Posted by : Jolly E. Jun 20, 2026

 


Hilbert e Hilda estiveram em Striaton há pouco mais de um mês, mas parecia uma eternidade, e a tensão no ar era tanta que eles mal conseguiram aproveitar a cidade como era de costume. Comparada a Nuvema e Accumula, Striaton dava a impressão de ser uma cidade “de verdade”. Mais pessoas, mais barulho, mais coisas a se fazer, e mais história para se contar, o que trazia mais turistas do que as duas cidades anteriores. O fato de ela ser a primeira cidade do sudeste de Unova a ter um metrô funcional também ajudava essa impressão. Os irmãos subiram as largas escadas de pedra na entrada da cidade — que tinham duas rampas um tanto quanto estreitas e destoantes nos cantos, por questões de acessibilidade —, e Hilbert suspirou de alívio, pois essa seria a última inclinação que ele teria que subir nessa parte da região. No topo da escadaria, havia uma placa de metal com um pouco da história da cidade. O garoto já havia lido ela nas várias vezes que veio à Striaton, mas ele achava legal reler esse tipo de informação... Apesar de que haviam simplificado um pouco demais a parte histórica, talvez pra deixar a juventude mais interessada no passado:

 

STRIATON CITY

A escadaria que dá acesso à Striaton tem cerca de 300 anos, e foi construída em homenagem à entrada do Templo de Snowpoint em Sinnoh, a terra natal dos fundadores da cidade, que vieram à Unova em busca de um novo lar após o terremoto que selou o templo ter devastado parte do povoado próximo. O antigo nome de Striaton, Sanyou, também é um tributo à constelação de Herói das Várias Batalhas e à boa relação entre Unova e Sinnoh.

 


— Sá... Sániôu? — Hilda tentou pronunciar o nome, lendo por cima do ombro do irmão.


— San-yô. Com o “ô” igual Sinnoh — corrigiu Hilbert, espanando um pouco de neve do topo da placa. — Eu acho.


— Aaah... E Sinnoh e Unova tem boa relação, é? — Hilda perguntou enquanto os dois caminhavam em direção ao centro da cidade.


— Olha, a gente odeia Galar, Alola odeia a gente e Kalos odeia todo mundo, então acaba que Unova se dá melhor com Sinnoh.


— Saquei. E Paldea?


— Paldea na real tá ficando de saco cheio de Unova, porque tem uma galera do governo indo lá mendigar atrás do fenômeno da Terasteliza... — ele franziu a testa em confusão de repente. — Calma, desde quando você liga pra história?


— Desde nunca — Hilda deu de ombros com um sorrisinho. — Mas sei que ‘cê gosta de falar dessas coisas, então perguntei.

 

O garoto arregalou os olhos, abaixando o boné que havia roubado da irmã assim que sentiu o rosto esquentar.

 

— ‘Cê devia estudar essas paradas! — Insistiu a garota.


— Ah... Sei lá, não sei se sirvo pra nada acadêmico...


— Que não serve o quê, garoto, ‘cê todo ano era o aluno favorito da professora de história!


— Minha família já tem dois professores, já é bom o bastante.


— Mas nenhum de história! — Hilda persistiu mais uma vez. — Aí vocês fecham o bingo de biológicas, exatas e humanas!

 

Hilbert sorriu e revirou os olhos, mas por dentro, não dava pra negar que a ideia era um pouco satisfatória. Seu pai, um professor especializado em Pokémon do tipo Planta, e sua avó, a professora — no sentido mais literal da palavra — mais rígida de astronomia da Universidade de Castelia.

 

— Além do mais, a mamãe tem que ter algum filho que tenha sucesso na vida, né? — ela continuou, com um sorriso debochado.

 

O sorriso do garoto sumiu ao ouvir isso. A dupla teve que parar num sinal pra atravessar a rua, o que deu oportunidade a Hilbert de poder encarar sua irmã com o olhar mais sério que conseguia. Ele cogitou falar algo tipo “repete isso quando você virar campeã”, algo mais leve nessa pegada... Mas, dessa vez, ele foi talvez um pouco severo demais:

 

— Mamãe já disse várias vezes que também não era muito boa aluna. Que nem você. Você acha que ela não teve sucesso na vida?

 

Hilda arregalou os olhos, sentindo seu coração falhar uma batida só de ouvir essa insinuação que a pegou de surpresa.

 

— Q-quê?! — Ela piscou, franzindo a testa.


— Lembra quando meu pai brigou com uns ex-colegas de classe dele porque eles insinuaram que ele era inteligente demais pra ter se casado com uma pescadora? Você concorda com eles?


— Claro que não! O quê que você tá dizendo?!


— Então não fala essas coisas de você mesma. Eu já falei: Se dê. O devido. Crédito.

 

Ele se virou, ajeitando o boné na cabeça, meio constrangido com o olhar das pessoas que também aguardavam pra atravessar pairando sobre eles. Mas, por sorte, o sinal abriu, e a conversa morreu ali. Os irmãos ficaram em silêncio por vários minutos enquanto seguiam agora por uma quieta rua residencial perto da avenida principal, pegando um atalho até o Ginásio. E calados os dois permaneceram até o prédio entrar em seus campos de visão.


Por fora, parecia um apartamentozinho de tijolos de dois andares com um telhado turquesa, bem similar aos vários outros em Striaton, exceto que era um pouco mais conservado, com um toldo vermelho listrado em cima da porta, e, claro, com duas logos na parte mais alta do prédio: A da Liga Pokémon, e uma xícara marrom com o nome “Pokémon Café” escrita nela. Mas, se você forçasse um pouco a visão, você conseguiria ler “Striaton’s Restaurant and Gym” escrito em minúsculas letras douradas logo abaixo. Hilbert conhecia o lugar, embora ele estivesse bem diferente do que costumava ser. Da última vez que ele desfrutou do cardápio Sinnohano do restaurante, ele com certeza não era um Ginásio.


Logo na entrada, estava parado um rapaz vestido como um garçom, com olhos e cabelos verdes e feições delicadas, batendo o pé no chão e olhando pros lados. Hilda parecia reconhecê-lo, e se recuperou rapidamente da briguinha com Hilbert de alguns minutos atrás, indo até ele com um sorriso.

