“Um à zero.”, repetiu Hilda em sua mente, respirando fundo. Metade do trabalho havia sido feito. Só faltava a outra.

 

— Consegue continuar? — Perguntou a garota, se abaixando um pouco.

 

A zebrinha imitou o pulo empolgado que sua mestra havia dado a pouco, exceto com um pouco menos de entusiasmo pelos machucados, principalmente a mordida no pescoço.

 

— Ok, vou confiar!


— Muito obrigado, minha amiga. Descanse bem — disse Cress ao devolver seu Pokémon para sua esfera e voltou a olhar Hilda com um sorriso. — Não esperava um golpe novo no meio da luta. Parabéns... Mas não acabamos ainda! Pronta?


— Prontíssima! — ela tentou devolver o sorriso pra disfarçar o quão alto seu coração retumbava no seu peito.

 

Cress pegou um outro tipo de Poké Ball que também era familiar à Hilda: Uma com três tons de azul, a Dive Ball. E quando ela se abriu, dela saiu uma água viva, com olhos vermelhos, uma boca presa numa eterna expressão preocupada e uma gola pomposa no pescoço.


“Ok, esse aí é tipo água de certeza... Mas... Ela aprendeu mesmo Shock Wave, ou foi por causa do Charge?” Hilda pensou, batendo a ponta do pé no chão. “Não vou arriscar não, esse é o Pokémon mais forte dele, não posso perder tudo agora!”

 

Quick Attack!

 

Hilbert teve que colocar a mão na boca pra impedir o grito de “não!” que ia sair dela, sabendo que sua irmã não ia querer ajuda. E, como ele sabia que iria acontecer, o golpe da Blitzle passou reto do Pokémon Fantasma, e ela se desequilibrou de leve ao atravessar o adversário. Hilda sentiu sua pele gelar, e Cress sacudiu de leve a cabeça.

 

Water Pulse, Solomon.

 

O acerto foi crítico, pois o jato de água que veio pelo ar em forma de anéis foi mais do que o suficiente pra derrubar o Pokémon de Hilda. A voz de Cilan soava distante em seus ouvidos:

 

— Blitzle está fora de combate, Frillish é o vencedor! O placar está um a um!


— Valeu demais pelo esforço, Blitzle, pode descansar... — Hilda respirou fundo enquanto devolvia seu Pokémon à sua esfera.

 

Droga! Helga vive falando mal dos Frillish, reclamando que só atrapalham a vida dos pescadores roubando o que eles estavam tentando pegar... Como ela pôde esquecer que ele é um fantasma?! Um Shock Wave podia ter pelo menos chegado perto de derrubar o oponente caso tivesse acertado... Mas agora só tinha uma opção. Com o coração batendo forte, Hilda lançou a Poké Ball de Emerald com um pouco de força demais, pois a esfera caiu quase que nos pés de Cress, e o Snivy teve que pular pra trás pra ficar na posição correta pra batalha.

 

— Vamo detonar tudo! — ela exclamou, mais séria do que de costume. — Usa o Leer!

 

Ah, “detonar tudo” é exatamente o que eu planejo fazer.

 

 O olhar penetrante de Emerald faria um arrepio percorrer a espinha do Frillish... Se ele tivesse uma.

 

Vocês realmente querem vencer, não é? — perguntou a água-viva.


Querer? Não. Eu preciso vencer.


Poison Sting, Solomon! — Cress ordenou.

 

De um de seus tentáculos, foi disparada uma pequena farpa roxa numa velocidade impressionante, acertando Emerald bem no ombro, causando uma dorzinha chata, mas bem menor do que ele esperava.

 

Vine Whip!

 

Sendo o mais rápido entre os dois, a vinha do Snivy acertou Solomon com tudo, dando uma chicotada que foi do lado esquerdo da cabeça até o tentáculo direito, como se fosse um corte de espada. O impacto fez o Frillish quase voar pra trás, parando quase aos pés do seu treinador, que recuou por instinto. Mas, antes que Emerald ou Hilda pudessem comemorar o golpe bem dado... Uma pesada aura azul-escura fez o corpo de Solomon estremecer, e ela passou rapidamente de seu corpo pra vinha de Emerald, até tomar conta da serpente inteira, e foi a vez do Snivy tremer. Até as luzes da arena tremularam por um segundo.