 

— Oi, tudo bom? ‘Cê é um dos líderes do Ginásio, né? Tô ligada que ‘cês são trigêmeos coloridos!


— A-ah, sim... M-mas não estamos aceitando desafiantes por hoje...


— Ué, por quê? ‘Cês tão sem vaga?


— É que... Hã... Estamos sem um líder, e... Não sabemos quando ele vai voltar... — Ele engoliu em seco, colocando as mãos atrás das costas com os ombros tensos. — M-mas ele deve voltar até amanhã com certeza, então, se você quiser eu posso... Anotar seu nome e seu contato, pra poder te ligar quando ele aparecer pra gente marcar a batalha.


— Opa, perfeito!

 

O rapaz — que rapidamente se apresentou como Cilan quando Hilda perguntou “qual dos três é ele?” — tirou um caderninho de garçom de um dos bolsos e escreveu as informações de Hilda, incluindo qual inicial ela havia escolhido. Cilan se despediu rapidamente e voltou pra dentro do Ginásio, dando mais algumas olhadas pela rua antes disso.

 

— E aí, ‘cê vai lá falar com aquela professora? — Perguntou ela ao irmão.


— Acho que agora não é uma hora muito boa... São dez horas já. — Hilbert conferiu o horário no seu Xtransceiver. — Daqui a pouco é hora do almoço, vai que ela não tá em horário de trabalho... Prefiro ir mais tarde.


— Quê que a gente faz agora, então?


— Hmmm...

 

Hilbert virou a cabeça pra olhar pra uma rua ao leste que seguia até a calçada acabar num caminho de grama, e voltou a encarar a irmã com um sorrisinho.

 

— Quer ir ver como tá o Dreamyard?

 

Hilda retribuiu com um sorriso ainda maior.

 

— Só vamo!

 

Como era de se esperar, o parque estava exatamente como sempre esteve. Era maior que o Slither Park de Accumula, mas mais urbano, com as ruínas do defunto centro de pesquisa ao fundo. O local tinha fama de ser esquisito à noite, mas durante o dia, era bem seguro. Como era uma sexta-feira de manhã, não havia crianças nos escorregadores de cimento ou nos balanços de metal, mas em algumas horas, com certeza elas iriam aparecer. Hilbert e Hilda sabiam disso bem, pois já estiveram no lugar delas.

 

— Quer ir no balanço? Pelos velhos tempos?


— Por que não? — o garoto deu de ombros.

 

Apesar da sua cintura mal passar nas barras de ferro que protegiam os lados do balanço para que a criançada não saísse voando, isso não impediu Hilda de se balançar como se tivesse dez anos de novo, levantando areia quando seus pés batiam no chão. Hilbert achou mais seguro só se sentar e ir pra frente e pra trás de leve, observando alguns Patrat se esgueirando nas árvores logo à frente. Ele riu quando sua Elgyem saiu do seu ombro e se abraçou numa das correntes do balanço de Hilda como se fosse um cipó.

 

— Ow! Já te contei que quando a gente se conheceu, logo antes de eu ir falar contigo, alguém invisível me empurrou nesse balanço?


— Como assim? — Hilbert cruzou os braços.


 — Eu tava aqui de boa, e tinha um moleque do meu lado que tava balançando forte pra cacete, e eu tava com inveja dele, né — ela começou a mover as pernas pro lado pro balançar ficar torto, o que fez Nia dar um guinchinho empolgado. — Aí quando eu pensei em chamar a mamãe pra me empurrar... Alguém me empurrou primeiro! Pegou no balanço e tudo! Só que quando eu me virei, péi, não tinha ninguém lá! E aconteceu duas vezes ainda!


— Não foi algum adulto aleatório não?


— Não, pô, na segunda vez, eu olhei pra trás rapidinho e não tinha ninguém lá!


— Que bizarro. Será que foi algum Pokémon psíquico? Têm alguns nessa área, vai que... Mas o mais doido é que essa é a primeira vez que eu tô ouvindo essa história.


— Ah, é que eu contei pra mamãe quando a gente chegou em casa e ela teve uma reação mei’ esquisita, ficou mei’ paranóica... Quase que ela não me deixa vir pra cá de novo.


— Hm. Por que-

 

Hilbert foi interrompido pelo som do seu Xtransceiver tocando, que só não foi mais alto que o grunhido frustrado que ele deu quando viu a palavra “Genitora” na tela. Ele protelou por vários instantes, mas no fim, resolveu atender, apertando o botão e se levantando do balanço com mais força que deveria.

 

— Fala.


Oi, filho-


— Não me chama disso — ele a interrompeu, nem se dando ao trabalho de mudar de expressão. — Diz.

 

Hilbert a ouviu suspirar de frustração do outro lado da linha, aquele suspiro familiar de alguém que estava no fim da sua paciência. Se você perguntasse a ele, ele diria que estava aguardando ansiosamente o dia que ela ficaria cem por cento sem paciência.


Seu pai me falou que você vai trabalhar pra professora Fennel... Tá empolgado?


— Arrã.

 

Miho esperou ele elaborar a resposta. Como sempre, ela aguardou em vão. Então, ela só seguiu com mais uma pergunta.

 

— E... Onde que você tá?


— Striaton.


Tá tudo bem por aí?


— Arrã.

 

Mais um silêncio constrangedor. Hilda até parou de se balançar, olhando para Nia como quem fofocava com o olhar.

 

Olha, a gente tá trabalhando com um rebanho de Deerling aqui na White Forest... Alguns vão pro Weather Institute, mas outros vão pra adoção. Se você quiser, posso te passar um pelo GTS.

 

Hilbert apertou os lábios e fechou com força o punho do braço em que estava o Xtransceiver.

 

— Não, valeu, dispenso. Meu pai já me deu um Pokémon, e é só isso que eu preciso — ele fez questão de falar devagar e pontuar as palavras do jeito mais afiado possível.


Só estou tentando ajudar.


— Única coisa que ia me ajudar era você parar de me ligar.


Então você quer que eu desista de você, é isso? — o tom de Miho era acusatório.


— Exatamente. Ainda bem que a gente se entende tão bem. Quer saber, cansei. Até a próxima — e desligou.

 

Quando ele se virou, Hilda tinha parado de se balançar, e ela e a Elgyem o encaravam. Ela ergueu as mãos com as palmas viradas pra cima e as abaixou, num gesto de “respira fundo”. Hilbert obedeceu, fechando os olhos enquanto enchia os pulmões de ar.

 

— Ela queria te dar um Pokémon, é?


— É... Um Deerling. Deve ter ficado sabendo que eu ganhei a Nia do papai e quis copiar a ideia.


— Vish...


— Pior coisa que aconteceu foi ela ter sido transferida pro santuário da White Forest... Só espero que ela não esteja esperando que eu vá visitar ela.


— Se ‘cê não quiser ir, não vai — Hilda deu de ombros.


— Você é a única que não tenta me convencer a falar com ela, sabia? — ele deu um risinho ácido, voltando a se sentar no balanço.


— Porque no seu lugar eu também não iria, ué, tanto que eu não vejo meus avós faz mó cota-

 

Ela se interrompeu, arregalando os olhos e os erguendo pro céu, procurando algo por trás das nuvens.

 

— ‘Cê acha que o vovô ia mandar a Mandi atrás da gente?


— Puta merda, eu esqueci do inferno dessa galinha... — Hilbert resmungou alto, colocando uma mão no rosto. — Sei lá, a obsessão dele é com a mamãe, não com a gente...


— Se eu ver essa porra por aí, vai levar choque, quero nem saber.


— Você sabe que agora você pode ser presa se eles pegarem alguma coisa criminosa naquelas camerazinhas, né?


— Eles que stalkeiam a gente e eu que vou ser presa?!

 

Antes que eles pudessem continuar debatendo sobre a possibilidade da Hilda ir pro xilindró, ambos viram um vulto azul-claro correndo em direção à saída do parque, quase tropeçando nas próprias botas de borracha de tanto desespero.

 

— Lou?! — gritou Hilda, reconhecendo o cabelo ruivo do amigo.

 

Ele nem se deu ao trabalho de parar, só erguendo o capuz do seu uniforme de forma desajeitada. Em questão de segundos, ele havia desaparecido.

 

— Ué, que estranho... Esse menino tá correndo pra tudo que é lado hoje, hein?


— Pra quê ele tá com esse pessoal pra começo de conversa? — se questionou Hilbert.


— Olha, da última vez que eu falei com ele por mensagem depois da formatura... Ele tinha comentado que tava atrás de algum emprego pra ajudar em casa. Será que eles pagam bem?


— Até agora tô sem entender o que eles fazem pra começo de conversa. Aquele moleque lá em Accumula falou, falou, e não disse nada.


— Mas do quê que ele tava fugindo? Será que apareceu algum Pokémon forte?

 

Antes que Hilbert pudesse responder, Hilda levantou e foi na direção de onde Lou havia vindo, em direção às ruínas do laboratório. Direção essa que era bem familiar pra ambos.

 

— Hilda, espera, essa parte é perigosa, tem muito bura- Ah, lá vamos nós... Vem, Nia. Bora atrás dela...

 

Hilbert revirou os olhos, mas foi atrás da irmã assim que sua Elgyem voltou a se apoiar no seu ombro.

 

[...]

 

Talvez uma pessoa com senso comum entraria em pânico se tivesse uma Seviper enrolada ao redor de seu corpo, com as presas venenosas terrivelmente próximas de sua jugular.


Aparentemente, Cress não era uma pessoa normal, pois ele só conseguia pensar em quão patética era essa situação.

 

— Então, minha querida, esse meu assassinato vai ser pra hoje ou pra amanhã?


— Talvez ainda hoje — zombou a garota da Team Plasma com uma voz aguda e açucarada. — Mas eu já falei, tem algo que eu quero de você.


— O quê? Uma insígnia? Se é esse lixo que você quer, eu dou sem problema.


— Não, algo muito mais importante que isso...

 

Ela se ajoelhou na frente dele, com uma expressão que Cress supôs que ela julgava ser intimidadora, mas parecia a de uma garota de treze anos tentando ser durona:

 

— Eu quero o molho de chaves do laboratório.


— ...Calma, você quer o quê?


— Tem muitos armários lá embaixo, no porão. Eles têm informações preciosas... E mais Dream Mist. E nós da Team Plasma... Queremos o que tem lá.


— E é por isso que você está me fazendo de refém — ele ergueu uma sobrancelha em desdém. — Se for isso, com todo respeito, você é desprovida de inteligência num nível que deveria ser estudado e reproduzido pela ciência, porque não tem motivo algum pra elas estarem com um mero líder de Ginásio que nem a própria Liga de Unova respeita... Se é que essas chaves ainda existam e não foram explodidas junto com o laboratório. Já tentou sequestrar o prefeito? Talvez tenha mais sor-


ARRÁ, É VOCÊ MESMO QUE EU TAVA ATRÁS! — Berrou uma voz feminina.

 

O líder de Ginásio, a sequestradora e seu Seviper olharam pra grade à esquerda deles, que era onde o grito havia vindo, e se ele não estava se importando muito com aquela esquisita antes... Agora ela não era ninguém, absolutamente ninguém. Pois diante deles... Estava uma das garotas mais lindas que Cress já havia visto na vida.


Olhos brilhantes e azuis, tal qual uma pedra preciosa, reluzindo de determinação. Cabelos castanho-acinzentados, presos num rabo de cavalo muito fofo com um boné de beisebol. Um sorriso empolgadíssimo, tão contagiante. Um porte físico forte, e postura de quem sabe muito bem o que quer e faria de tudo pra conseguir.


Ele precisava saber quem era essa garota. Ele sorriu antes que pudesse se controlar.

 

— Ah, se eu soubesse que você estava atrás de mim, teria me arrumado melhor esta manhã...


— Hein? — ela piscou, confusa.