 

— Puta merda... — Hilbert arregalou os olhos e colocou uma mão na cabeça assim que percebeu o que estava acontecendo.


— Hã?! Que quê é isso?! — Hilda franziu a testa.


Cursed Body tem chance de temporariamente desativar qualquer movimento físico que acerta o usuário — explicou Cress, ainda com aquele sorriso levado no rosto. — Geralmente eu procuro não depender tanto da sorte, mas não é sempre que luto contra um oponente tão forte quanto você.

 

Emerald tentou mover as suas vinhas, mas elas não responderam ao comando, como se não fizessem mais parte de seu corpo. A risadinha fantasmagórica que Solomon deu só o deixava mais irritado com essa situação, que era péssima: Não havia mais como dar dano no Frillish sem a força elemental de um golpe do tipo planta. Hilda sentiu um frio no estômago, procurando uma saída... E só encontrou uma. Ela se forçou a sorrir de volta pra Cress — que sentiu o peito esquentar com o gesto —, ajeitando o boné na cabeça.

 

— “Temporariamente”, é?


— Exato. Mas não se distraia! Poison Sting de novo!

 

Mais uma vez, Emerald foi atingido pela farpazinha envenenada no mesmo ombro de antes, que lhe causou pouco dano. Ele não estava entendendo aonde o oponente queria chegar com esse golpe que, apesar de super-efetivo, era tão fraco... Até sentir uma dor tão aguda que o fez pender pro lado por um instante. Veneno.


Hilbert colocou a outra mão na cabeça, mentalmente se fazendo a mesma pergunta que Hilda, que cerrava os punhos e tensionava sua pose de batalha: E agora?! Enquanto isso, Chili revirou os olhos.

 

— Que cara tryhard...


— É verdade, fazia tempo que eu não via ele se esforçar tanto assim pra vencer... — Cilan não percebeu o deboche no tom do seu irmão. — Está ligando o calor do fogão no máximo!


— É, só batalha com vontade quando tem alguma mina trouxa pra cair no papo dele... E para de fazer essas piadinhas com cozinha, tá só passando vergonha.

 

Cilan ficou vermelho, e abaixou a cabeça, cruzando as mãos atrás das costas. Irritado com as palavras do ruivo, Hilbert suspirou alto e falou em alto e bom som:

 

— Chamar os outros de tryhard geralmente é coisa de quem não se garante na porrada, mas aí você quem sabe, né...


— O que foi que você disse?!


— Coisa de quem não se garante na porrada e infantil ainda. Você é o quê? Um moleque de doze anos jogando Free Flash Fire usando o cartão da mãe pra comprar skin?

 

Enquanto os dois trocavam ofensas extremamente maduras entre si, Hilda chegava à conclusão que só havia uma coisa a se fazer na situação que ela e Emerald se encontravam:

 

— Se isso é temporário mesmo, então... CORRE!

 

O Snivy hesitou, mas entendeu a ideia de sua treinadora no instante que Frillish carregou um Water Pulse com seus tentáculos e disparou contra ele. Por sorte, ele conseguiu se jogar pro lado no último instante, o tiro passando tão de raspão que Emerald conseguiu sentir a água na ponta da sua cauda.

 

— Mais uma vez, Solomon!

 

Dessa vez, Emerald pulou no cercadinho da arena num piscar de olhos, e o golpe passou longe. Embora poderoso, o Pokémon água-viva era bem mais lento que a serpente, o que era mais que suficiente pra que Hilda pudesse comprar tempo. Uma nova confiança eletrizante passou pelo corpo da garota.

 

— A gente pode até não conseguir te acertar por enquanto, mas se quiser ganhar, ‘cê vai ter que pegar a gente primeiro! — bradou ela, dando um soco no ar.


— Ah, é? — O sorriso de Cress só aumentava. — É isso que nós iremos fazer, então!

 

Ele genuinamente não conseguia se lembrar da última vez que havia se sentido tão bem numa batalha. Ganhando ou perdendo, esse seria seu último dia dentro do prédio onde havia passado os anos mais humilhantes de sua vida, dentro das quatro paredes que haviam apodrecido todo otimismo que ele um dia teve. A liberdade estava a passos de distância, e esperança zumbia pela suas veias como uma droga.

 

— Por que você tá defendendo esse escravoceta do nada, hein?! — gritou Chili, fazendo Cilan encolher os ombros ao seu lado.