— Se você queria tanto me encontrar, nada mais justo do que se apresentar direito, não é? Qual seu nome?


— Opa, é Hilda. Muito prazer!


— Bom, Hilda, o prazer é todo meu, acredite. Me diga, o que eu posso fazer por vo-


— E isso é hora de ficar batendo papo?! — A ruiva de uniforme de cavaleiro o puxou pela gola da camisa, mas Cress nem se deu ao trabalho de olhar pra ela.


— Eita, pera, o que tá rolando aqui?! Essa mina não é daquela Team Plate?


Template de um sequestro mal planejado, só se for — Cress debochou.


— É Team Plasma, seus insolentes!


— Ah, sim, verdade. Supostamente, eu sou refém dela... Mas fique tranquila, tá tudo bem, se eu estivesse em perigo real, meus Pokémon já teriam saído das Poké Balls pra me salvar. Voltando ao assunto, o que eu posso fazer por você?


— Então, eu queria que ‘cê voltasse pro Ginásio pra eu poder ganhar minha insígnia... Eu falei com um dos teus irmãos e ele disse que eles tavam esperando ‘cê voltar.


— Uhum, compreendo. É o procedimento padrão do Ginásio, mas peço perdão pela inconveniência. Claro, posso voltar — ele ignorou totalmente a promessa que tinha feito pra si mesmo de nunca voltar a batalhar naquele lugar, usando seu sorriso mais charmoso. — Será um prazer batalhar com você, se você não se importar.


— Claro que não me importo, pô, fui lá pra isso-


— Hilda, deixa pra conversar depois!

 

Ao lado dela, meio escondido por trás da parede, surgiu um garoto de cabelos castanhos e espetados com os ombros tensos, analisando a situação com os olhos indo de um lado pro outro.

 

— Ah, é, foi mal aí! Ow, ‘cê precisa de ajuda?! A gente te tira dessa!

 

Hilda deu vários passos à frente, próximo a um buraco relativamente fundo, com toras de madeira saindo dos cantos como se fossem os dentes de uma bocarra. Hilbert foi atrás dela, se colocando um pouco mais atrás.

 

Hmph, gostaria de ver vocês tentarem! — Provocou a ruiva.

 

Hilbert puxou a irmã pelo ombro e sussurrou ansiosamente no seu ouvido:

 

— Olha o tamanho dessa Seviper! A gente não tem como vencer!


— Mas a gente tá em três! Ela é grande, mas não é duas!


— Ela tem um ponto. E falando em não ser dois... — Cress concordou com um aceno de cabeça. — Não sei se você percebeu, sra. membro da Team Plateau mas... Você se colocou contra a parede usando o seu belíssimo Pokémon pra me prender.


— C-Como assim?!


— Veja bem, só tem uma única Poké Ball no seu cinto, correto? — ele apontou pra cintura dela com a ponta do sapato. — Assumo que seja do seu Seviper. Até consigo acreditar que ele tenha uma leve chance de vencer contra esses dois jovens treinadores. Mas! Pra usá-lo em batalha... Ele vai ter que me soltar. E aí seria três contra um, e garanto que a minha força é mais do que o suficiente pra mudar a maré. E então? O que você vai fazer?

 

A garota hesitou, ficando congelada no lugar com os punhos cerrados e uma expressão de ódio enquanto Cress sorria de forma debochada, Hilda mantinha sua posição de batalha e Hilbert engolia em seco.

 

— Ah, e tem mais: Nós temos o total direito de usar múltiplos Pokémon contra você, já que você está cometendo um crime aqui. E você se esqueceu de tirar minhas Poké Balls de mim, então eu posso gritar por ajuda e meus Pokémon virão ao meu resgate. — Cress deu um suspiro alto e sarcástico. — E você nem sequer vai conseguir pegar as chaves do porão... Seja lá quem for seu chefe, ele cometeu um erro contratando uma jovenzinha tão inexperiente pra fazer o trabalho sujo dele.


— Grrrr... Ah! Já sei! — ela estalou os dedos, sua expressão furiosa sendo substituída por aquele sorriso maldoso. — Eu tenho outro Pokémon, na verdade, seus tontos!

 

Do bolso fundo do macacão preto que ela usava por baixo do capuz e avental, ela tirou uma Poké Ball... E a criatura que saiu dela caiu no chão imediatamente, graças ao estado deplorável que se encontrava. Uma bolotinha cor-de-rosa com flores roxas desenhadas em seu corpinho se contorceu de dor no chão, com os olhinhos vermelhos semicerrados pela dor. Uma Munna, cheia de ferimentos, um deles saindo uma gosma roxa que pulsava com veneno. Pelo tamanho diminuto dela, era um filhote.


A ruiva da Team Plasma jogou a Poké Ball dela no chão e colocou um de seus pés sob a Munna e apertou de leve, a fazendo guinchar e soltar um pouco de fumaça preta pela boca. Hilbert, Hilda e Cress arregalaram os olhos, toda a confiança deste último sendo trocada por indignação.

 

— Se vocês tentarem me atacar, eu esmago essa bostinha aqui e agora! E ela é tãããão pititiquinha, acho que não vai ser difícil, hihihi! Posso não ter conseguido as chaves, mas não vou decepcionar meu papai saindo daqui de mãos vazias!

 

O Seviper ao redor de Cress o apertou com bem mais força, o fazendo grunhir de dor baixinho, e ele podia jurar que ouviu a serpente dando um risinho junto com sua treinadora.


Hilbert pôs as mãos na cabeça? E agora, e agora?! Eles não podiam deixar um Pokémon inocente morrer assim! Todas as possibilidades começaram a rodar em sua mente...

 

— ‘Cê é não se garante — disse Hilda, numa voz perigosamente baixa.


— O que você falou, sua piranha-

 

Mas a grunt não conseguiu dizer mais nada, pois em questão de dois segundos, ela levou uma cotovelada bem no meio do peito, a fazendo chutar sem querer a Munna pra perto do portão de metal da entrada. Ela caiu de traseiro no chão, sem ar, bem perto do buraco que a levaria ao porão do qual ela tanto queria obter as chaves... Do jeito mais perigoso possível.


Ela tentou erguer uma das pernas pra chutar Hilda, mas errou, e a morena apoiou os pés nos seus joelhos — o que fez a ruiva gritar de dor — e prendeu seus pulsos no chão, numa elasticidade invejável.

 

— Eu disse que ‘cê não se garante na porrada.

 

Cress arregalou os olhos e abriu a boca, não esperando que isso fosse acontecer. Já Hilbert, seu primeiro instinto foi correr atrás da Munna que havia rolado pelo chão... Mas apesar de temporariamente cega pela dor, a garota da Team Plasma o viu.

 

— S-Seviper!

 

A serpente Hoenniana largou Cress, usando seu corpo como impulso para se jogar em direção a Hilbert... Que só não teve o braço empalado por duas presas venenosas pois sua Elgyem teve o instinto de usar Protect, fazendo a cobra bater de boca na barreira invisível e sibilar com ódio. O garoto ficou tonto de medo, e caiu sentado no chão, sentindo o corpo inteiro tremer. Antes que Hilda ou Cress pudessem sacar seus Pokémon, a Seviper partiu pro segundo ataque, mais uma vez se jogando em direção a Hilbert com a boca totalmente aberta...


E no segundo seguinte, seu corpo ficou tão leve quanto o ar, e ele não estava mais lá. Salvo pelo Teleport. A cobra virou a cabeça pros lados em confusão quando seus dentes não se enterraram em carne macia. O que ela sentiu, no entanto, foi o impacto de três golpes diferentes. Um Tackle da Blitzle de Hilda, um Water Pulse do Frillish de Cress e um Bite de um Lillipup de...

 

Hilda se virou um pouco, conseguindo desviar de uma mordida que a garota ruiva tentou lhe dar no pescoço, e viu uma figura familiar. Loira, assustada, tensa, mas determinada.

 

— Bianca! Como ‘cê achou a gente?!


— O Lou me encontrou — Falou, bem mais séria do que de costume. — Disse que vocês precisavam de ajuda... Eu achei que eram os Hoodlums de novo, mas... O que tá acontecendo aqui?!


— Seviper, tira ela de cima de mim!

 

A zebrinha de Hilda até tentou morder um pedaço do corpo do Pokémon venenoso pra lhe impedir, mas sua boca passou reto. A garota deu um grito quando levou uma cabeçada no estômago do Seviper, e teria caído no buraco se uma viga de madeira podre não tivesse, por algum milagre, a impedido de cair. Cress imediatamente a puxou pra longe pelo braço. A ruiva correu até a Munna o mais rápido que pôde, deu um chute forte na criatura que a fez voar alguns metros, e aproveitou pra colocar seu Pokémon na sua esfera.


— Na próxima vez, eu juro que te mato, sua vaca! — gritou a ruiva.

 

E assim ela conseguiu fugir, fazendo questão de dar uma cotovelada dolorida nas costelas de Bianca, que quase caiu sentada no chão. Ela e Cress foram até Hilda, que se segurava a barriga enquanto se sentava no chão de cimento.


— Hilda!


— Consegue respirar sem dor? — Cress se ajoelhou ao lado dela, com os olhos azuis ainda arregalados. — Ouviu algum estalo quando ele te acertou?


— Ah! A Munna! — Bianca correu até o Pokémon quando teve certeza que Hilda conseguia se levantar, pelo menos.


— C-cadê o Hibi?! — ela desesperadamente começou a procurar por cada canto. — Hilbert!

[...]

 

Por vários segundos, Hilbert ficou sentado no chão, com os olhos fechados, suas mãos tremulando e sua respiração ofegante... E seus braços ao redor do seu Pokémon. Ele criou coragem pra ver onde estava quando Nia fez barulhinhos com as luzes em suas mãos e lhe deu uma cabeçada carinhosa. E, infelizmente, ele reconhecia o lugar, afinal, foi ali que ele e sua irmã tinham capturado o Woobat — hoje, Swoobat — da família. Bom, não ali, no andar abaixo. Aquele era o porão das ruínas do laboratório. Ele olhou pra cima, para o buraco que estava por perto. Se ele tivesse caído, teria sido uma queda horrível, digna de quebrar as pernas com o impacto, sem contar que teria sido cortado pelas vigas de madeira. Mas, se ele não tivesse caído, aquele Seviper ia, na melhor das possibilidades, ter cortado seu peito, bem em cima do coração. Pensar nisso lhe deu vontade de vomitar. Ter sido teleportado direto pro chão salvou sua pele, independente do que teria acontecido.

 

— O-obrigado... — ele murmurou pra Nia. — Se... Se você não tivesse pensado rápido...

 

Vermelho, amarelo, vermelho. Provavelmente um “não foi por nada”?

 

— Hilbert! — ele ouviu o grito trêmulo de Hilda, vindo lá de cima.


— Tô aqui!

 

Ela viu os rostos de Hilda, Cress e Bianca olhando pra ele com preocupação. Era difícil ver dessa distância, mas ele podia jurar que tinha uma lágrima correndo pelo rosto da irmã.

 

— A gente vai te buscar! — berrou ela. — Encontra a gente naquelas escadas!


— Tá!

 

O líder de Ginásio falou algo para Bianca que ele não conseguiu ouvir, mas como ela acenou com a cabeça e saiu em disparada pra direção oposta às escadas com a Munna no colo, ele assumiu que ela foi até o Centro Pokémon.


Ok. Agora ele só precisava sair dali. Hilbert se forçou a respirar fundo, só pra espirrar logo em seguida graças à poeira. Era só encontrar as escadas. E era só um porão escuro e abandonado. Só isso. Só isso.

 

— Não sai de junto de mim... — ele murmurou pra sua Elgyem enquanto ligava a lanterna do Xtransceiver.