— Nossa, além de roubar o cartão dela, você ainda beija tua mãe com essa boca?


— Ela tá morta.


— Ah — Hilbert hesitou por um momento, mas logo voltou a sua expressão monótona. — Pior ainda, ela tá lá junto com Arceus vendo você chamar seu irmão de escravoceta.

 

O moreno mal viu o punho vindo em sua direção, só conseguiu virar a cabeça pro lado pra levar o soco na clavícula ao invés de ser na cara. Mas, por outro lado, Hilbert mal tinha soltado uma exclamação de dor antes de o carma atingir Chili de imediato. A Elgyem no ombro do garoto estendeu uma das mãozinhas, com a luz vermelha acendendo com mais força do que de costume, e causou uma dor de cabeça lancinante no ruivo, ao ponto que ele cambaleou pra trás, chegando perto do campo de batalha... E teve sua cabeça usada de apoio pra Emerald, que fugia de outro Water Pulse do Frillish. Se ele não tivesse se abaixado no último seguinte, teria levado o golpe na cara. Ao invés disso, o jato bateu na parede, molhando o lado de fora da arena.

 

— E-ei, é proibido os Pokémon saírem do campo numa batalha de Ginásio! — Cilan gaguejou.

 

Mas ninguém deu bola pra ele, tanto que o Snivy pousou numa mesa atrás de Chili, cambaleando cada vez mais graças ao veneno. Porém, a cada segundo, ele ganhava mais e mais controle das suas vinhas de volta, conseguindo mover uma delas com pouca dificuldade agora... Mas ainda faltava a outra. Tique-taque, o que chegaria primeiro: O fim da maldição, ou a queda de Emerald por envenenamento?


Cress desceu o curto lance de escadas o mais rápido possível, enquanto Hilda só pulou o cercadinho num salto ágil, ambos com sorrisos eufóricos no rosto.

 

— Pega ele, Solomon!


— Aguenta só mais um pouquinho! — gritou Hilda ao seu Pokémon.

 

Enquanto isso, Hilbert olhava para a expressão assassina de Chili com uma certa preocupação, engolindo em seco e colocando a mão perto do pescoço onde havia levado o soco. Com um irmão desses, quem precisava de inimigo? Não que ele tivesse alguma chance de ganhar caso se atrevesse a tentar, mas ele e Hilda nunca saíram no soco antes...


Enquanto os treinadores gritavam palavras de encorajamento aos seus respectivos Pokémon, o Snivy continuou pulando de mesa em mesa, desviando dos jatos de água que encharcavam o segundo andar inteiro. Mas o último salto foi lento demais, e finalmente, o Water Pulse de Frillish acertou seu alvo, derrubando Emerald no chão, o veneno no seu corpo o fazendo tremer.


Cress olhou de relance como quem pedia desculpas pra Hilda enquanto o sorriso desaparecia de seu rosto. Mas batalha é batalha. O rapaz deu alguns passos a frente enquanto Solomon se aproximava de seu adversário. Ele nem viu seu treinador fazer um gesto de pistola com os dedos, e nem precisou, já sabendo o que ele precisava fazer...


Emerald ergueu o olhar pra encarar sua treinadora, que o encarava com olhos arregalados e tensos... Até que Hilda fez uma mímica como quem estrangulava alguém no ar. A cobra deu um sorrisinho enquanto o Frillish posicionava os tentáculos pra atacar.


Mas sua concentração foi interrompida quando uma vinha se enrolou no seu pescoço, a energia elemental do tipo planta tornando possível tocar seu corpo.

 

Seu tempo acabou — Emerald sibilou.

 

Mal Solomon e Cress abriram a boca de surpresa, o outro cipó se enrolou no tronco do fantasma, e uma aura verde começou a exalar do corpo do Snivy. Com toda a força, Frillish foi jogado pro outro lado da sala, e as áreas do corpo que foram tocadas pelas vinhas começaram a tremeluzir, como se ele fosse desaparecer em pleno ar.

 

— Não acredito... Como que eu fui esquecer de Overgrow?! — bufou Cress pra si mesmo.


— Acaba com ele, rápido! — gritou Hilda, sentindo sua pulsação nos ouvidos.

 

Cada passo veloz era doloroso, mas Snivy avançou antes que a água-viva pudesse se recompor, levando mais uma chicotada no rosto com tudo, que fez um barulho molhado como se ele tivesse usado Vine Whip num lago. Agora seu corpo inteiro tremia, e, depois de segundos que foram uma eternidade pra Hilda, ele caiu no chão e não se levantou mais.

 

— F-Frillish está fora de combate, Snivy é o vencedor... — anunciou Cilan, mas logo em seguida se distraiu com a discussão que ainda estava acontecendo do outro lado da arena. — F-fica quieto um pouco, Chili!


— Quieto o caralho!


— Me perdoa, Solomon. Essa foi culpa minha... — murmurou Cress enquanto colocava seu Pokémon de volta na sua Dive Ball.

 

A vencedora ficou parada em pé por vários instantes, mas piscou pra acordar, e correu em direção ao ofegante Snivy que havia sentado no chão, abrindo um sorriso que não cabia no rosto enquanto pegava sua Poké Ball.

 

— Valeu demais, demais! Você foi tudo!


Quem diria, você não me decepcionou tremendamente dessa vez... Parabéns.

 

Mas como ela não conseguia entender o deboche, ela o colocou de volta na esfera com dedos trêmulos de alegria, erguendo os olhos pra Cress, que se aproximava dela com um sorriso.

 

— Bom... Não consigo negar que estou com o orgulho levemente ferido, mas... Fazia tempo que não ficava tão satisfeito com a vitória de um desafiante.

 

Ele se abaixou pra cavucar no bolso do colete que ele havia jogado no chão no começo da batalha, e dele, tirou uma insígnia que parecia uma gravata-borboleta pontuda, com três jóias coloridas nela, verde, vermelha e azul.

 

— Como é a regra da Liga Pokémon de Unova... A Trio Badge é sua. Parabéns!

 


Hilda pegou a medalhinha nas mãos, admirando o seu brilho. Nas várias vezes que se imaginou ganhando a sua primeira insígnia, ela se via tendo uma atitude mais digna, apertando a mão do líder, ou algo assim... Mas ela só conseguiu dar um grito de alegria e se abraçar Cress com tamanha força que quase o derrubou, e continuou pulando enquanto o agarrava, seus olhos se enchendo de lágrimas.

 

— Eu ganhei! Eu ganhei, eu ganhei, eu ganhei MESMO!

 

Quando ela o soltou, ainda o segurando pelos ombros, Cress estava com o cabelo mais bagunçado e com mais felicidade no seu olhar que antes, rindo junto com ela.

 

— Ganhou mesmo! — ele riu.


— Bom, e aí? Eu venci, então... — seu sorriso aumentou em expectativa.


— Então eu sou seu segundo prêmio pela vitória — ele deu uma piscadinha. — Me dê um minuto pra trocar de roupa, e estarei com vocês.

 

Enquanto andava até as escadas que o levariam pro terceiro andar, ele conseguiu vê-la corando, mas rapidamente correndo pra abraçar seu irmão, que havia desistido de discutir com Chili e já havia se levantado, esperando por isso. Ele revirou os olhos, mas tinha um sorriso no rosto. Cress sorriu também, antes de ir até o apartamentozinho.


A primeira coisa que Cress fez ao entrar no quarto foi pegar uma caneta azul na sua escrivaninha e escrever um “D” no dia 30 de março no calendário que ficava atrás da porta de madeira, simbolizando uma derrota na sua conta. Ele não se lembrava se já havia escrito essa letra com tanta alegria antes, mas aqui estava ele, com um sorriso enorme no rosto.

 


— Ok... Ok, não sei nem o que eu vim fazer aqui, preciso tirar as lentes... — ele murmurou pra si mesmo e deu um passo em direção a porta pra ir ao banheiro, mas mudou de ideia no último instante. — Não, não, vou escolher o que vou vestir antes!

 

Escolher uma camisa de botões branca — não uma do restaurante — e um suéter cinza pra vestir por cima foi a parte fácil, era uma combinação que ele gostava, mas o resto... Mas enquanto ele revirava a sua gaveta na cômoda, Cress ouviu uma gritaria que o fez encolher os ombros:

 

— Repete se for macho, seu nerdola!

 

Ele correu pra fechar a porta pra abafar completamente o som. Chega. Chega desses berros do Chili. Mas, por outro lado, Cress não queria deixar os seus novos companheiros de viagem lidando com seus irmãos, então ele se apressou, pegando uma calça jeans rasgada que ele nunca tinha tido coragem de usar e um par confortável de tênis vermelhos.