 

Ela piscou uma sequência de luzes que, obviamente, Hilbert não entendeu, mas decidiu interpretar como um sim. Mas não dá pra dizer que ele se sentia mais seguro, pois a luz mostrava que não era só o pó que tornava o ar desse lugar opressivo. Havia uma camada de névoa escura em toda a parte, como se fosse fumaça, mas com um cheiro forte de ervas. Lembrava muito a Herbal Shop de Eterna, a loja favorita da sua genitora, lotada de incensos potentes que lhe davam dores de cabeça. Hilbert protegeu seu nariz com a gola da sua camisa, e mesmo no escuro, ele sentiu sua Elgyem sacudir a cabeça pra afastar o fedor também.

 

Que cheiro de Stunky... — Nia comentou pra si mesma.


— Argh, cheiro de mato da porra... — Hilbert comentou pra si mesmo.


Mato? Onde?


— A gente precisa sair daqui...

 

O garoto engoliu em seco, encarando a escuridão à sua frente. Ah, mas falar era muito mais fácil do que fazer... Quem sabe o que estaria esperando por ele? Seu estômago se revirava a ponto de doer... A cada segundo que se passava, ficava mais difícil de respirar, e ele suava mais, e seus joelhos tremiam, e ele não conseguia se acalmar o suficiente pra começar a andar...


Então ele fez algo que nem ele mesmo esperava: Começou a cantar.

 

Se um rio eu fosse ser... Ao Criador eu digo que gostaria de no Rio da Justiça me transformar... — sua voz trêmula, apesar de abafada pela sua camisa, fazia um eco persistente.

 

Até o Rio da Justiça Secar, uma música antiga que Helga adorava cantar. Logo antes dele e Hilda saírem em jornada, ela começou a tocar violão de novo, e poucos dias antes deles irem embora, ele a ouviu cantando essa na sala. Imaginar a voz da sua mãe o fez engolir o medo, já que ele sabia que a familiar horda de Woobat não se encontrava nesse andar, e um passo lento após o outro, ele seguiu adiante.


Ele desviou de garrafas e cacos de vidro no chão, empurrando de leve uma delas pra trás com o pé. Ela rolou devagar até bater numa estante caída, cheia de potes de vidro vazios, a maior parte deles já estilhaçados, mas um ou outro deram a sorte de ainda estarem vazios.

 

Quantas gotas de chuva irão pelas vidraças escorrer até o vale em que eu cresci alcançar? Enquanto minha água subia, eu segui cantando uma fúnebre melodia...

 

A luz do sol brilhava por alguns buracos no teto, revelando a quantidade absurda de poeira e aliviando a escuridão por alguns instantes. Hilbert passou reto pelos armários empoeirados que a grunt da Team Plasma tanto queria. Os vidros estavam intactos, estranhamente. Talvez fossem muito resistentes? Passou também pelos restos de uma fogueira... E por uma calça jeans abandonada... Seja lá qual a história por trás disso, ele definitivamente não queria saber.


E havia mais uma estante caída, e estava vazia, exceto por um pedaço de papel. O garoto não resistiu à curiosidade, e o pegou. Havia uma logo com a silhueta de uma Munna, que dizia “Unova Dream Institute”. O nome deste lugar antes de virar Dreamyard. Ele era familiar, mas ele não sabia dizer onde já havia o visto antes... E ele não ia parar pra se perguntar agora, principalmente depois de ter dado um pulo quando ouviu um barulho meio distante de algo caindo. Continue cantando, continue cantando!

 

Oh, dee-oh-dee-oh-dee-oh, dee-oh-dee-oh-dee, oh...

 

Apesar do seu coração ameaçar pular pela boca, Hilbert teve que dar uma risadinha quando sentiu sua Elgyem cantarolar o ritmo do seu yodel... Bom, ele achava que era um cantarolar, pelo menos, o som parecia de um Xtransceiver vibrando, só que mais agudo.

 

Enterro meus segredos nas profundezas, minhas tristezas onde somente os Basculin podem alcançar... Onde as ondas do mar não podem revelar o que escondo...

 

Ele e Nia seguiram com a música, passando pelo refrão enquanto seguiam na diagonal, ocasionalmente desviando de uma parede. Hilbert também desviou de mais lixo, mais pedaços do laboratório que não existia mais... E de algumas poças com cheiro azedo tão potente que até apagou o cheiro da Herbal Store por alguns instantes, mas não por muito tempo. De novo, ele não queria saber o que era. Uma hora, eles viram um brilho rosa pelo canto do olho e o garoto quase desmaiou de susto, mas era só uma pedra cor-de-rosa que Nia fez questão de pegar do chão, entusiasmada. Estava limpa e era bonitinha, então Hilbert a colocou na bolsa. Talvez valesse alguma graninha?


No começo ele se sentiu meio besta, mas agora, ele tinha que dar o braço a torcer e dizer que cantar tornou essa situação bem menos assustadora. Dava até pra fingir que era uma caminhada normal como qualquer outra. Só que num lugar escuro. E vazio. E imundo. Ele só esperava que ninguém estivesse o ouvido... Mas pelo menos a fumaça preta parecia estar se dissipando. E assim que o segundo verso acabou, finalmente, por trás de uma parede surgiu uma luz, a luz de uma escadaria, a mesma pela qual Hilda e Hilbert desceram tantos anos atrás! Ele pulou por cima de um pedaço de madeira no chão, quase correndo, já sentindo o vento frio do lado de fora...

 

Mush...? — disse um eco profundo logo nas suas costas.

 

Ele congelou logo no pé das escadas, sentindo um arrepio pela sua espinha. Hilbert lentamente virou o rosto pra encarar várias figuras redondas e cor de rosa. Havia quatro Munna e um Pokémon que só podia ser Musharna, a evolução delas. Era bem parecida com sua pré, só maior, com olhos fechados, sem flores e com uma névoa constante saindo de um buraco na cabeça. A Dream Mist, que no momento estava num tom escuro de magenta.




Eu entrei no território delas, era só isso que Hilbert conseguia pensar com suas mãos suando frio. Pior ainda, e se elas achassem que havia sido ele que havia maltratado o filhotinho?! Ele só conseguiu dar um passo pra trás, já calculando quão rápido ele conseguia correr... E suas chances não eram boas, apesar de Nia poder lhe proteger por algum tempo, e talvez Hilda e Cress estivessem a caminho também. O que elas iriam fazer com ele? Lhe causar pesadelos? Espremer seu cérebro até virar geléia? Atirá-lo contra a parede até seus ossos quebrarem?


As Munna abriram a boca, e ele tensionou o corpo, se preparando pra fugir e gritar por socorro. Mas só conseguiu também abrir a boca em choque quando ouviu a sua própria voz saindo da garganta das criaturas. O seu yodel, o “dee-oh-dee-oh-dee-oh”. E elas estavam... Dançando? Flutuando no ar de um lado pro outro no ritmo da melodia, fazendo brilhar as flores em seus corpos. Nia lhe deu uns tapinhas no ombro, como se o encorajasse. Ele revirou o cérebro em busca da próxima parte da música:

 

— H-Hã... P-pinte-me de cinza e azul-turquesa, rio, leve-me pela correnteza? — o nervosismo fez essa linha parecer mais uma pergunta.

 

A Musharna fez mais um som ecoado que Hilbert interpretou como um resmungo de aprovação, então ele só fechou os olhos e continuou, ainda com o corpo tenso:

 

Afogue cada pedra e dobradiça, no Monte da Direção eu sou a justiça, e no fundo do mar me encontrarão...

 

A Elgyem viu algo no chão à direita deles e imediatamente abandonou o seu treinador, que só lhe lançou um olhar desesperado por meio segundo antes de voltar a cantar com as Munna que cantarolavam junto — ou o mais próximo disso que conseguiam. Mas... Tinha algo estranho acontecendo.

 

E eu digo: Oh, dee-oh-dee-oh-dee-oh, dee-oh-dee-oh-dee, oh... Até o Rio da Justiça secar, até o Rio da Justiça secar...

 

Hilbert percebeu que a cada palavra cantada saída de sua boca, a fumaça da Musharna ficava mais e mais clara, ficando na cor rosa que seria seu normal... E que a névoa escura ao redor deles praticamente não existia mais, e nem o cheiro de ervas. Ele voltou pra um dos versos da música logo depois do primeiro refrão:

 

Quando no céu não houver uma nuvem sequer, quando o céu clarear...

 

Por que seus olhos estavam ficando pesados do nada... E por que o ar agora estava com cheiro de Old Gateau? Hilbert piscou com força pra se manter acordado, mas de nada adiantou, ele ainda teve que arranjar forças de dentro pra terminar a estrofe:

 

Pode em paz pela água flutuar, sabendo que eu nasci pra te amar...

 

A última coisa que o garoto viu antes de fechar os olhos de vez foi a Musharna flutuando em sua direção, e a última coisa que ouviu antes de cair no pé das escadas foi a voz da sua mãe saindo da boca da criatura. 


Hilbert sabia que estava sonhando, pois ele se encontrava na entrada do Pal Park de Sinnoh, que existia apenas nas suas memórias há anos. Depois da morte de seu avô, Andrew havia vendido o terreno pro governo, que abriu um museu no lugar.


O sonho podia não ser real, mas era bem realista. O som do mar à sua direita e do vento soprando a grama da campina que se estendia por metros em frente pareciam de verdade. Mas aquele cheiro de Old Gateau ainda persistia... Hilbert olhou pro lado, sabendo exatamente o que dizia a placa que estava bem ali: “Feito Pra Um Novo Começo”. Esse era o lema do Pal Park. Era o projeto da vida de seu pai... Ênfase no era. O luto havia destruído esse sonho.

 

— Ô, tá dormindo, é?

 

Ele se virou já com um olhar confuso no rosto. Hilda? Ela nunca tinha ido à Sinnoh, Hilbert já se recusava a ir visitar sua genitora quando eles viraram irmãos... E ela com certeza não usa óculos de grau. Nem tem uma jaqueta de couro maneira que nem essa que estava usando, nem uma camisa de Honchkrow.

 

— Bora, o papai tá esperando! — Ela agarrou seu pulso.

 

Mas roupa nenhuma era mais estranha que isso que tinha acabado de sair da boca dela.

 

— Papai? — Hilbert franziu a testa mais ainda.


— ...É? Nosso pai?

 

Nesses quase dez anos que eles se conheciam, Hilda nunca chamou Andrew de “pai”. Ela no máximo o chama de “tio” quando ela precisa se referir a ele de alguma forma. Mas... Esses óculos que ela usava... Será que...? Ele procurou pelo rosto dela qualquer coisinha que entregasse, mas mesmo nesse mundo dos sonhos, ela ainda era praticamente um clone de Helga.

 

— O que foi, hein? — ela puxou o pulso dele mais uma vez. — Vamo comer, eu e a Ponyta tamo com fome!


— Você tem uma Ponyta?

 

Hilda o encarou com a expressão mais neutra possível, e abriu a boca pra falar algo... Mas seu rosto mudou do absoluto nada pra um olhar aterrorizado.


E ela lhe deu um tapa na cara.

 

AI! QUE PORRA FOI ESSA, HILDA?! — ele ergueu a mão pra tocar na própria bochecha.

 

Quando ela respirou fundo aliviada, foi quando Hilbert percebeu que ele não estava mais no Pal Park e a Hilda que ele conhecia estava à sua frente, com o queixo tremendo. Agora ele tinha certeza que ela havia chorando. Ele olhou pra trás por um segundo. Os Pokémon Psíquicos não estavam mais lá.

 

— Que susto, cacete! A-a gente chegou e 'cê tava aqui desmaiado!


— Foram... Foram as Munna...

 

Falando nelas... A Elgyem se aproximou do trio com um barulhinho empolgado. Os três se viraram pra vê-la carregando um dos poucos potes de vidro intactos do lugar, que agora estava cheio de uma grossa fumaça rosa.

 

— Creio que isso seja a Dream Mist que aquela perturbada estava atrás? — perguntou Cress.


— Acho que sim? — Hilbert pegou o pote das mãos do seu Pokémon, analisando a fumaça de perto. — Hm, se pá seria uma boa levar pra professora Fennel...