Mas, enquanto Cress lutava pra colocar o pé no sapato o mais rápido possível, ele viu algo brilhando no fundo da sua gaveta. E sabia exatamente o que era: Um colar com a insígnia do Ginásio como pingente. Os três usavam constantemente nos primeiros meses como líderes, mas uma discussão atrás da outra fez tanto Cress quanto Chili enfiá-los na cômoda compartilhada dos trigêmeos pra nunca mais olhar. Cilan ainda usava o dele.


Cress encarou a insígnia por vários segundos, até que, olhando pros lados como se tivesse medo que alguém o visse, ele decidiu pendurar o colar no pescoço, colocando a Trio Badge por baixo da roupa, assim como Cilan fazia.


Por fim, ele correu até o banheiro pra tirar as lentes de contato azuis, deixando seus olhos castanhos novamente. Ele os via diariamente, toda vez que ia dormir, mas a sensação era que ele estava olhando nos próprios olhos no espelho pela primeira vez.

  (art by Leucro)


— Cress... — a voz hesitante de Cilan surgiu atrás dele.

 

Ele se virou de forma meio brusca, esperando uma discussão... Mas, vendo a expressão quase que assustada de Cilan, pela primeira vez, ele sentiu uma pontada de culpa no peito, hesitando. Será que tudo isso não passava de uma birra infantil e egoísta? Mas a dúvida durou pouco. Ficar doeria bem mais do que ir embora.

 

— Não tente me impedir.    

 

Ele voltou pro quarto a passos largos, querendo dar uma última olhada em tudo pra ter certeza que não estava esquecendo de nada. E, de fato, Cress quase esqueceu seu estojo. Ele realmente estava estressado na noite passada...

 

— M-mas... O que... O que você vai fazer? Pra onde... Pra onde você vai? — Cilan gaguejava mais do que o costume.


— Não sei. Mas garanto que só vou descobrir se eu sair daqui.


— Mas e... E o Ginásio? O-o que nós vamos fazer?

 

Após enfiar um livro extra na mochila e fechá-la com certa dificuldade — o zíper estava bem velho —, ele a pendurou nas costas, se levantou, e mais uma vez aquela culpa afiada como uma agulha lhe acertou no coração. Mas essa era uma oportunidade de ter uma conversa com Cilan que ele já devia ter tido faz tempo. Cress suspirou, colocou uma mão no ombro do irmão mais velho, e tentou soar o mais calmo possível:

 

— Cilan. Eu sei que isso... Esse Ginásio... Não é o que você quer.

 

O rapaz de cabelos verdes arregalou os olhos.

 

— C-como...


— Eu te conheço. Eu sei que você gosta muito mais de cozinhar do que de batalhar. Fala com o pessoal da Liga. Deixa o Ginásio com o Chili, e você fica com o restaurante. Vai ser melhor pra todo mundo.


— Cress, a graça do Ginásio é... É ter três tipos! — Cilan bufou. — Como que eles iam aceitar isso?!


— Eles não se gabam tanto de Unova ter sido a primeira região a popularizar as batalhas triplas? — Cress insistiu. — Ainda dá pra eles manterem essa gimmick!


— Você realmente vai embora por causa de uma garota?!

 

Ele abriu a boca pra responder, mas desistiu antes que alguma palavra saísse. Sua expressão ficou fria. Lágrimas geladas de decepção tomaram conta de seus olhos, mas ele se negou a deixar uma sequer cair.

 

— Não é sobre uma garota. Mas eu devia saber que vocês não iam se lembrar da nossa promessa, a memória de vocês é muito curta... — ele deu uma leve risada de escárnio. — Vocês não entenderiam.


— E-entender o quê-


— Até mais, Cilan. — Cress interrompeu. — Boa sorte.


— Cress, espera!

 

Ele não esperou. Ao invés disso, ele desceu as escadas o mais rápido possível, batendo os pés em cada degrau como se estivesse punindo esse lugar por todo o sofrimento que lhe causou. Ele se permitiu se sentir culpado por mais um segundo apenas quando murmurou:

 

— Desculpa, vovó...

 

Cress engoliu o choro sob aquele teto uma última vez antes de descer as escadas, rumo a... Seja lá o que lhe aguardava lá fora. Mas tinha que ser melhor do que o que estava deixando pra trás.


            


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