 

Hilda ajudou o irmão a se levantar, e tentou limpar uma lágrima do rosto com as costas da mão do jeito mais discreto possível. Enquanto isso, Cress deu uma leve fungada no ar, olhando em direção à luz do Xtransceiver do Hilbert.

 

— Que cheiro é esse?


— É... Tá um cheiro estranho... — a garota concordou, franzindo a testa.

 

Então, respectivamente, Hilbert, Hilda e Cress disseram ao mesmo tempo:

 

Old Gateau.


— Maresia!


— Curry de maçã...

 

Os três se olharam com a mesma expressão perdida, e aproximaram os narizes do vidro pra tentar sentir algo... E confirmaram que, de fato, eles sentiam esses três cheiros totalmente diferentes.

 

— Bom, se você vai se encontrar com a professora, talvez ela tenha uma explicação pra isso — Cress disse quando os três chegaram no topo das escadas da saída.

 

— Espero que sim, isso é bizarro... Hilbert ponderou enquanto guardava cuidadosamente o pote dentro da sua bolsa.


— Mas, antes de mais nada... Devo um agradecimento a vocês — ele se curvou de forma levemente exagerada, como se fosse um príncipe. — De um jeito ou outro, vocês me salvaram.


— Que isso, cara, não foi nada! — Hilda sorriu, corando um pouco.


— O mínimo que posso oferecer a vocês é um almoço no meu Ginásio. Por minha conta. Sua amiga está convidada também, se assim ela quiser.


— Olha, aceito demais, hoje foi o dia mais longo da minha vida... — Hilbert suspirou, tirando o moletom marrom pra amarrar na cintura.


— E aquela batalha, hein?! — Hilda voltou ao seu entusiasmo padrão.


— Isso também! Assim que vocês acabarem de comer, podemos marcá-la imediatamente.


— Boa! Vamo atrás da Bibi no Centro, ver como que tá a Munna e aí a gente vai!


— Mas ow, Hilda, você tá bem? Foi você que levou uma cabeçada de uma cobra de cinquenta quilos no estômago...


— Tô zero bala! Sério, não tô sentindo nada!


— Você é feita de aço mesmo... — Hilbert suspirou de novo, mas sorriu.

 

[...]

 

Num canto isolado do outro lado do Dreamyard, Aldith, a grunt ruiva, reclamava em alto e bom som pra alguém pelo seu Xtransceiver.

 

— Eu ia conseguir, xuxuzinho, juro! Era só aqueles treinadorezinhos ridículos não terem aparecido... E se o puto do Lou não tivesse arregado!


Tem certeza, Dith? — perguntou a voz de um homem bem mais velho que a garota. — Parece que você não, hã, se preparou o suficiente...


— Mas, olha só, pelo menos eu peguei uma Munna!

 

Ela levou à mão em direção ao bolso... E gelou por inteiro quando percebeu que havia deixado a Poké Ball no Dreamyard.

 

Menos mal, então, o patrão não vai se estressar tanto... Mas, bom, temos nosso plano B, então tá tudo certo, no fim das contas. Te vejo no jantar, bonequinha?


— C-com certeza, papai! — ela gaguejou, se levantando do chão imediatamente, já indo ao lugar do conflito. — Tchau, tchau!

 

Dessa vez, Aldith se dirigiu com cuidado, garantindo que não havia mais ninguém por ali. A barra estava limpa. Ela xingou quando viu a esfera que havia utilizado pra capturar a Munna estava totalmente espatifada, como se alguém tivesse pisado nela. Algum daqueles pirralhos deve ter quebrado!

 

— Grrrr... Argh, que seja, o que mais tem por aqui é Munna, vai ser facinho!

 

No segundo que ela virou, havia uma Musharna. De olhos abertos, soltando fumaça preta com a bocarra aberta.

 

Aldith só teve tempo de gritar em desespero quando o Pokémon mordeu sua cabeça com força. Inúmeras cores piscaram em sua visão, e o som do seu corpo caindo no chão de cimento ecoou pelo lugar vazio.


E ali ela ficaria por horas a fio, até que a criatura decidisse que havia sido punida o suficiente.


            

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  1. OLHA

    a progenitora do Hilbert querendo dar um Deerling a ele diz muita coisa do relacionamento entre ambos KKKKKKKK

    Deerling são bichos que eu imagino serem super comuns, a mulher basicamente quis pegar qualquer coisa que encontrasse no meio da rua para dar ao filho

    AH, e foi incrível a parte do Hilbert cantando para espantar seu medo da escuridão. Será que o menino já está praticando para os MUSICAIS DE UNOVA? Só o tempo dirá

    Excelente Capítulo!

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  2. Na minha cabeça, é divertido pensar que o Hilbert tava cantando um louvor gospel.

    Dear Jolly,

    A prefeitura de Striaton poderia interditar essa área, mas acho que ela foi mais perspicaz e acabou lançando jogos vorazes infantil lançando o parquinho. A criança que for muito curiosa, morre e assim a gente lida com a seleção natural.
    Eu dou 10 conto que se tivesse criança nesse parque a Hilda provavelmente brigaria com elas pelo balanço.

    CARA, O CRESS E O ETHAN TENDO UM GOSTO EM COMUM PARA MORENAS E NÃO ESCONDENDO A CARA DE TONTO AO VER UMA ME PEGA DEMAIS. AI AI, HOMENS

    Te devo elogios pela ambientação do subsolo, apesar que eu imagino o Hilbert tendo 30 surtos de hipocondria kkkkkkkkkk Aquela poça ele já imaginou 400 tipos de vírus, bactérias e um tétano. É o camarão caindo no prato do alérgico, incrível.
    Brincadeiras a parte, eu achei muito genial a ideia dos cheiros reconfortantes e como isso dá um background para entender o Dream Mist. Também achei maluco o sonho e esse balé de Munnas.

    Gosto muito do desenvolvimento gradual de personagens com algumas revelações e intrigas. MAS HILBERT, EU TERIA ACEITADO O DEERLING. Tretas a parte, Deerling dado não se olha os dentes haushuashuahu

    PArabéns pelo capítulo, Jolly

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